Relembre o ano do futebol LGBT+

Relembre o ano do futebol LGBT+

Competições, Carnaval, jogo em estádio de Copa… veja a retrospectiva

Por Flávio Amaral

O esporte LGBT+ viveu em 2018 seu grande crescimento. O movimento nacional iniciado em 2017 alcançou novas proporções, chegando à marca de 50 equipes inclusivas criadas no Brasil. Novos campeonatos foram criados, a política nacional teve papel decisivo na luta de atletas e simpatizantes e a causa se estendeu aos gramados internacionais. Tudo isso em uma temporada que não deixa dúvidas de que o esporte caminha a passos firmes e constantes para se tornar um ambiente mais justo e inclusivo.

Nesta última coluna de 2018, você confere um panorama das experiências vividas por mim – no BeesCats e no esporte LGBT+ em geral – como atleta e jornalista em um ano de profundas transformações individuais e coletivas.

RetroSãoSebastião – Arquivo BeesCats

A temporada começava com preparação dentro e fora de campo. De treinadora nova, participamos da Copa São Sebastião, no Aterro do Flamengo, no dia do padroeiro da Cidade Maravilhosa. O terceiro lugar valeu muito mais que o pódio para a única equipe LGBT+ do torneio. Valeu também o respeito de adversários, surpresos com o fato de, mesmo nas derrotas, não brigarmos entre nós. Sinal da transformação que propomos na cultura do futebol competitivo.

RetroCarnaval – Arquivo BeesCats

Se o sol castigava o time nos jogos, à noite atletas e amigos caíam no samba. BeesCats e Alligaytors foram convidados para desfilar em uma ala coreografada de exércitos francês e africano na Paraíso do Tuiuti, escola de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Depois de pouco mais de um mês de ensaios, o “ahazo na coreô” ajudou a levar ao vice-campeonato uma agremiação que, até então, lutava para beliscar uma vaga no Desfile das Campeãs. A Tuiuti – que, por sinal, tem São Sebastião como padroeiro – ficou um décimo atrás da Beija-Flor de Nilópolis, sendo aclamada pelo público nas redes sociais como “A Campeã do Povo”.

RetroLiGayPoA – Douglas Barcelos

Em abril, o time desbravou terras gaúchas para participar da segunda edição da Champions LiGay. Com a pior campanha dentre os oito classificados para a fase eliminatória, não faltou entrega de cada jogador em campo para compensar o que não vinha dando certo pela técnica. Levar a final, contra a equipe a ser batida – o Bulls (SP) – para a decisão por shoot-out foi uma conquista, que só poderia ficar melhor se tivéssemos trazido o título para o Rio.

RetroCâmara – Arquivo BeesCats

As comemorações em maio não ficaram restritas ao aniversário de um ano do Bees, celebrado com uma animada festa no local onde o time nasceu, o Clube Guanabara, em Botafogo. A Cinelândia, local consagrado na política por decisões e movimentos históricos para o Rio e para o Brasil, a equipe teve seu papel político reconhecido. Em evento organizado pelo vereador David Miranda na Câmara Municipal da cidade, BeesCats e Alligaytors receberam uma moção de louvor e congratulações por promover a diversidade sexual no esporte no Rio de Janeiro. Pessoalmente, foi o dia em que dimensionei a importância política do pioneirismo de nossa atuação, em termos de militância e de potencial de transformação para tantas vidas.

RetroHornet – Arquivo BeesCats

Em junho, a nostalgia tomou conta do time. Foi tempo de relembrar a primeira participação em um torneio inclusivo, mais precisamente a ocasião na qual o projeto ganhou corpo. A Taça Hornet da Diversidade chegava à sua segunda edição, novamente em São Paulo. Na primeira, tive a felicidade de ser campeão com meu time e ser artilheiro da competição. Em 2018, chegamos novamente à final – dessa vez, um triangular. Com uma vitória sobre o Unicorns (SP) e derrota para o Bulls (SP) – sim, eles novamente, chegamos ao terceiro vice-campeonato consecutivo.

RetroMineirão – Mineirão/Agência i7

O mês também foi marcado por outro evento que levo como recordação para toda a vida, pela realização de dois sonhos: jogar em um estádio de Copa do Mundo e marcar um gol nele. O Bharbixas (MG) comemorou seu primeiro aniversário com futebol e festa no Mineirão. Dentro das quatro linhas, o adversário era uma seleção da LiGay Nacional de Futebol. Uniforme personalizado esperando no vestiário, aquecimento com preparadores físicos, hino nacional executado com a bandeira do Brasil tremulando em 3D no telão: elementos de uma lembrança daquelas de se guardar para sempre.

RetroGayGames – Arquivo BeesCats

O segundo semestre tinha acabado de começar, mas já trouxe em agosto a cereja do bolo de 2018: a participação nos Gay Games de Paris. Disputar uma Olimpíada com atletas de 91 países, se testar em outros idiomas, acompanhar cerimônias de abertura e encerramento dignas de um megaevento e ainda representar o futebol LGBT+ do Brasil no exterior trazendo a medalha de prata para casa são memórias para toda a vida – tenho certeza que falo por todos os atletas que foram em nossa delegação. Isso sem falar na oportunidade de contar tudo o que acontecia em solo francês através desta coluna.

RetroSudeste – Reprodução/Instagram BeesCats

Mas o ano ainda prometia novas emoções. Setembro trouxe a conquista da Copa Sudeste, em Vitória (ES), colocando fim na série de quatro vice-campeonatos do BeesCats, trazendo de volta o gostinho de levantar uma taça no primeiro torneio regional que disputamos.

Novembro foi a vez de mais uma edição da Champions LiGay, fechando a temporada de competições com uma campanha abaixo do esperado – foi a primeira vez que não chegamos a uma final de torneio inclusivo –, mas uma série de aprendizados, como a cada ocasião.

Fechando 2018, o diretor Carlos Guilherme Vogel finalizou o documentário “Soccer Boys”, sobre o BeesCats e a campanha na Taça Hornet da Diversidade, exibindo-o no festival Mix Brasil, em São Paulo.

Depois da longa jornada, resta esperar por um 2019 de tantas oportunidades quanto 2018 proporcionou, e que o trabalho de conscientização sobre o respeito às diferenças caminhe a passos firmes na direção de tornar o esporte um ambiente mais harmônico e agregador. Obrigado a você que me acompanhou esse ano. Espero que você continue por aqui na próxima temporada, acompanhando a caminhada do esporte inclusivo!

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