Copa de 50, sons de euforia e silêncio

06/12/2018

Copa de 50, sons de euforia e silêncio

Música de Lamartine para seleção e 150 mil vozes cantando marchinha

Na hierarquia das tragédias futebolísticas nacionais, a Copa de 50 não perdeu um milímetro de sua importância depois dos 7 a 1 de 2014. Cada uma tem, principalmente devido aos contextos históricos, uma natureza muito distinta da outra. Se na primeira houve – embora com muitas injustiças injustificáveis – uma lição a duras penas aprendida, nesta mais recente, apenas humilhação. Nada mais do que isso, pois nada compreendemos, pouco – para não dizer nada – foi aprendido. E os erros permanecem e vão sendo aperfeiçoados, como numa cruel inversão de significados e valores. Se a lição sabemos de cor, para que aprender?

Cada um desses jogos resume o país, tal como era, tal como está. Com uma geração “nem, nem” aí cada vez maior, vamos em frente mesmo que seja o abismo o rumo final. Chegamos ao topo, ao posto de melhores do mundo e desaprendemos a jogar imitando quem agora nos copia. Há quem diga que estamos mais maduros, resilientes? Não, infelizmente, não. Ironicamente ficamos indiferentes, por isso muitos até acham graça.

Depois da “trégua” para o mundo se destruir e carregar para debaixo da terra e dos mares, oceanos e rios um número absurdo de cadáveres, a Copa do Mundo voltou a ser disputada e à América do Sul. No Brasil, país que já havia feito bonito em 1938, na França, com um terceiro lugar, o que hoje seria saudado como retumbante fracasso. O país colecionava já naquela época um número considerável de músicas sobre o futebol. E antes mesmo de entrar em campo, a seleção brasileira já tinha uma composição para chamar de sua. Lamartine Babo, o autor dos hinos de dez clubes cariocas e um niteroiense (o Canto do Rio), fez a “Marcha do Scratch Brasileiro”, gravada por Jorge Goulart e Francisco Sergi e sua orquestra no Lado B de um compacto da Continental que tinha o Hino (ou Marcha) do Bonsucesso no Lado A.

Ouça aqui: http://immub.org/album/78-rpm-45950

No entanto, se o mundo saiu da profunda tristeza da guerra e entrou na alegria da competição maior do esporte mais popular da Terra, o Brasil na Copa foi da euforia à depressão. Invicta, a seleção de Barbosa, Zizinho, Ademir de Menezes e companhia, passou pela primeira fase com duas vitórias e um empate, e na segunda e última exibia um futebol de primeira qualidade e altamente goleadora. Depois de fazer os suecos dançarem com o mesmo placar que os alemães nos imporiam 64 anos depois, o time brasileiro destroçava o da Espanha por 6 a 1,  quando nos momentos finais, espontaneamente, sem que jamais se saiba quem iniciou a cantoria, 150 mil vozes entoaram “Touradas em Madri”, de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro. Nas arquibancadas do Maracanã, Braguinha chorou de emoção. Essa marchinha de carnaval de enorme sucesso havia sido gravada a primeira vez em 1938, por Almirante, mas foi regravada pelo menos mais três vezes antes do Mundial de 50 por outros cantores, inclusive Carmen Miranda, em 1949.

 

Durante a narração do jogo, pela Rádio Nacional, o locutor Antônio Cordeiro, claramente emocionado e surpreso com aquele coro inesperado, rindo e chegando a dar uma rápida gargalhada, informa aos ouvintes o que está ocorrendo, sem se lembrar do nome da música (“Nota sensacional da torcida brasileira cantando a marcha agarrei o touro à unha”, “vai levando Gainza, ao som da marcha dos toureiros”) e sem se esquecer de narrar a partida. Uma pena, pois se deixasse de transmitir o que ocorria em campo, a latinha (microfone) captaria melhor o som das arquibancadas e o registro daquele momento histórico ficaria ainda mais belo. Emocionante, ouça abaixo nos minutos finais da transmissão (a partir de 52min58s).

Porém, o jogo seguinte seria contra o Uruguai, com o Brasil precisando somente do empate para ser campeão, e todos sabem como tudo terminou. A confiança exagerada de todos os brasileiros foi expressada no discurso em pleno Maracanã do prefeito do então Distrito Federal Ângelo Mendes de Moraes pouco antes de a bola rolar: “Vós brasileiros, a quem eu considero os vencedores do campeonato mundial; vós brasileiros que a menos de poucas horas sereis aclamados campeões por milhares de compatriotas; vós que não possuis rivais em todo o hemisfério; vós que superais qualquer outro competidor; vós que eu já saúdo como vencedores! Cumpri minha promessa construindo esse estádio. Agora, fazei o vosso dever, ganhando a Copa do Mundo”.

Começou a peleja, o Brasil fez 1 a 0 no início do segundo tempo só para aumentar ainda mais o otimismo reinante, mas a marcha do tempo foi cruel. E de marchinha em marchinha naquela Copa, instaurou-se o silêncio. Porém, nas profundezas mais entranhadas daquele incomensurável vazio sonoro das arquibancadas repletas do Maracanã cada um poderia ouvir, se quisesse, a Marcha Fúnebre.

No entanto, daquele luto o futebol brasileiro renasceu, ergueu-se como gigante, conquistou o mundo cinco vezes até cair no atual estágio de indigência técnica e tática, de abandono de suas raízes. Mas isso é outro papo. E o papo da Jogada de Música vai se encerrando neste espaço, agradecendo imensamente a todos que acompanharam aqui cada lance musical da bola, especialmente à galera do Pop Bola que nos cedeu este espaço. O árbitro apitou e apontou para o meio, a coluna sai de campo, mas a Jogada prossegue em outras áreas. Muitíssimo obrigado a todos!