O Flamengo tem culpa

11/02/2019

O Flamengo tem culpa

 A tragédia tem que fazer o país pensar na infância

O Clube de Regatas do Flamengo tem que pagar pela responsabilidade que tiver nas mortes dos 10 meninos. Estar sem alvará e documentos exigidos pelos órgãos fiscalizadores é muito grave, apesar de ser muito comum. O argumento de que o Flamengo não é o único nesta situação não faz sentido. Há 10 mortes e elas aconteceram numa área sob a responsabilidade do clube. Haverá lutas jurídicas, argumentações mil, mas há um fato. As vidas dos meninos não voltarão.

Pela primazia da tragédia, o Flamengo se tornará o símbolo de como as categorias de base são tratadas no Brasil. É importante ressaltar que os garotos que jogam no rubro-negro encontram condições de trabalho melhores do que em 99% dos clubes do país. A instituição sempre valorizou esses talentos. Atitude explicitada com o lema “Craque, o Flamengo faz em casa”. Mesmo assim, os meninos dormiam em contêineres, confortáveis, porém inapropriados, segundo as normas civis. A polícia tem que fazer a parte dela e investigar. Tem que haver todo o trâmite jurídico para condenar o clube.

Vemos no caso uma mistura de incompetência e insensibilidade. É importante que os processos para expedição de documentos como os necessários para o Ninho do Urubu fiquem claros. Que tamanhas exigências são essas que o clube não consegue cumprir? Deveria ser interesse tanto do clube, quanto do órgão fiscalizador, que a documentação estivesse correta.

Os meninos da base, por mais que possam se transformar em ativos preciosos para o clube como Vinicius Jr e Paquetá, são tratados nesta fase com a atenção e investimento que sobram do que é dado ao time profissional. O exemplo aqui é o Flamengo, mas essa realidade é a mesma ou pior na esmagadora maioria dos times brasileiros.

O caos administrativo em que o Flamengo viveu até o início desta década deixou marcas. Um exemplo, é que a primeira vez que se tentou legalizar as instalações do CT foi em 2010. De lá para cá, o clube já está no terceiro presidente. Uma pauta periférica que poderia evitar a repetição da tragédia é um levantamento sobre as grandes casas de show da cidade, centros de convenção e afins para ver se  elas são seguras e estão com a documentação em dia.

O momento de solidariedade com o clube acabou. Agora a opinião pública se solidariza às vítimas e aperta as cobranças sobre o Flamengo. Isso é o certo, mas a indignação brasileira tem que deixar de ser episódica e pontual.

Reclama-se que o Flamengo tenha deixado os atletas da base dormindo em condições precárias, mas não nos preocupamos com as condições que a maioria daqueles jogadores enfrentou até ali. Roubamos essas infâncias. E nem nos damos conta.

Quando encontramos alguns desses meninos nos sinais fechados, apressadamente subimos o vidro do carro. Nossa sociedade tem que se preocupar com a infância como um todo e não só quando acontecem tragédias assim.

Esses meninos venceram várias etapas para superar desafios que a desigualdade do país os impôs. Não completar a missão talvez seja a face mais cruel da história. Essa tragédia tem que nos ajudar a mudar a realidade de que o futebol é uma das poucas maneiras de transformar a vida de uma criança que nasce pobre no Brasil.

Por Creso Soares