Neymar, Michael Jackson e Maradona

09/07/2018

Neymar, Michael Jackson e Maradona

Nosso camisa 10 precisa crescer

O futebol é o cemitério dos prognósticos. Mesmo acompanhando o nobre esporte bretão conscientemente há 40 anos, não resisti, e , no último texto para o site, vaticinei que a Copa de Neymar havia começado. Errei, não sou bom de adivinhação.

O Brasil caiu diante de um time muito bom. Uma seleção que soube se adaptar ao jogo brasileiro, que teve a humildade de perceber que se entrasse em campo como entrara contra o Japão, faria as malas para casa. Diga-se de passagem: desta vez caímos em pé.

A Copa acabou para o Brasil. Espero honestamente que o Tite continue. Ele é o melhor técnico que temos no momento. No entanto, acho que precisamos de outra liderança técnica dentro de campo. Neymar sai dessa Copa queimado mundialmente. Uma caricatura chorona.

Vejo no astro brasileiro uma característica comum a Michael Jackson. Por favor, antes de me chamarem de louco, esperem que eu apresente meus argumentos.

Desde muito cedo as expectativas estavam voltadas para o garoto. Uma habilidade rara, como me disse o amigo Alexandre Caroli, talvez Neymar seja o maior talento bruto surgido no Brasil depois da Era Pelé. Para aumentar a pressão, sempre disseram isso a ele.

No entanto, o astro esqueceu de crescer. Se fechou numa “Neverland” de amigos. Carrega o séquito em baladas maravilhosas por Barcelona, Paris , Angra dos Reis e em todos os lugares que quiser, pois a fortuna amealhada aos 26 anos o permite tal escolha.

Como Michael Jackson, nosso Peter Pan negou em algum momento a negritude e parece viver num mundo particular. Nesse universo paralelo, o Instagram funciona como canal para as mensagens.

Qual o grande problema do Instagram? Nunca saberemos se Neymar escreve os textos ou algum integrante de seu séquito serve como ghost-writer. Neymar não olha nos olhos dos interlocutores. Suas entrevistas sempre guardam um tom de arrogância.

Apesar de todo o talento e dos contratos de publicidade, Neymar não passa empatia, tudo a sua volta parece artificial. Até quando começou uma hashtag contra o racismo, suspeitou-se que havia alguma intenção comercial.

Michael Jackson nos legou uma arte inquestionável. O show Business se divide em pré e pós MJ. Neymar é o primeiro craque global brasileiro da Era das Mídias Sociais. Nesse sentido, podemos dividir a repercussão de nossos boleiros em pré e pós Neymar.

Pelé, o maior de todos, Ronaldo e Romário, todos campeões mundiais pela seleção, não tinham em seu apogeu um instrumento tão poderoso quanto às redes sociais.

Como já disse, Tite deve continuar técnico, mas terá que relativizar a importância de Neymar nesse projeto. Se em 2014 a situação era de terra arrasada, agora temos uma boa base para construir a cidade.

Poucas pessoas se lembram, mas Maradona saiu da Copa de 82 com a imagem destruída por uma atuação pífia e uma agressão covarde ao meio-campo brasileiro Batista. No mundial seguinte entrou para a história e pavimentou sua estrada na galeria dos ídolos.

Quem sabe Neymar não consegue a mesma coisa. No entanto, para essa volta por cima, precisará sair de “neverland”, se reconhecer humano e adulto. Ele tem que dividir as responsabilidades e perceber que o mundo é mais do que o séquito de puxa-sacos que o rodeia.

Por Creso Soares

*Fotos: Lucas Figueiredo/CBF