Os 40 anos do gol de Rondinelli

Os 40 anos do gol de Rondinelli

Título de 78 deu origem às maiores glórias do Fla e a muitas músicas

Quando a bola venceu Emerson Leão, depois da certeira cabeçada de Rondinelli, aos 41 minutos do segundo tempo da última partida do segundo turno do Campeonato Carioca de 1978, foi iniciada a Era mais gloriosa do futebol do Flamengo. Na próxima segunda-feira, dia 3, aquele título carioca, o primeiro do terceiro tri estadual rubro-negro, completará 40 anos. Mas para muitos parece que foi no domingo passado.

 

Edu Kneip com Rondinelli

Foto: arquivo pessoal

Para relembrar aqueles tempos de grande alegria para a torcida rubro-negra, um apaixonado flamenguista pôs em músicas a trajetória daquele time: Edu Kneip. Com uma composição para cada grande jogo ou conquista, o violonista, cantor e compositor lançou recentemente o CD “Vencer, vencer, vencer”. O álbum deste paulista de Taubaté abrange o período de 78 a 83, com a liberdade poética de estender à Copa União de 87, pelo grande time que formou, mas já sem muitos da base anterior, e ao Brasileiro de 92, especialmente pelo Maestro Júnior, nosso entrevistado de dois episódios atrás .

Tabelando com o Maestro Júnior

 

Porém, esta coluna trata daqueles primeiros momentos do melhor Flamengo de todos os tempos. E, após a abertura com “Manto Sagrado”, a faixa 2 narra justamente aquela tensa partida contra o Vasco, naquele tão longe e tão perto 3 de dezembro, terminando com o gol do “Deus da Raça”.

Naquele período inicial, outros compositores flamenguistas, pressentindo os dias de glória e euforia que viriam, gravaram homenagens ao clube do coração. Além de “Flamenguista”, de Pepeu Gomes, gravada em 1978 e que já entrou nesta Jogada no capítulo sobre o Clássico dos Milhões

O musical Clássico dos Milhões

, outro componente dos Novos Baianos também vibrou “rubro-negramente” em notas musicais: Moraes Moreira, em “Vitorioso Flamengo”, de 1979.

 

Kneip agora e vários compositores na época gravaram outras muitas músicas em celebração pelos muitos títulos conquistados pelo Fla, de 79 a 83, especialmente a Libertadores e o Mundial de 81. Mas estas ficarão para uma próxima Jogada de Música. Fique abaixo com o gol do Deus da Raça, na narração de Luciano do Valle e o comentário de J. Hawilla, em transmissão da TV Globo.

 

Por Eduardo Lamas

Corinthians, o campeão dos campeões

Corinthians, o campeão dos campeões

Quantidade de músicas em homenagem ao Timão é gigantesca

Campeão brasileiro pela sétima vez no ano passado e dono da segunda maior torcida do país, o Corinthians também pode se orgulhar de ter inúmeras homenagens musicais em sua vitoriosa História. São tantas, que outras colunas terão de ser publicadas para não deixar nenhuma música “corintiana” de fora. Aqui vamos citar algumas da MPB, como “Nação Corinthians”, belíssima composição do tricolor Carlinhos Vergueiro (com Faveco Falcão e J. Petrolino) e gravada por ele, que já se tornou um frequentador assíduo da Jogada de Música.

É inegável que a trajetória corintiana ganhou um grande impulso a partir do fim dos anos 90, o que só vem enchendo ainda mais de orgulho a sua apaixonada torcida. Afinal, de 1998 a 2017, além de 7 títulos paulistas, o clube conquistou 2 Mundiais, uma Libertadores, uma Recopa Sul-Americana, 6 brasileiros, 2 Copas do Brasil e uma Taça Rio-São Paulo. Clube com o maior número de títulos paulistas, 29, o Timão amargou de 1955 a 76 um longo jejum encerrado com a vitória de 1 a 0 sobre a Ponte Preta, na histórica final de 77, com gol de Basílio. Mesmo com os 23 anos sem grandes conquistas, a sua torcida só fez aumentar em número e paixão. O bando de loucos foi muito mais louco naqueles longos e duríssimos anos.

Porém, o último título conquistado antes do período de seca, é um dos mais importantes da História do clube, pois foi ganho no ano do quarto centenário da fundação da cidade de São Paulo, em 1954. Para eternizar aquela conquista, chamada de bi do centenário, porque o Alvinegro do Parque São Jorge havia sido campeão paulista em 1922, quando a Independência do Brasil completou cem anos, Billy Blanco compôs “Corinthians, campeão do centenário”. Sabe quem gravou a música? Foi o vascaíno Jamelão, intérprete maior da História da Estação Primeira de Mangueira.

Os corintianos Adoniran Barbosa e Toquinho não podiam ficar fora desta Jogada. Adoniran compôs e gravou “Corintia, meu amor é o Timão”.

E Toquinho, grande parceiro do botafoguense Vinicius de Moraes, é o autor de “Corinthians do meu coração”, música que gravou, com participações de Sócrates e Osmar Santos, no disco “Aquarela”, de 1983. Então, vamos encerrar esta homenagem ao Timão, com Toquinho, Sócrates e Osmar Santos.

 

Por Eduardo Lamas

Tabelando com o Maestro Júnior

Tabelando com o Maestro Júnior

Sob a pele rubro-negra, a música corre nas veias deste craque da bola

Ele foi o Capacete até levar o seu imenso talento para a Itália, em meados dos anos 80. Quando de lá voltou, já no fim da mesma década, para o mesmo clube que o consagrou, já não atuava mais na lateral do campo, mas no meio, de onde aos poucos foi regendo o time, repleto de jovens promissores, com sua categoria e experiência. Neste 15 de novembro, dia em que o Flamengo completa 123 anos de fundação, apresentamos aquele que mais vestiu a camisa rubro-negra nos gramados, nada menos que 876 vezes: Maestro Júnior.

Se no primeiro episódio do “Tabelando com”, o toque de bola foi com Carlinhos Vergueiro, um cantor e compositor que tem muita intimidade com o futebol*, agora o papo é com um cracaço dos gramados, que fez parte de uma das maiores seleções de todos os tempos, a brasileira de 1982, atual comentarista da TV Globo, que tem a música correndo em suas veias, sob a pele rubro-negra.

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Tabelando com Carlinhos Vergueiro

Como era a sua relação com a música antes de se tornar jogador de futebol e, depois, já jogando, até gravar o compacto com “Povo Feliz (Voa Canarinho)” e “Pagode da Seleção”?

“A minha relação foi sempre muito próxima. Nós jogávamos no Juventus, time de Copacabana, ali na praia, e tinha a galera lá de cima, da Ladeira dos Tabajaras, que fazia parte da escola de samba Unidos da Villa Rica. Então, essa relação foi muito próxima. E eu tive dentro de casa, principalmente, porque eu aprendi a tocar pandeiro olhando meu tio Válter, irmão da minha mãe, tocando pandeiro. Ele tinha um grupo que estava sempre fazendo aquelas rodas de samba, como se chamava antigamente, lá nos anos 60 e 70, e eu estava sempre ali. Quando ele largava o instrumento, eu ia lá pegava, procurava imitar o que ele tocava. Ele tocava, não, ele toca muito bem até hoje. Então, eu fiquei mais nessa. E eu escutei muita coisa em casa, exatamente nessa época, sobretudo as músicas italianas, Gigliola Cinquetti, Peppino di Capri, então isso ficou um pouquinho no ouvido. Quando eu fui para a Itália e aprendi a língua, comecei a aprender o que diziam as letras das músicas, então me apaixonei muito mais. Por exemplo, eu canto “Roberta”, que o Peppino di Capri cantava muito, com o maior prazer e com a maior satisfação. Então a música sempre esteve dentro. O meu bisavô foi um artesão de violino, ele produzia, construía violinos. Tanto que o meu tio-avô Agmar (Dias Pinto), que já faleceu, com 99 anos, foi um dos mestres do violino. E seu filho Agmar Filho (Agmar Dias Pinto Filho, que integrou o Quinteto Itacoatiara, grupo fundado em 1976, dentro Movimento Armorial da Paraíba, fundado pelo escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, em Pernambuco, em 1970) também era um grandíssimo músico de violino, professor inclusive da Universidade Federal da Paraíba, lá em João Pessoa”.

Para um jogador com alma de sambista como você, devem ter sido ainda mais especiais as vitoriosas tardes-noites de domingo com um coro de 100 mil, 150 mil rubro-negros cantando sambas de enredo, como por exemplo, “Bum bum paticumbum prugurundum”, além de outros sambas de grande sucesso, como “Vou festejar”, de Beth Carvalho, não? Qual era a sua sensação em campo nestes momentos? Lembra de outros sambas desta época que a torcida cantava, mesmo com as letras não tendo relação direta com o futebol?

“As músicas das torcidas naquela época eram completamente diferentes, porque não tinham ainda a chegada dos sambas de enredo das escolas de samba. Por exemplo, a Portela era ligada ao Botafogo, o Flamengo tinha uma certa ligação com a Mangueira, o Bangu tinha com a Mocidade Independente por causa do chefe lá (Castor de Andrade), na verdade. Então, tudo isso teve uma ligação durante muito tempo. Só que nesses períodos, essas músicas eram mais ou menos premeditadas, não tinha aquela improvisação como aconteceu. Acho que a partir dos anos 80… Por exemplo, quando nós estávamos no campo, e eu escutava “Ó, meu Mengão, eu gosto de você, quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Conte comigo, Mengão, acima de tudo rubro-negro…”. Essa foi para mim a música que mais eu sentia quando estava dentro de campo com a torcida. No meu caso pessoal, pode ter outros companheiros, colegas, amigos que sentiam com outras músicas. Mas esta foi pra mim a que me marcou muito nesse período”.

Ainda sobre o mesmo assunto, lembro de ter visto uma entrevista do Cerezo certa vez falando da ingenuidade da torcida mineira naqueles primeiros tempos de rivalidade forte entre Atlético-MG e Flamengo. Segundo ele, enquanto no Mineirão os torcedores do Galo ainda cantavam músicas colegiais (acho que citou “Zum zum zum, passou um avião…”), no Maracanã ouvia a galera cantar os sambas que tocavam no rádio e ficava surpreso. Ele chegou a comentar alguma vez com você e companheiros de seleção sobre isso?

“Na questão do Brasil, cada estado tem um pouco a sua característica. Não dá pra você querer que um cara de Minas, de Porto Alegre e do Rio de Janeiro cantem as mesmas músicas. Isso é uma coisa praticamente impossível. Cada um cantava aquilo que é característico do seu estado, da sua história, do seu clube. E isso aí eu acho que é uma coisa que não tem como você fugir. Cada um canta aquilo que é dentro do seu estado, regionalmente, aquilo que mais vai incentivar a sua equipe”.

A seleção de 82, já retratada em dois episódios na coluna Jogada de Música, era muito musical*. Tanto que vários jogadores foram homenageados por compositores consagrados, como alguns gravaram discos. Você é um deles e o primeiro já foi um sucesso total. É verdade que a música de trabalho seria “Pagode da Seleção” e não “Povo Feliz”? Você se surpreendeu com tamanho sucesso? Aquele time de 82 foi mesmo o mais musical que você conheceu?

“Essa música (“Povo Feliz”) foi criada pelo Nonô do Jacarezinho e o parceiro, amigo, irmão que, inclusive, jogou com meu irmão na seleção brasileira de vôlei, o Memeco. E eu entrei meio que de carona nessa história. Eles fizeram a música, entregaram ao Alceu Maia, meu parceiro, meu amigo, meu compadre, padrinho do meu filho Rodrigo e eu sou padrinho do Breno, filho dele. Então isso é o tipo de coisa que é difícil até você falar. Só que quando o Alceu me ligou lá para a Toca da Raposa, onde a gente estava, primeiro eu levei um susto, porque ligação para a Toca da Raposa, naquela época não tinha celular, falei “caramba, aconteceu alguma coisa com minha família”, mas era ele. “Estou com uma música aqui maneira pra caramba, do Memeco, que você conhece, e isso aqui vai dar um molho do caramba”. Eu respondi: “Pô, Alceu, estou numa de jogar a Copa do Mundo, não estou preocupado com negócio de música”. “Não, mas vou te mandar um cassete”. Naquela época era cassete. Ele mandou a fita para lá, quando chegou eu peguei, a gente tinha um radinho lá no quarto, eu e Edevaldo (lateral-direito do Fluminense, reserva de Leandro, na seleção), aí eu falei “Edeva, vem escutar isso aqui”. Edevaldo também gostava de samba. Quando a gente botou para tocar, ele falou “Cara, isso aqui é a sua cara”. “Realmente, o refrãozinho é legal, é bacana, né? “Voa, Canarinho, voa, mostra pra este povo. (canta) Legal e fácil de cantar”. Aí me animei com a história, só que quando eu voltei para o Alceu no telefone, ele disse: “Nós temos que fazer uma segunda parte e nós já fizemos uma primeira aqui, que era exatamente o “Pagode da Seleção””. Então eu falei: “Alceu, por que a gente não introduz os meus amigos aqui, que estão comigo, Renato, Zico, Cerezo, Falcão dentro dessa letra?”. Aí, ele “Boa ideia!” e terminou a coisa acontecendo e a gente fazendo o “Pagode da Seleção”. Mas a música, na verdade, de trabalho, a música que era, e foi, o “Povo Feliz” que terminou sendo denominada “Voa, Canarinho”. Até mesmo porque um disco que vende 726 mil cópias em 23 dias é um disco que tem de ser respeitado. Eu digo sempre o seguinte, a música, o disco, pegaram uma carona naquela seleção, porque aquela seleção era espetacular, maravilhosa, tudo isso. Então, cada vez que a gente jogava, o pessoal da RCA Victor, na época, que era a gravadora, e o diretor mandavam um telex, dizendo assim: “Vendemos mais 150 e tal, vamos ganhar mais uma”. Porque, naturalmente, isso era o projeto dele. Mas jamais imaginava de chegar a esse número. Isso para mim é uma satisfação muito grande. Eu tenho em casa um quadro com Disco de Ouro, Disco de Platina, com 500 mil cópias vendidas nessa época”.

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A Seleção que jogava com música

Além do imenso sucesso com o compacto simples de 1982, Júnior gravou um LP no mesmo ano, com seu nome e músicas de Noca da Portela, Martinho da Vila, Luis Carlos da Vila, Jorge Aragão, entre outros (http://immub.org/album/junior). Depois lançou um mix em 86, com três músicas (http://immub.org/album/junior-1), e o LP “Tem que arrebentar”, em 1990, com composições de Nei Lopes, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Leci Brandão e outros (http://immub.org/album/tem-que-arrebentar). Fora isso tem participações em DVDs, LPs e CDs de samba, incluindo “Um beijo no seu coração”, de Leci Brandão (1988), na música “Pra colorir muito mais”, de Arlindo Cruz e Franco.

Como surgiu a ideia do projeto Samba dá Sopa? Pode falar um pouco sobre ele e como está hoje?

“A gente estava sempre em Copacabana tocando pagode, sempre curtindo onde é meu reduto, na verdade, para que a gente ficasse se divertindo. Um amigo meu, Dudu de Irajá, e Mauricio Araújo, os dois fazem parte, Maurício como diretor musical e violonista do Samba dá Sopa, e Dudu, como percussionista: “Vamos fazer”. “Tá bom, a gente pode até fazer”. Trouxeram o Cesar Mariano, que era dono do Bom Sujeito, uma casa de samba da Barra da Tijuca, para a gente iniciar esse projeto. É uma maneira de se divertir e uma forma de a gente ajudar os outros. Hoje o projeto já tem onze anos, consolidado, solidificado, onde a gente tem diversas pessoas que nos ajudam, principalmente o Toni de Lucca, com as cestas básicas. Toda arrecadação a gente pega e compra de cestas básicas para distribuir. Começamos com três instituições, dividindo dez cestas para cada uma. Hoje a gente já tem treze instituições, que recebem 15 cestas, pelo menos, cada uma. Dá mais de uma tonelada de alimentos que a gente distribui durante todo este tempo e para gente é uma satisfação, porque a gente curte, se diverte e ainda ajuda os outros. E o melhor, todos os cantores profissionais, Xande de Pilares, Alcione, Dudu Nobre, Arlindo Cruz, toda essa galera já foi lá, deu sua contribuição, e todas as vezes que estão disponíveis eles são sempre muito bem-vindos”.

Samba dá Sopa

 

Fora as que você já gravou, qual ou quais músicas que falam de futebol que você mais gosta?

 “É camisa 10 na seleção…” (canta), essa é uma delas. Lógico que existem muitas músicas que a gente fica sempre ligado, na verdade, à nossa época, porque é a nossa época que faz com que a gente viva um pouquinho esses momentos. Eu vivi, na verdade, nos anos 60, depois nos 80 e, sobretudo, os anos 90 eu ainda estava em atividade. Eu me lembro de uma música do Jorge Ben, “Umbabarauma, homem-gol…” (canta). Essa era uma delas. O Jorge Ben sempre foi muito ligado ao samba e também ás músicas que eram ligadas ao futebol. Pô, o Skank (“Uma partida de futebol”) não posso esquecer. Skank é bom demais. Mais para trás ainda a gente pode lembrar de Wilson Simonal, com “Aqui é o país do futebol”. Essas são as músicas que eu me lembro”. (todas já fizeram parte de episódios anteriores desta coluna)

Tudo acima Júnior sabe e conhece muito bem. O que ele não sabe é que nos dois primeiros jogos que fui ao Maracanã, com meu pai, aos 8 anos de idade, ele marcou justamente os seus dois primeiros gols (e que gols!!!) como profissional, ainda atuando na lateral-direita: um no dia 8 de dezembro de 1974, Flamengo 2 x 1 América, quando o time rubro-negro conquistou o terceiro turno do Campeonato Carioca, e uma semana depois, dia 15, quando novamente os dois times se enfrentaram e o placar foi igual, na primeira partida do triangular final da competição. Veja os gols das duas partidas nos vídeos abaixo.

Por Eduardo Lamas