O país onde é proibido perder

11/07/2018

O país onde é proibido perder

Derrota aqui é roubo ou humilhação… 

 Foto – Reuters

Não perdeu na loteria dos pênaltis como em 1986, não perdeu com uma seleção mercenária e confusa como 1990, não perdeu com episódio estranho como em 1998, não perdeu por apatia como em 2006, não perdeu por pane e perder a cabeça como em 2010, não foi humilhado como em 2014, não perdeu dando banho de bola como em 1982 nem foi roubado como em 1978. O Brasil simplesmente perdeu.

Perdeu tendo um bom time e fazendo um bom futebol para o bom time da Bélgica que também praticou um bom futebol. Podia ter vencido, mas perdeu. Não foi uma injustiça dos Deuses a seleção não ter ganho assim como não foi uma tragédia, um desastre que levou a tal situação. Foi uma derrota normal e é isso que dificulta tudo porque no futebol não existe derrota normal para o brasileiro.

O Brasil é o maior vencedor de copas do mundo e temos orgulho das nossas cinco conquistas. Mas se analisarmos que foram vinte e uma copas e ganhamos cinco é sinal que perdemos dezesseis, em quatorze nem na final chegamos, em dez nem entre os quatro primeiros!! É muita coisa!! Todo grande jogador da história do futebol brasileiro participou de uma perda de copa do mundo, até Pelé e Garrincha, mas mesmo assim, mesmo tendo perdido mais que o triplo das vezes em que venceu o brasileiro não admite perder uma copa.

Sempre tem alguma coisa para falar. Nessas horas o brasileiro exerce as duas situações que mais gosta na vida que são se fazer de vítima dizendo que foi injustiçado, roubado ou então a caça às bruxas, encontrar culpados e massacrá-los de forma impiedosa. De vez em quando vem a terceira situação que amamos que é a “teoria da conspiração” com coisas como “Se soubessem o que ocorreu na copa de 1998 ficariam enojados”.

Isso é babaca, é cafajeste porque sempre a culpa é nossa  sempre tem um vilão nosso e nunca é mérito do adversário. A França ganhou em 1998 porque jogou mais  não foi devido a convulsão de Ronaldo e provavelmente venceriam também com ele bem. Uruguai em 50 e Itália em 82 tinham grandes times, ao contrário do que tentam vender aqui, A presença de Neymar em 2014 não impediria a eliminação e a Bélgica em 2018 tem todos os méritos em se classificar. Não jogamos mal, não fomos roubados, não teve pênalti perdido, jogador expulso infantilmente, ninguém se omitiu na partida e nem o Neymar, o mais execrado, foi tão mal assim tentando resolver até o último segundo e sem cair.

Repudiam, execram Fernandinho e Neymar lhes tornando os maiores vilões do país da atualidade, cometendo atos racistas contra o Fernandinho quando são apenas jogadores de futebol. Depois da eliminação tivemos acontecimentos mais desprezíveis, personagens mais execráveis atuando e não tiveram o mesmo repúdio que os atletas, vai ver porque roubam o povo, se acham acima de leis, ajudam membros de suas igrejas, mas não perderam copas do mundo.

O ser humano perde mais que vence durante a vida, tem mais fracassos que sucessos, o brasileiro em especial é assim. Apanha, é humilhado, sacaneado todos os dias. Por tudo isso tem baixa auto estima, é um coadjuvante no planeta e por no futebol ser protagonista se coloca e coloca nos outros uma pressão que não existe em outros ramos de seu dia a dia. Joga suas frustrações, suas humilhações diárias em seus clubes, na seleção e não tolera o fracasso desses.

Um exercício de humildade, de reconhecimento do valor alheio nunca fazem mal a ninguém. Precisamos disso, só assim voltaremos a ser dominantes.

E pararemos de tomar 7×1 diários..

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*Foto de capa: Lucas Figueiredo/CBF