Copa Sul Gay abre 2019 do esporte LGBT+

Copa Sul Gay abre 2019 do esporte LGBT+

Terceira edição do evento promove também futebol feminino e vôlei

Assim como na primeira edição, Sereyos será novamente o anfitrião da Copa Sul Gay / Crédito: Arquivo Sereyos

Por Flávio Amaral

Assim como foi em 2018, mais um ano se inicia para o esporte LGBT+ com Florianópolis abrindo os trabalhos. A Copa Sul Gay, que chega à sua terceira edição novamente sob organização do Sereyos (SC), será o primeiro torneio inclusivo de 2019 e promete agitar a cidade insular.

Mas a principal diferença da vez é a dimensão do evento. Afinal, quem disse que os campos são só deles? No dia 09 de fevereiro, enquanto os meninos disputam a terceira edição da Copa Sul Gay, as meninas participam da primeira Copa Sul Feminina de futebol. Serão 10 times em cada competição, tudo isso na Arena São José, a partir das 11h30.

Alguém disse que é só futebol? Nos dias 23 e 24 do mesmo mês será a vez de a bola subir para a Copa Sul Gay de Voleibol, no SESC Prainha, das 08h às 22h. Dezesseis equipes estarão na disputa que promete trazer uma dose extra de representatividade para o esporte da capital catarinense. E bota extra nisso: são mais de 600 atletas envolvidos.

A programação conta com shows, DJs, futebol drag show, futebol de bolha, gaymada (a já tradicional queimada), gaymada com balões d’água, apresentações de drag queens e de escola de samba, praça de foodtrucks, lounge, festas noturnas em parceria com casas da cidade e uma day party a beira-mar para o encerramento.

A organização ressalta o lado social do evento, que marca um novo momento na resistência e na luta contra o preconceito através do esporte. Tanto para o futebol como para o vôlei, é pedida a contribuição de um quilo de alimento não perecível ou um brinquedo como entrada.

“Estamos muito felizes com a proporção que a Terceira Copa Sul Gay tomou, desta vez trazendo a luta das mulheres dentro do futebol com a Primeira Copa Sul de Futebol Feminino e também com a Primeira Copa Sul Gay de vôlei. A expectativa está a mil! Mais do que nunca, estamos conseguindo fazer deste campeonato um ato de inclusão, política, liberdade, igualdade, consolidando cada vez mais esse movimento maravilhoso com tanta gente incrível trabalhando junto para dar certo!”, comemora o presidente do Sereyos, Eddie Prim.

Pontes construídas pela inclusão

Pontes construídas pela inclusão

Laços entre os participantes dos Gay Games de Paris são mantidos cinco meses após

Árbitra Kimberly Hadley foi uma das maiores entusiastas de nossa equipe durante os Gay Games de Paris / Crédito: Arquivo pessoal

Por Flávio Amaral

Cinco meses após o fim da décima edição dos Gay Games, conferindo minhas redes sociais, me deparei com uma notificação que me levou de volta no tempo. Para minha surpresa, Kimberly Hadley, árbitra da final do futebol 7 masculino, tinha marcado a mim e a outros dois companheiros de BeesCats em uma postagem na qual parabenizava nosso time.

“Eu tenho tanto orgulho de vocês Douglas Braga de Oliveira, Andre Machado, Flávio Amaral e os outros BeesCats por continuarem a proporcionar a oportunidade de criar sonhos para outros gays que querem jogar futebol em um espaço seguro.

Conheci vocês todos nos Gay Games em Paris (LGLFA World Championship XXIII) e tenho orgulho de lhes chamar de meus amigos e familiares. Que grupo maravilhoso de homens que, por acaso, são tão bons jogadores de futebol!

Gostei de lhes conhecer e de arbitrar algumas das partidas de vocês! Agora o desafio para vocês é desenvolver uma equipe de mulheres para se tornar parte do seu clube e para eventualmente formar uma LiGay feminina. Espero vê-los em Las Vegas janeiro de 2020! Muito ❤! Mamãe”

Mensagens carinhosas como essa nos levam a pensar sobre o valor dos laços que estabelecemos em nosso convívio, sobretudo em meio à luta que travamos a cada treino, a cada jogo, a cada torneio. Companheiros de time, jogadores de outras equipes, árbitros, treinadores, drags madrinhas, torcedores… são centenas de laços que forjamos a cada experiência no futebol inclusivo.

O texto de Kimberly foi traduzido para ser publicado nesta coluna, mas o original foi escrito em inglês, mesmo idioma através do qual o filósofo Teilhard de Chardin criou a célebre frase “no men is an island” (“nenhum homem é uma ilha”), reforçando a necessidade de contarmos uns com os outros para sobrevivermos.

A sobrevivência nesse caso pode se referir desde à vida em sociedade, num sentido geral, até aos desafios e lutas nos quais nos engajamos, de um ponto de vista mais específico.  O movimento do esporte inclusivo é um trabalho feito a muitas mãos – e pés – em todo o mundo.

Esse mundo da bola um pouco mais colorido do que o que estamos acostumados a ver na mídia se encontrou em Paris para aproximadamente 10 dias de confraternização. No Brasil e pelo resto do mundo, cada vez mais equipes seguem nessa jornada. A temporada 2018 está apenas começando.

Vasco em defesa da diversidade sexual

Vasco em defesa da diversidade sexual

FIFA reconhece ações de vice-presidente pela inclusão no futebol

Sônia Andrade, à esquerda, é a porta-voz do Vasco pela inclusão social e pela diversidade sexual em ambiente esportivo / Crédito: Rafael Ribeiro/Vasco.com.br

Por Flávio Amaral

Pode-se dizer que em 2018 clubes brasileiros voltaram sua atenção para a diversidade sexual. Episódios de cânticos homofóbicos vindos das arquibancadas, como no clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, quando torcedores atleticanos utilizaram o nome do presidente eleito Jair Bolsonaro para disparar preconceito em direção aos adversários no Mineirão, exigiram posicionamento público das instituições nas redes sociais e na imprensa.

Essa atitude dos clubes já pode ser considerada um avanço em prol do respeito às diferenças, um verdadeiro passo na direção da aceitação à diversidade. No Rio de Janeiro, o Vasco obteve outra conquista – dessa vez, internacional – nesse quesito. O clube recebeu da FIFA uma carta de agradecimento e apoio às ações desenvolvidas pela vice-presidente geral, Sônia Andrade, no combate à violência e à discriminação sexual no ambiente esportivo.

A entidade máxima do futebol mundial afirmou, no documento, “parabenizá-la pelo seu compromisso e dedicação em abraçar a inclusão em nosso amado jogo”, garantindo que a gestora “tem todo o apoio moral da FIFA nessa área, pois também estamos trabalhando incansavelmente para garantir que não haja espaço para discriminação ou exclusão em nosso esporte”.

A primeira coluna de 2019 traz um bate-papo com Sônia, a única mulher em cargo de gestão em clubes da Série A do futebol brasileiro. Em seus depoimentos, ela comenta a influência do domínio masculino no esporte para a disseminação do preconceito, conta seu sentimento e sua reação com a comunicação recebida da FIFA e aponta a educação e o esclarecimento sobre o preconceito como caminho para o respeito às diferenças.

Confira a íntegra da conversa com ela:

Orgulho em Campo: A homofobia permeia todo o esporte, mas no futebol ela é mais presente – ou menos disfarçada. Na sua opinião, onde está a raiz desse preconceito?

Sônia Andrade: A meu ver, essa realidade se dá pelo fato de o futebol, infelizmente, ainda ser um esporte no qual o homem impera, não somente nos cargos de gestão, como também nos de diretoria, tendo pouquíssimas mulheres assumindo tais funções até hoje. Por isso, acredito que o machismo no futebol está mais latente do que em outros esportes. Dessa maneira, pessoas que possuem atração pelo mesmo sexo acabam sofrendo mais com as consequências desse preconceito absurdo no ambiente futebolístico.

OC: Qual a sua sensação ao receber o agradecimento da FIFA pelos esforços empreendidos no combate à violência e à discriminação sexual no ambiente esportivo?

SA: Foi uma das coisas mais especiais que aconteceram comigo na função de Vice-Presidente Geral do Club de Regatas Vasco da Gama. Para mim, é muito importante saber que a entidade que regula o futebol mundial apoia e reconhece o trabalho que venho desenvolvendo. Desde que assumi o cargo, tenho levado muita a sério tudo que realizo. Por isso, até hoje, só assinei embaixo daquilo que eu realmente acredito que vá trazer benefícios para o clube, para os torcedores ou para a população em geral.

O agradecimento aconteceu durante aquele episódio de covardia contra mulheres ocorrido na Copa do Mundo de 2018 [em que brasileiros fizeram uma russa repetir o nome de um órgão sexual; o episódio viralizou e despertou indignação nas redes sociais]. Me revoltei quando vi aquelas cenas de homens discriminando mulheres que se encontravam em uma situação de vulnerabilidade pelo fato de não entenderem o idioma, achei uma atitude inadmissível.

Na qualidade de Vice-Presidente do Vasco e sendo a única mulher com função de gestão nos clubes da Série A, eu precisava me manifestar. Decidi me remeter a vários órgãos relacionados ao esporte: secretarias, ministérios e mesmo a FIFA. Para minha surpresa, minhas palavras foram lidas e respondidas da melhor forma possível. Isso significou muito para todos nós do Vasco, pois foi uma forma de reconhecimento do trabalho que estamos desenvolvendo no clube, um trabalho sério de combate à violação de todas as formas de direitos e que eu pretendo deixar de herança para o futebol mundial.

OC: O Vasco é um clube pioneiro nas questões sociais em âmbito étnico/racial. Qual deve ser, para você, o papel desempenhado pelo clube para também, ser reconhecido como uma instituição inclusiva e que apoia a diversidade?

SA: Acredito que a palavra-chave seja educação. O papel que o clube deve desempenhar deve estar sempre voltado para a área educacional. Precisamos esclarecer, ensinar, procurar inserir pessoas para divulgarmos que hoje, na sociedade na qual vivemos, não cabe mais discriminação de qualquer tipo. A meu ver, usar o futebol para divulgar essas ações é o mesmo que potencializar os efeitos benéficos que elas podem trazer para a população em geral. À medida que conscientizamos as pessoas por meio de ações educacionais, palestras, inclusão de pessoas que possam propagar essas ideias, vamos cada vez mais combatendo o preconceito, seja ele de qualquer tipo.

OC: Que atitudes e medidas você apontaria como responsáveis para que você tivesse esse reconhecimento por parte da entidade que regula o futebol mundial?

SA: Na qualidade de Registradora Pública, sempre tive como bandeira o combate à homofobia. Sempre trabalhei para erradicar o preconceito, participei de movimentos que demonstrassem que a discriminação é algo que nunca deveria ter existido e, por isso, precisa ser combatida com todas as forças.

Inclusive, foi registrado no meu cartório (6º Ofício de Registros de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro) o documento que deu base dentro do STF para uma decisão favorável ao casamento ente pessoas do mesmo sexo. Então, eu sempre fui pioneira na defesa dessas causas dentro da área do registro público.

Com essa minha bagagem, hoje eu venho tentando inserir ações que combatam toda forma de preconceito dentro do futebol. Ninguém pode ser discriminado por conta da sua orientação sexual, cor, religião ou gênero. Qualquer tipo de discriminação precisa ser combatido. Acho que, por isso, a CBF, a FIFA e os clubes de futebol me têm visto com bons olhos, pois sou uma pessoa que executa aquilo em que realmente acredita. Por acreditar e querer o melhor para a sociedade, venho combatendo todo tipo de discriminação.

OC: Recentemente, os clubes vêm se posicionando contra atitudes preconceituosas de suas torcidas. Qual deve ser, na sua opinião, o posicionamento das instituições para coibir episódios de homofobia e preconceito?

SA: Acredito que todo combate ao preconceito precisa passar pela questão do esclarecimento. A criminalização de uma atitude sem a explicação do motivo de ela ser errada não funciona, a meu ver. Na minha opinião, o primeiro ato que precisa ser tomado está ligado à educação. Por isso, o Club de Regatas Vasco da Gama está terminando uma cartilha intitulada “Vasco contra a violação de todos os direitos”. Está na hora de esclarecermos à sociedade que não cabe mais nenhum tipo de discriminação nos dias atuais.

O primeiro passo é combater a violência do preconceito a partir da informação. Se os mesmos tipos de postura persistirem, cabe aos clubes criar departamentos com o objetivo de punir pessoas que pratiquem atos desta natureza.

Foto: CartaFIFA (Legenda: Íntegra da carta de agradecimento da FIFA recebida por Sônia Andrade / Crédito: Reprodução/Vasco.com.br)