Vale (GO) vence Queer Cup de handebol

Vale (GO) vence Queer Cup de handebol

Episódio de homofobia marca evento e reforça papel da militância

QueerCup apresenta handebol inclusivo às quadras brasileiras / Crédito: Guilherme Becker

Por Flávio Amaral

O ano parecia ser do futebol inclusivo até a realização da Copa Angels e da primeira edição do Gay Prix de vôlei. A dobradinha dos esportes coletivos mais populares no Brasil parecia dar o tom de 2018, mas uma terceira modalidade entrou para o time da representatividade no apagar das luzes da temporada.

A Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) de Curitiba recebeu no dia 24 de novembro a Queer Cup, o primeiro campeonato brasileiro inclusivo de handebol, durante o fim de semana de comemorações do aniversário de dois anos do Capivara Esporte Clube, primeira equipe LGBT+ da capital paranaense.

Quatro equipes participaram dessa primeira edição: além dos anfitriões do Capivara, marcaram presença Pampacats (RS), Bharbixas (MG) e Vale (GO). Os goianos, por sinal, chegaram embalados pela conquista da Copa Anápolis, torneio que reuniu equipes do Centro-Oeste brasileiro no qual era o único time formado por atletas gays.

As apresentações na cerimônia de abertura, a música, a dança, o show de drags e a integração e alegria que já são marcas dos torneios inclusivos em diferentes modalidades se mostraram presentes mais uma vez.

Dentro de quadra, todas as equipes se enfrentaram entre si em fase única. Com dez anos de participação em competições de handebol com equipes tradicionais, o Vale (GO) fez valer o favoritismo e levantou o troféu com aproveitamento de 100% conquistado em três vitórias. Os mineiros do Bharbixas ficaram com o vice-campeonato, com os gaúchos do Pampacats em terceiro lugar e os paranaenses do Capivara na quarta posição.

Goianos do Vale levantam troféu do torneio / Crédito: Guilherme Becker

Homofobia

Mas nem tudo foi festa. Um episódio de homofobia envolvendo sócios da AABB, pessoas que trabalhavam nos bares do clube e participantes do evento marcou o fim de semana. Demonstrações de afeto entre membros das equipes e torcedores foram alvo de comentários e atitudes preconceituosas por parte de frequentadores presentes na AABB para outros propósitos diferentes da Queer Cup.

O capixaba Guilherme Loriato, que dirige a equipe inclusiva de vôlei Lendários, do Rio de Janeiro, foi alvo sobretudo de críticas e agressões verbais. Ele relata que responsáveis por bares do clube se recusaram a vender para o público do evento a partir de certo momento. “Foi um episódio muito triste, que, para mim, acabou com a alegria do campeonato, que estava muito lindo”, lamenta Guilherme.

Gustavo Mendes, do Bharbixas (MG), também foi vítima de insultos por parte de frequentadores do clube. “Palavras foram proferidas com o intuito de machucar e nos recriminar, mas não esperavam que revidássemos. Não na mesma moeda, com ódio, discriminação e violência (houve empurrões), mas com resistência! Nos portamos como quem exige respeito e mostramos que somos pessoas como quaisquer outras ao buscar a igualdade.”

Ele conta que foi feito um boletim de ocorrência junto à polícia e os autores das agressões tiveram de se justificar. “Vi naquele dia como o que estamos fazendo é importante na busca pela paz entre as diferenças. Sabemos que não será fácil e nossa mensagem foi deixada com todas as letras para eles: se a nossa alegria incomoda, seremos cada vez mais alegres!”

Em seu perfil no Facebook, a AABB de Curitiba postou uma nota dirigida aos associados e assinada pelo presidente André Castelo Branco Machado e pelo vice-presidente administrativo João Augusto Antero, na qual consta:

“O respeito às diferenças é algo primordial para a construção de uma sociabilidade saudável. Na AABB Curitiba, todos os associados, funcionários, fornecedores e usuários do clube e suas famílias devem ser igualmente respeitados. Para que isso ocorra, todos nós devemos nos pautar pelos princípios instituídos em nosso estatuto social, repelindo ‘preconceitos e discriminações de gênero, orientação sexual, etnia, raça, credo ou qualquer espécie’ (Art 43º). Com diálogo, tolerância e bom senso garantiremos um ambiente de respeito e acolhedor para todos.”

A diretoria do Capivara Esporte Clube também se posicionou, através do presidente Juliano Cerci. Confira a nota:

“Os episódios de homofobia ocorridos durante a Queer Cup de Handebol no último fim de semana nos fazem lembrar o quanto nossa luta é relevante. Eles demonstram a importância da união entre nós e do diálogo aberto com a sociedade.

O posicionamento da diretoria da AABB repelindo os preconceitos e a discriminação de gênero, de orientação sexual ou de qualquer outra espécie vem ao encontro da nossa ânsia por uma mudança social tão necessária.

Desejamos ocupar os espaços comuns a todos os cidadãos, inclusive expressando o nosso amor seja por meio de um beijo ou por simplesmente andarmos de mãos dadas.”

Respeitar os diferentes não significa querer vê-los expurgados das áreas a que você frequenta. Significa conviver com eles de maneira pacífica, respeitando o direito à dignidade também conferido a você.”

Futebol LGBT+ ganha as telas

Futebol LGBT+ ganha as telas

Documentário “Soccer Boys” aborda militância do BeesCats no esporte

“SOCCER BOYS” TRAILER from Carlos Guilherme Vogel on Vimeo.

Por Flávio Amaral

Com sua missão de formar opinião, a mídia tem um papel fundamental na luta pela igualdade de direitos – isso vale também para a diversidade sexual e de gênero. A comunicação permite que busquemos informações capazes de nos esclarecer e transformar nossa visão de mundo sobre diferentes temas.

Foi com esse sentimento que o diretor Carlos Guilherme Vogel idealizou o documentário “Soccer Boys”, sobre a primeira equipe LGBT+ de futebol do Rio de Janeiro, o BeesCats. “Mostrar um futebol inclusivo, algo importante para todos. As pessoas precisam quebrar esse preconceito, e uma forma de fazer isso é contando histórias legais, de maneira a envolver as pessoas. Espero que as pessoas olhem para isso de uma forma diferente.”

A história contada – exibida pela primeira vez na última terça-feira no festival Mix Brasil, no Centro Cultural São Paulo, não foi apenas a do surgimento do time e da luta pela inclusão no esporte a partir de uma militância dentro e fora dos gramados. Foram também as histórias individuais que o grupo engloba, que reverberam na entrega de cada atleta em torneios como a Taça Hornet de Futebol da Diversidade, na qual a equipe de produção acompanhou o BeesCats.

“Durante o processo, participamos de eventos ligados ao time, nos aproximando mais para entender como funciona esse universo, até mesmo para não abordar de forma superficial. Buscamos compreender os mecanismos das relações”, conta Vogel, que idealizou o filme ainda em novembro do ano passado, na época da primeira Champions LiGay.

Parte da equipe do filme: o editor Marcelo Engster, o diretor Carlos Guilherme Vogel e a assistente de produção Ana Caroline Martins / Crédito: Samuca Bovo

Militância nas telas

O diretor ressalta a importância do cinema na conscientização sobre a temática inclusiva, trabalho que, segundo ele, também é de responsabilidade de outras mídias. Sobretudo no momento político vivido pelo país quanto à ameaça cada vez maior sobre os direitos da comunidade LGBT+, Vogel vê a importância do posicionamento como seu grande aprendizado ao se dedicar ao trabalho com o time.

“Fiquei mais convicto de que é importante nos posicionarmos, falarmos sobre o que tem de ser falado. Motiva muito ver como as pessoas que conduzem esse movimento se posicionam quanto aos seus desafios e suas questões pessoais de aceitação”, afirma o diretor, após os cerca de 6 meses de dedicação ao documentário.

“Devemos tentar passar mensagens através de histórias que consideramos importantes, para tentar mudar o pensamento das pessoas para melhor. Nesse caso, é tentar fazer as pessoas olharem para esse universo de outra forma, buscando gerar empatia e quebrar preconceitos. É tudo tão arraigado na nossa sociedade que às vezes é difícil parar, pensar e se reprogramar. Queremos garantir que todos tenham o mesmo espaço”, finaliza Vogel.

Visão do atleta

Durante os dias de filmagem, percebíamos a intenção do Vogel e sua equipe de participar do nosso convívio, conhecer as histórias individuais e, principalmente, como o time – e o movimento como um todo – é conduzido. Ainda não tivemos a oportunidade de conferir o trabalho final, mas é de fundamental importância trazer visibilidade a um movimento que tem transformado tantas pessoas em tão pouco tempo. Assim como a imprensa tem feito seu papel, noticiando a iniciativa das equipes e a realização dos torneios, o cinema é também um solo fértil para se trabalhar a temática da presença LGBT+ nos espaços esportivos.

 

Competitivo sem perder o fair play

Competitivo sem perder o fair play

Crescimento técnico de torneios LGBT+ aumenta expectativa para 2019

Marcas da competitividade: gritos de guerra se tornaram comuns no esporte LGBT+ / Crédito: Arquivo LiGay SP

Por Flávio Amaral

Um grupo de amigos interessados em jogar bola, e nada mais que isso. Esse foi o início da grande maioria das equipes LGBT+ de futebol. Mas as competições regionais e nacionais trouxeram à tona um elemento que, até então, o espaço lúdico das peladas periódicas ocultava: a competitividade.

O movimento de criação e expansão dos times inclusivos e a realização de torneios não apenas deram mais visibilidade à causa; também fizeram com que cada equipe buscasse se reforçar e aprimorar seu jogo. Em um terreno no qual a representatividade sempre fala alto, a disputa também marca presença.

“O nível dos torneios cresceu bastante, mantendo, mesmo assim, a harmonia entre os jogadores. Esse crescimento mostra quantos bons atletas ficaram pelo caminho em uma possível carreira profissional no esporte devido ao preconceito. A LiGay hoje tem nível técnico igual ou superior ao de muitos outros campeonatos ‘tradicionais’”, conta Ubajaran Braz, do Alligaytors (RJ).

Com esse crescimento em tão pouco tempo, já aumenta a expectativa para a próxima Champions LiGay, a primeira fora do eixo centro-sul do Brasil, que será realizada em Brasília (DF), em 19 e 20 de abril de 2019. É o que afirma David Reis, do Pampacats (RS).

“Vimos que muitos times conseguem montar um grupo forte de maneira orgânica, com jogadores que frequentam seus encontros semanais. Isso mostra que, na LiGay de Brasília, o quesito ‘técnica’ será ressaltado novamente.”

Do “tradicional” ao inclusivo

Bharbixas comemora vaga na final / Crédito: Arquivo LiGay SP

A popularização dos grupos inclusivos de futebol fez com que atletas amadores com vivência sólida em equipes tradicionais conhecessem um outro lado do esporte que tanto amam. Com o desejo de conviver em ambientes esportivos mais harmoniosos, muitos deles hoje se veem mais como jogadores de seus times LGBT+.

“A transição vem sendo natural. Hoje jogo apenas esporadicamente no futebol “tradicional” e apenas com pessoas com as quais eu me sinta à vontade. A falta de respeito lá é predominante. Em tempos de Bolsonaro, não pretendo ser um alvo, pela minha orientação sexual. A tendência para 2019 é que eu fique só no futebol LGBTQI+, onde o respeito prevalece e me sinto seguro”, conta Josué Machado, do Bharbixas (MG).

Eddie Prim, do Sereyos (SC), confessa que via com cuidado esse aumento do espírito competitivo dentro dos torneios inclusivos, mas admite que, cerca de um ano após a realização da primeira Champions LiGay – estreia do time catarinense em competições LGBT+ –, o resultado da experiência é positivo.

“Antes eu achava que a competitividade no esporte LGBT+ influenciaria a coletividade das equipes e o motivo maior da LiGay: a luta contra o preconceito. Com o tempo, vejo um saldo muito positivo e, de forma natural, todas as equipes estão se nivelando e mostrando que gays podem estar sim em grandes clubes. Hoje todos se sentem em casa e mais fortes para ocupar espaços que são seus de direito. A competitividade não feriu nenhum laço de amizade, pelo contrário, uns torcem pelo sucesso dos colegas”, analisa o líder da equipe azul.

Visão do comando

Essa perspectiva não ecoa apenas dentro dos gramados. Única treinadora a comandar a mesma equipe nas três edições da LiGay, Alessandra Huff, do Magia, acredita no aprimoramento técnico como um dos caminhos que trazem mais visibilidade à causa LGBT+ no esporte.

“Confesso que, na primeira edição, já me impressionei com a qualidade técnica das equipes, porém notei um crescimento na organização tática das mesmas, o que aumentou a competitividade nas edições seguintes, elevando cada vez mais o nível da competição. O futebol society ainda é um esporte amador no Brasil e, acredito que essa melhora nos torneios LGBT+ contribui não só para a causa dessa comunidade, mas também para o crescimento do esporte. Acredito que cabe aos líderes de cada equipe e aos organizadores da Liga fortalecer o discurso de união, mantendo o clima festivo e respeitoso a cada edição e mantendo o clima harmonioso”, afirma a treinadora da equipe gaúcha.