Musas do esporte LGBT+

06/12/2018

Musas do esporte LGBT+

Drags apadrinham times e trazem alegria à luta por inclusão no futebol

Bárvara Pah estrela documentário ‘Soccer Boys’ ao lado do BeesCats / Crédito: Leo Martins/O Globo

Por Flávio Amaral

Time de futebol que se preze precisa de uma musa. Jogadores e torcedores das equipes LGBT+ de futebol sabem de cor o nome daquela que veste o manto, lidera a torcida, é presença marcante e irreverente do lado de fora do gramado e é campeã no quesito close. No esporte inclusivo, quem melhor que uma drag queen para desempenhar esse papel?

“A arte drag é uma das linhas de frente na batalha e representatividade LGBTQI+. Não poderia ser diferente no futebol que é um dos cenários mais machistas e homofóbicos”, afirma Eva d’Genesis, madrinha do Bharbixas. “A drag é o toque de humor e alegria, que representa o espirito do time com leveza”, completa Nicole Verywell, musa do Unicorns (SP).

Cerimonialista da primeira edição da Champions LiGay, em novembro de 2017, no Rio de Janeiro, Bárvara Pah defende as cores do BeesCats (RJ). “Com senso de humor e carisma, a drag reforça o trejeito que alguns acham que seria fraqueza e devolve ao público como força. A imagem da drag gera curiosidade e, num universo como o do futebol, essa figura ganha ainda mais força”, conta a musa, que reforça o papel agregador da personagem diante da competitividade do esporte.

“Nos campeonatos, a irreverência da drag dilui o clima de competição. Gosto de ser agregadora, falo com todos os times, faço festa, fico feliz com os reencontros e em conhecer pessoas novas, gosto de receber os times que participam pela primeira vez. Estamos ali para que os campeonatos não sejam levados tão a sério, o objetivo não é a vitória, mas sim o encontro, o fortalecimento da ideia de que não estamos sozinhos e de que a nossa luta é a mesma”.

Eva d’Genesis capricha no close durante coreografia dos Bharbixas na abertura da LiGay de Porto Alegre / Crédito: Douglas Barcelos

Defendendo a equipe Brasil afora

A cada campeonato disputado fora do estado, lá está a musa do time, viajando com a delegação, entrando em campo na cerimônia de abertura, participando da coreografia na apresentação dos times, gritando do lado de fora do campo em apoio aos atletas, como um torcedor fiel. Afinal, quem diz que elas não jogam junto?

“Viajar com a equipe traz o sentimento de pertencimento. Acompanhá-los nas viagens me faz sentir um integrante do time. Durante os jogos incentivo, grito muito (risos). Nessas experiências nos aproximamos do nosso time e dos outros também, conhecemos pessoas de outros estados que têm as mesmas lutas, fazemos amigos, trocamos experiências, nos fortalecemos como time e como seres humanos”, conta Bárvara.

“Vem a vontade de vencer mais uma vez, de gritar o nome do nosso time e vibrar a cada gol, mas o mais importante é saber que estamos fazendo história, que, através dos campeonatos, vencemos mais uma parcela do preconceito, do machismo, da homofobia”, acrescenta Eva.

A madrinha do BeesCats ressalta também a importância do papel social desempenhado pela equipe. Ela valoriza os amigos que fez no grupo e conta que o sentimento de pertencimento a traz segurança em seu dia a dia.

“Tenho amigos que fiz no time que provavelmente não teria conhecido de outra forma, pois são de outras áreas ou frequentam outros espaços. Essa troca nos enriquece, fortalece. É como uma família. São pessoas com as quais tenho contato frequente, nos encontramos fora dos jogos, apoiamos uns aos outros em momentos difíceis. Me sinto segura e forte com a colmeia dos Beescats”, conta Bárvara.

Nicole Verywell entra em campo com o Unicorns durante a abertura da Taça Hornet / Crédito: Philip Falzer

Memórias dos torneios

Pedimos a cada uma das musas para escolher um momento que, na opinião delas, foi mais marcante durante as participações em torneios acompanhando suas equipes.

Bárvara Pah: A conquista da Copa Sudeste, onde estive em campo com eles fazendo a transmissão dos jogos ao vivo, comentando com quem estava nos assistindo, com jogadores q que não puderam estar presentes. Literalmente estive em campo com eles, inclusive presenciando pela primeira vez um título de campeão do BeesCats. Festejar com eles vendo toda a dedicação de cada um para evoluir em campo não tem preço!

Eva D’Genesis: O dia em que fomos os primeiros campeões da Champions LiGay, mostrando que não é preciso estar dentro de padrões para ser capaz de conquistar algo. Levantarmos a taça sendo os mais afeminados nos fez nos entender que todos nós LGBTQI+ somos capazes de conquistar o que sonhamos e que nada é impossível! Basta acreditar e fazer nossa parte.

Nicole Verywell: Na Champions LiGay de São Paulo, quando o Unicorns entrou em campo na abertura com coreografia da música “This Is Me” e fechou a apresentação com os jogadores vestindo camisas de todas as equipes participantes do torneio. Achei tão bonito, tão natural essa união, esse momento de catarse. Estando com a bandeira e representando a intenção de todos sermos um só time, um só grupo que luta.