O gol da coreia Unificada

As olimpíadas de inverno em Pyeongchang que terminam no próximo domingo (25) e ela já tem uma penca de momentos marcantes. Desde Pita Taufatofua desfilando mais uma vez todo besuntado de óleo de coco na cerimônia de abertura, até a snowboarder Ester Ledecka que correndo com os esquis emprestados venceu uma prova de esqui alpino sem estar entre as favoritas, passando pela Anastasiya Bryzgalova, russa do curling que conquistou o coração dos homens pelo mundo e que teve o marido pego no exame antidoping (um doping no curling, quem diria…). Mas o momento mais marcante é um gol no hóquei no gelo. Um gol carregado de significado, já que foi feito pela Seleção da Coreia unificada, o único feito pela seleção em toda a competição.

Antes dos jogos, era difícil imaginar que mais uma vez veríamos as coreias do Sul e do Norte desfilando juntas novamente, como em Sydney. Só que dessa vez, foram em jogos sediados na península coreana, a irmã do ditador norte coreano esteve presente em PyeongChang – a primeira vez desde a guerra da Coreia que alguém da família que governa a coreia do norte pisa em solo sul-coreano. Ele, tão temperamental, ter concordado e aceitado essa união das coreias em PyeongChang mostra que ele ainda tem momentos de sensatez quando não está brincando de lançar mísseis por aí

 O time feminino de hóquei no gelo foi formado por atletas das duas coreias. Algo que não acontecia desde 1991, quando as coreias se juntaram para disputar um mundial de tênis de mesa e o mundial sub-20 de futebol, ou seja, vinte e sete anos atrás.

O gol citado só aconteceu na terceira partida, após duas goleadas acachapantes por 8 a 0, mas no jogo contra o Japão (rival histórico da coreia), Randi Hee-soo Griffin de pai americano e mãe coreana marcou o gol que fez o ginásio vir abaixo. Um momento em que se esqueceu de que as Coreias ainda estão em guerra – afinal os dois países só assinaram uma trégua em 1953 e nunca fizeram um acordo de paz. –e todo o clima de tensão que existe entre os dois países, para comemorar um gol.

Não creio que um dia as coreias voltem a se unir em um só país, mas espero que esse seja o passo inicial para uma reaproximação entre as duas nações, que deverá ser algo gradual e com cuidado, já que outras vezes essas reaproximações foram tentadas com ajuda do esporte, mas algo dava errado e tudo voltava à estaca zero. O COI vai fazer uma visita a Coreia do norte e tentará ser a mediadora, para que as duas coreias tenham um bom relacionamento, sem tensão ou ódio, usando o esporte como o caminho para isso. Nesse mundo onde cada vez mais as tensões ficam afloradas e evidentes, uma notícia de uma possível reaproximação entre países dá um alento de dias melhores.

Por Surto Olímpico

O Brasil nos jogos de inverno em PyeongChang

Começa na próxima sexta-feira os jogos olímpicos de inverno na cidade de PyeongChang, Coreia do Sul. De umas edições para cá, os esportes de inverno tem buscado deixar a imagem de ser uma competição para apenas alguns países europeus e da América do norte para se tornar o mais globalizado possível, com a entrada de países nos jogos que sequer tiveram uma nevasca em seu território. Países da Oceania, América do Sul e até da África tem enviado atletas aos jogos, que nessa edição terá um recorde de países participantes- 93

E o Brasil estará presente em PyeongChang, será sua oitava participação seguida em jogos de inverno – a primeira foi em 1992 em Albertville. A delegação brasileira será de nove atletas, três a menos do que em Sochi. E como somos uma nação relativamente nova nos jogos de inverno, uma medalha olímpica ainda é um sonho distante. Uma expectativa mais realista é ter alguns nomes terminando entre top 20, 30 em suas modalidades.

O Brasil será representado nos seguintes esportes:

Bobsled – O bobsled brasileiro se classificou pela primeira no trenó de quatro e no de dois lugares, ambos serão pilotados por Edson Bindilatti, em sua quarta olimpíada. O trenó de quatro lugares tem boas chances de superar a melhor colocação do Brasil no bobsled, um vigésimo quinto lugar em Turim -2006

Esqui Cross Country – O Brasil terá dois representantes nessa modalidade. Jaqueline Mourão, de 42 anos que vai para sua sexta olimpíada (Duas de verão e quatro de inverno) e o jovem Victor Santos de 20 anos. Em uma prova em que os países europeus são muito fortes, ambos vão apenas para superarem suas marcas no cross country

Esqui Alpino – Michel Macedo, de 19 anos, será o representante brasileiro na modalidade. Michel conseguiu um grande resultado nos jogos de inverno da juventude em 2016 ao ficar entre os dezesseis melhores no esqui alpino. É visto como promessa e vai para sua primeira olimpíada para pegar experiência.

Patinação artística – A patinadora Isadora Williams, de 22 anos, vai para segunda olimpíada e espera um resultado melhor do que em Sochi, quando ficou em último lugar. As 24 melhores patinadoras vão para a final e Isadora deve lutar para ficar entre as finalistas.

Snowboard – Isabel Clark vai para sua quarta e última olimpíada, já que ela confirmou que vai se aposentar após Pyeongchang. Clark é dona do melhor resultado do Brasil em jogos de inverno, com um nono lugar em Turim-2006. Mesmo não estando no auge, se ela conseguir ser veloz e contar com a sorte no snowboard cross, prova que disputa, pode até ficar entre as 16 melhores.

Os jogos olímpicos de inverno em PyeongChang acontecerão entre os dias 9 e 25 de fevereiro.

Por Surto Olímpico

Precisamos falar sobre Tiffany

Precisamos falar sobre Tiffany

Um dos assuntos mais comentados no mundo desde o fim de 2017 é a oposta Tiffany Abreu jogando na Superliga feminina, pelo time de Bauru. Por ser a primeira transgênero a atuar em uma liga esportiva de alto rendimento, criou-se um imenso debate sobre a validade de sua participação no esporte.

Enquanto um lado defende que Tiffany não poderia estar jogando por levar vantagem em meio às mulheres, por ter sido um homem e feito a cirurgia de mudança de sexo há apenas dois anos atrás ainda tem a força muscular de um homem, um outro lado defende a participação dela, já que ela passou por todos os procedimentos requeridos pelo COI, que criou a documentação para inclusão de transgêneros nos esportes em 2015.

Mas o fato é que nem eu, você ou até mesmo o Comitê Olímpico Internacional (COI) sabe com precisão se um atleta transgênero realmente leva vantagem sobre atlas cisgêneros, pois Tiffany é a primeira que consegue disputar um esporte em alto nível, seguindo todas as especificações do COI: Ela ficou dois anos sem atuar após sua operação de mudança de sexo e tomou remédios para diminuir a sua produção de testosterona. O COI admite um máximo de 10 nanomol por litro de sangue, nos doze meses anteriores à competição. Segundo exames, Tiffany tem 0,1 nanomol por litro

Sendo a primeira transgênero, a disputar um esporte de alto nível, Tiffany está sendo analisada pela medicina esportiva, como diz a médica do COI Joanna Harper: “Até este momento, não existem estudos publicados sobre a memória muscular de atletas transexuais. Nós estamos agora estudando uma atleta durante sua transição. Estou esperançosa de que possamos estudar mais atletas em alguns anos”. Resumindo, Tiffany é uma ‘cobaia’ e o COI precisa de mais ‘Tiffanys’ disputando esportes de alto nível para poder aprimorar o documento que libera a participação dos transgêneros no esporte de alto nível.

Nas quadras, Tiffany mostrou um desempenho até espantoso nos primeiros jogos pela Superliga. O Bauru é um time médio e quando enfrentou times do mesmo nível, ela se destacou. Sendo a segunda oposta mais alta da Superliga, com 1,92m e com a contusão de Paula Pequeno, principal jogadora do Bauru, ela foi mais acionada e correspondeu. Mas quando o Bauru enfrentou uma equipe mais forte, como a do Minas, ela não conseguiu colocar a bola no chão com tanta facilidade e fez apenas cinco pontos, o que deve ser um indicativo que ela não desequilibra tanto assim. Se ela é boa ofensivamente, dá pra ver nas partidas que ela tem uma recepção não muito boa, o que afeta um pouco sua participação na partida, já que não consegue defender com mesma eficácia que ataca.

Usar apenas o aspecto biológico para ser contra a presença de Tiffany ou de qualquer transgênero em esporte de alto nível é equivocado. A principal questão não é como excluir os transgêneros, mas sim como incluí-los nos esportes de alto nível da melhor maneira possível, analisando os aspectos biológicos e sociais para esta inclusão, algo que o COI deverá discutir novamente em reunião após os jogos de inverno. Tiffany está sendo pioneira nesse aspecto e como toda pessoa que se desbrava em algo, sofre com a desconfiança, com o preconceito, mas no fim ela está abrindo caminho para algo maior. Afinal, o esporte é a melhor ferramenta de inclusão social que se tem e ele está desempenhando mais uma vez sua função, incluindo Tiffany em competições de alto nível, o que deve incentivar outros transgêneros a seguir por este caminho.

Por Surto Olímpico