Jogada de música

08/02/2018

O complexo de vira-latas foi deixado de lado pela primeira vez há 60 anos, de acordo com Nelson Rodrigues. Em 1958, sob o comando de Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, Pelé, Garrincha e companhia puseram definitivamente o Brasil no Primeiro Mundo do futebol. Um time que sambava com a bola no pé, como diz um dos últimos versos de “A taça do mundo é nossa”, o hino da primeira Copa conquistada pela seleção. Um título ainda mais valorizado e comemorado por causa dos sofrimentos anteriores.

Oito anos antes, a torcida brasileira foi silenciada dolorosamente na derrota para o Uruguai, no “Maracanazo”, três dias após mais de 150 mil vozes cantarem “Touradas em Madri”, num misto espontâneo de comemoração e provocação pela estrondosa goleada de 6 a 1 sobre os espanhóis. E quatro anos antes, veio a revolta com a eliminação para o escrete húngaro, em jogo que terminou com o placar de 4 a 2 para os adversários e uma pancadaria generalizada que ficou conhecida como a Batalha de Berna, cidade suíça onde foi realizada as partidas (de futebol e luta livre campal).

No entanto, em 58, os então desconhecidos Pelé, com apenas 17 anos, e Garrincha assombraram o mundo a partir do momento em que entraram no time escalado por Vicente Feola. Ambos estrearam numa Copa do Mundo, na Suécia, no dia 15 de junho de 1958, no terceiro jogo do Brasil, contra a União Soviética, de Yashin, o Aranha Negra. O cartão de visitas foi dado nos três minutos iniciais da partida, quando o Anjo de Pernas Tortas, principalmente, deixou os soviéticos descadeirados e Vavá abriu o marcador. No fim, 2 a 0, com outro gol do atacante do Vasco.

Veja um pouco do que ocorreu naquele dia, com narração em francês e texto de Nelson Rodrigues na descrição sobre o vídeo: 

Depois da URSS, mais vitórias, uma difícil e duas fáceis: 1 a 0 sobre País de Gales, e 5 a 2 sobre a França e a Suécia. O carnaval em junho por todo o Brasil foi certamente inesquecível para quem o viveu. E para quem não o viveu, fica a imaginação e tudo o que veio a seguir graças àquela conquista. Para quem ainda não viu, recomendo assistir ao jogo completo contra os suecos. Escrevi sobre aquela partida, pouco depois de assisti-la, na série “Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos” do blog Em Questão. Lá dou o link para um vídeo ainda não bloqueado pela Dona Fifa (pelo menos até o momento em que escrevo este texto): http://eduardolamas.blogspot.com/2014/12/futebol-arte-os-maiores-jogos-de-todos.html.

O episódio da Jogada de Música da última terça-feira (6/2) é iniciado com a narração, de Edson Leite, do gol de Pelé que encerrou a goleada sobre a Suécia na final. O quadro do programa Zona Mista, da Rádio Globo, lembrou a belíssima gravação de outro grande parceiro de Elis, Jair Rodrigues, um apaixonado por futebol: “Manés e Pelés”

 ,

de Chico Xavier, o compositor cearense, não o médium mineiro famoso.

E foi encerrado com a festiva “A taça do mundo é nossa” .

Ouça o quadro abaixo (adiante o áudio para 1h18):

Pelé e Garrincha já haviam sido tema de capítulos anteriores na rádio. Juntos, inclusive. E outros certamente virão, afinal, a partir de 58, os dois não só ganharam uma quantidade imensa de homenagens musicais, como eles mesmos gravaram discos; o Rei inclusive em parceria com aquela que é considerada por muitos a maior cantora brasileira da História: Elis Regina. No Zona Mista de 28 de novembro último, o quadro tratou da incrível invencibilidade da seleção brasileira com os dois gênios juntos em campo. Três músicas foram lembradas naquela ocasião:

“A ginga do Pelé”, de João do Pife

“Garrincha”, de Luiz Americano

e “O futebol”, de Chico Buarque

Ouça aqui o quadro do dia 28/11/2017 (adiante o áudio para 1h19:

O maior ponta-direita da História do futebol foi lembrado no primeiro quadro dentro do Zona Mista, em 29 de agosto, quando foi contado como Garrincha criou o olé no futebol em parceria com 100 mil mexicanos, poucos meses antes da Copa da Suécia. Naquele dia, as músicas selecionadas foram:

“A ginga de Mané”, de Jacob do Bandolim

e “Balada número 7”, de Alberto Luiz, cantada por Noite Ilustrada

Escolhi a interpretação deste grande cantor em vez da que fez mais sucesso, com Moacyr Franco, por esta ser melancólica, o que não combinava com o tema daquele dia. Também foi usado um trecho da “Carmem”, de Bizet, como ilustração para o relato de João Saldanha citado no quadro. Infelizmente não consegui achar o áudio do episódio.

Embora Pelé ainda não tenha sido tema exclusivo de nenhum episódio da Jogada de Música, ele foi também um dos personagens principais dos episódios sobre o Maracanã e a Copa de 70, além de ter sido citado, nos sobre Tostão, Leônidas, Bahia, Cruzeiro e a seleção de 74. Prometo para breve ao menos um quadro inteiramente dedicado ao Rei. Só para ir ensaiando, como cantava Jackson do Pandeiro: “Quem é aquele moço com a bola no pé? É o Rei Pelé!”.

 Por Eduardo Lamas