Vasco em defesa da diversidade sexual

Vasco em defesa da diversidade sexual

FIFA reconhece ações de vice-presidente pela inclusão no futebol

Sônia Andrade, à esquerda, é a porta-voz do Vasco pela inclusão social e pela diversidade sexual em ambiente esportivo / Crédito: Rafael Ribeiro/Vasco.com.br

Por Flávio Amaral

Pode-se dizer que em 2018 clubes brasileiros voltaram sua atenção para a diversidade sexual. Episódios de cânticos homofóbicos vindos das arquibancadas, como no clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, quando torcedores atleticanos utilizaram o nome do presidente eleito Jair Bolsonaro para disparar preconceito em direção aos adversários no Mineirão, exigiram posicionamento público das instituições nas redes sociais e na imprensa.

Essa atitude dos clubes já pode ser considerada um avanço em prol do respeito às diferenças, um verdadeiro passo na direção da aceitação à diversidade. No Rio de Janeiro, o Vasco obteve outra conquista – dessa vez, internacional – nesse quesito. O clube recebeu da FIFA uma carta de agradecimento e apoio às ações desenvolvidas pela vice-presidente geral, Sônia Andrade, no combate à violência e à discriminação sexual no ambiente esportivo.

A entidade máxima do futebol mundial afirmou, no documento, “parabenizá-la pelo seu compromisso e dedicação em abraçar a inclusão em nosso amado jogo”, garantindo que a gestora “tem todo o apoio moral da FIFA nessa área, pois também estamos trabalhando incansavelmente para garantir que não haja espaço para discriminação ou exclusão em nosso esporte”.

A primeira coluna de 2019 traz um bate-papo com Sônia, a única mulher em cargo de gestão em clubes da Série A do futebol brasileiro. Em seus depoimentos, ela comenta a influência do domínio masculino no esporte para a disseminação do preconceito, conta seu sentimento e sua reação com a comunicação recebida da FIFA e aponta a educação e o esclarecimento sobre o preconceito como caminho para o respeito às diferenças.

Confira a íntegra da conversa com ela:

Orgulho em Campo: A homofobia permeia todo o esporte, mas no futebol ela é mais presente – ou menos disfarçada. Na sua opinião, onde está a raiz desse preconceito?

Sônia Andrade: A meu ver, essa realidade se dá pelo fato de o futebol, infelizmente, ainda ser um esporte no qual o homem impera, não somente nos cargos de gestão, como também nos de diretoria, tendo pouquíssimas mulheres assumindo tais funções até hoje. Por isso, acredito que o machismo no futebol está mais latente do que em outros esportes. Dessa maneira, pessoas que possuem atração pelo mesmo sexo acabam sofrendo mais com as consequências desse preconceito absurdo no ambiente futebolístico.

OC: Qual a sua sensação ao receber o agradecimento da FIFA pelos esforços empreendidos no combate à violência e à discriminação sexual no ambiente esportivo?

SA: Foi uma das coisas mais especiais que aconteceram comigo na função de Vice-Presidente Geral do Club de Regatas Vasco da Gama. Para mim, é muito importante saber que a entidade que regula o futebol mundial apoia e reconhece o trabalho que venho desenvolvendo. Desde que assumi o cargo, tenho levado muita a sério tudo que realizo. Por isso, até hoje, só assinei embaixo daquilo que eu realmente acredito que vá trazer benefícios para o clube, para os torcedores ou para a população em geral.

O agradecimento aconteceu durante aquele episódio de covardia contra mulheres ocorrido na Copa do Mundo de 2018 [em que brasileiros fizeram uma russa repetir o nome de um órgão sexual; o episódio viralizou e despertou indignação nas redes sociais]. Me revoltei quando vi aquelas cenas de homens discriminando mulheres que se encontravam em uma situação de vulnerabilidade pelo fato de não entenderem o idioma, achei uma atitude inadmissível.

Na qualidade de Vice-Presidente do Vasco e sendo a única mulher com função de gestão nos clubes da Série A, eu precisava me manifestar. Decidi me remeter a vários órgãos relacionados ao esporte: secretarias, ministérios e mesmo a FIFA. Para minha surpresa, minhas palavras foram lidas e respondidas da melhor forma possível. Isso significou muito para todos nós do Vasco, pois foi uma forma de reconhecimento do trabalho que estamos desenvolvendo no clube, um trabalho sério de combate à violação de todas as formas de direitos e que eu pretendo deixar de herança para o futebol mundial.

OC: O Vasco é um clube pioneiro nas questões sociais em âmbito étnico/racial. Qual deve ser, para você, o papel desempenhado pelo clube para também, ser reconhecido como uma instituição inclusiva e que apoia a diversidade?

SA: Acredito que a palavra-chave seja educação. O papel que o clube deve desempenhar deve estar sempre voltado para a área educacional. Precisamos esclarecer, ensinar, procurar inserir pessoas para divulgarmos que hoje, na sociedade na qual vivemos, não cabe mais discriminação de qualquer tipo. A meu ver, usar o futebol para divulgar essas ações é o mesmo que potencializar os efeitos benéficos que elas podem trazer para a população em geral. À medida que conscientizamos as pessoas por meio de ações educacionais, palestras, inclusão de pessoas que possam propagar essas ideias, vamos cada vez mais combatendo o preconceito, seja ele de qualquer tipo.

OC: Que atitudes e medidas você apontaria como responsáveis para que você tivesse esse reconhecimento por parte da entidade que regula o futebol mundial?

SA: Na qualidade de Registradora Pública, sempre tive como bandeira o combate à homofobia. Sempre trabalhei para erradicar o preconceito, participei de movimentos que demonstrassem que a discriminação é algo que nunca deveria ter existido e, por isso, precisa ser combatida com todas as forças.

Inclusive, foi registrado no meu cartório (6º Ofício de Registros de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro) o documento que deu base dentro do STF para uma decisão favorável ao casamento ente pessoas do mesmo sexo. Então, eu sempre fui pioneira na defesa dessas causas dentro da área do registro público.

Com essa minha bagagem, hoje eu venho tentando inserir ações que combatam toda forma de preconceito dentro do futebol. Ninguém pode ser discriminado por conta da sua orientação sexual, cor, religião ou gênero. Qualquer tipo de discriminação precisa ser combatido. Acho que, por isso, a CBF, a FIFA e os clubes de futebol me têm visto com bons olhos, pois sou uma pessoa que executa aquilo em que realmente acredita. Por acreditar e querer o melhor para a sociedade, venho combatendo todo tipo de discriminação.

OC: Recentemente, os clubes vêm se posicionando contra atitudes preconceituosas de suas torcidas. Qual deve ser, na sua opinião, o posicionamento das instituições para coibir episódios de homofobia e preconceito?

SA: Acredito que todo combate ao preconceito precisa passar pela questão do esclarecimento. A criminalização de uma atitude sem a explicação do motivo de ela ser errada não funciona, a meu ver. Na minha opinião, o primeiro ato que precisa ser tomado está ligado à educação. Por isso, o Club de Regatas Vasco da Gama está terminando uma cartilha intitulada “Vasco contra a violação de todos os direitos”. Está na hora de esclarecermos à sociedade que não cabe mais nenhum tipo de discriminação nos dias atuais.

O primeiro passo é combater a violência do preconceito a partir da informação. Se os mesmos tipos de postura persistirem, cabe aos clubes criar departamentos com o objetivo de punir pessoas que pratiquem atos desta natureza.

Foto: CartaFIFA (Legenda: Íntegra da carta de agradecimento da FIFA recebida por Sônia Andrade / Crédito: Reprodução/Vasco.com.br)

Relembre o ano do futebol LGBT+

Relembre o ano do futebol LGBT+

Competições, Carnaval, jogo em estádio de Copa… veja a retrospectiva

Por Flávio Amaral

O esporte LGBT+ viveu em 2018 seu grande crescimento. O movimento nacional iniciado em 2017 alcançou novas proporções, chegando à marca de 50 equipes inclusivas criadas no Brasil. Novos campeonatos foram criados, a política nacional teve papel decisivo na luta de atletas e simpatizantes e a causa se estendeu aos gramados internacionais. Tudo isso em uma temporada que não deixa dúvidas de que o esporte caminha a passos firmes e constantes para se tornar um ambiente mais justo e inclusivo.

Nesta última coluna de 2018, você confere um panorama das experiências vividas por mim – no BeesCats e no esporte LGBT+ em geral – como atleta e jornalista em um ano de profundas transformações individuais e coletivas.

RetroSãoSebastião – Arquivo BeesCats

A temporada começava com preparação dentro e fora de campo. De treinadora nova, participamos da Copa São Sebastião, no Aterro do Flamengo, no dia do padroeiro da Cidade Maravilhosa. O terceiro lugar valeu muito mais que o pódio para a única equipe LGBT+ do torneio. Valeu também o respeito de adversários, surpresos com o fato de, mesmo nas derrotas, não brigarmos entre nós. Sinal da transformação que propomos na cultura do futebol competitivo.

RetroCarnaval – Arquivo BeesCats

Se o sol castigava o time nos jogos, à noite atletas e amigos caíam no samba. BeesCats e Alligaytors foram convidados para desfilar em uma ala coreografada de exércitos francês e africano na Paraíso do Tuiuti, escola de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Depois de pouco mais de um mês de ensaios, o “ahazo na coreô” ajudou a levar ao vice-campeonato uma agremiação que, até então, lutava para beliscar uma vaga no Desfile das Campeãs. A Tuiuti – que, por sinal, tem São Sebastião como padroeiro – ficou um décimo atrás da Beija-Flor de Nilópolis, sendo aclamada pelo público nas redes sociais como “A Campeã do Povo”.

RetroLiGayPoA – Douglas Barcelos

Em abril, o time desbravou terras gaúchas para participar da segunda edição da Champions LiGay. Com a pior campanha dentre os oito classificados para a fase eliminatória, não faltou entrega de cada jogador em campo para compensar o que não vinha dando certo pela técnica. Levar a final, contra a equipe a ser batida – o Bulls (SP) – para a decisão por shoot-out foi uma conquista, que só poderia ficar melhor se tivéssemos trazido o título para o Rio.

RetroCâmara – Arquivo BeesCats

As comemorações em maio não ficaram restritas ao aniversário de um ano do Bees, celebrado com uma animada festa no local onde o time nasceu, o Clube Guanabara, em Botafogo. A Cinelândia, local consagrado na política por decisões e movimentos históricos para o Rio e para o Brasil, a equipe teve seu papel político reconhecido. Em evento organizado pelo vereador David Miranda na Câmara Municipal da cidade, BeesCats e Alligaytors receberam uma moção de louvor e congratulações por promover a diversidade sexual no esporte no Rio de Janeiro. Pessoalmente, foi o dia em que dimensionei a importância política do pioneirismo de nossa atuação, em termos de militância e de potencial de transformação para tantas vidas.

RetroHornet – Arquivo BeesCats

Em junho, a nostalgia tomou conta do time. Foi tempo de relembrar a primeira participação em um torneio inclusivo, mais precisamente a ocasião na qual o projeto ganhou corpo. A Taça Hornet da Diversidade chegava à sua segunda edição, novamente em São Paulo. Na primeira, tive a felicidade de ser campeão com meu time e ser artilheiro da competição. Em 2018, chegamos novamente à final – dessa vez, um triangular. Com uma vitória sobre o Unicorns (SP) e derrota para o Bulls (SP) – sim, eles novamente, chegamos ao terceiro vice-campeonato consecutivo.

RetroMineirão – Mineirão/Agência i7

O mês também foi marcado por outro evento que levo como recordação para toda a vida, pela realização de dois sonhos: jogar em um estádio de Copa do Mundo e marcar um gol nele. O Bharbixas (MG) comemorou seu primeiro aniversário com futebol e festa no Mineirão. Dentro das quatro linhas, o adversário era uma seleção da LiGay Nacional de Futebol. Uniforme personalizado esperando no vestiário, aquecimento com preparadores físicos, hino nacional executado com a bandeira do Brasil tremulando em 3D no telão: elementos de uma lembrança daquelas de se guardar para sempre.

RetroGayGames – Arquivo BeesCats

O segundo semestre tinha acabado de começar, mas já trouxe em agosto a cereja do bolo de 2018: a participação nos Gay Games de Paris. Disputar uma Olimpíada com atletas de 91 países, se testar em outros idiomas, acompanhar cerimônias de abertura e encerramento dignas de um megaevento e ainda representar o futebol LGBT+ do Brasil no exterior trazendo a medalha de prata para casa são memórias para toda a vida – tenho certeza que falo por todos os atletas que foram em nossa delegação. Isso sem falar na oportunidade de contar tudo o que acontecia em solo francês através desta coluna.

RetroSudeste – Reprodução/Instagram BeesCats

Mas o ano ainda prometia novas emoções. Setembro trouxe a conquista da Copa Sudeste, em Vitória (ES), colocando fim na série de quatro vice-campeonatos do BeesCats, trazendo de volta o gostinho de levantar uma taça no primeiro torneio regional que disputamos.

Novembro foi a vez de mais uma edição da Champions LiGay, fechando a temporada de competições com uma campanha abaixo do esperado – foi a primeira vez que não chegamos a uma final de torneio inclusivo –, mas uma série de aprendizados, como a cada ocasião.

Fechando 2018, o diretor Carlos Guilherme Vogel finalizou o documentário “Soccer Boys”, sobre o BeesCats e a campanha na Taça Hornet da Diversidade, exibindo-o no festival Mix Brasil, em São Paulo.

Depois da longa jornada, resta esperar por um 2019 de tantas oportunidades quanto 2018 proporcionou, e que o trabalho de conscientização sobre o respeito às diferenças caminhe a passos firmes na direção de tornar o esporte um ambiente mais harmônico e agregador. Obrigado a você que me acompanhou esse ano. Espero que você continue por aqui na próxima temporada, acompanhando a caminhada do esporte inclusivo!

O armário visto do campo

O armário visto do campo

Igor Julião e a educação contra o preconceito

Foto: IgorJuliãoFlu (Crédito: Nelson Perez/FFC)

Por Flávio Amaral

Na semana passada, você conferiu aqui na coluna o comentário do lateral-direito do Fluminense Igor Julião, em entrevista ao jornal O Globo, sobre o preconceito existente no mundo da bola com relação à comunidade LGBT+. Nada mais justo, então, que ir ao encontro do jogador para, em um bate-papo exclusivo para a Orgulho em Campo, conhecer melhor sua percepção sobre um tema, que, afirma, “nem deveria estar sendo discutido”.

Chegando à casa do atleta, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, impossível deixar de notar na tela da televisão algo a que ele está bem acostumado e, pelo visto, não deixa de lado nem nas férias: futebol, mas, dessa vez, o virtual.

Os 36 minutos de conversa foram mais que suficientes para perceber a maturidade de pensamento que extrapola em muito os 24 anos que Igor tem de vida. Grande parte disso se deve à visão que demonstra de particularidades que, inevitavelmente, fazem parte do universo do esporte – e dos universos individuais envolvidos nele.

“O futebol é um meio no qual muitos jogadores vieram de lugares pobres, com baixos níveis de escolaridade e cultura, alguns com família preconceituosa, até mesmo por conta da religião. É um esporte majoritariamente de cristãos, mas a sociedade transformou o Cristianismo em algo pesado, preconceituoso. Vivemos numa sociedade em que as pessoas têm medo de se assumir em seu círculo próximo e sofrer retaliações”, analisa.

Raízes na genealogia

Dizer que preconceito “vem de berço” não estaria de todo errado, na opinião de Igor. Questionado sobre a origem do preconceito no futebol brasileiro, o jogador mostrou a importância do autoconhecimento ao destacar as crenças enraizadas no núcleo familiar como oportunidade de reconstruir a própria visão de mundo.

“Nossa estrutura social é preconceituosa. Eu também vim de uma família que tem seus preconceitos. Tenho de fazer um exercício diário de reconstrução. Eu continuo brigando com meus pais, meus avós. Muitos não querem fazer essa desconstrução de si mesmos, mas eu tenho um dever para com a sociedade e as pessoas que vivem ao meu redor de passar isso adiante. Meu pai foi melhor que meu avô nisso, eu estou sendo melhor que meu pai e quero que meu filho seja melhor que eu”, determina, consciente.

A menção à homofobia no futebol foi o suficiente para que ele fosse criticado após a entrevista para O Globo. “Fui chamado de ‘veado’ depois da entrevista. Se querem me ofender, mudem os termos, porque orientação sexual não pode ser ofensa. Comento com minha esposa: ‘sou atacado por defender (a criminalização de) algo que é um crime (homofobia)’. A pessoa se assumir é um ato de coragem. Graças à exposição que o futebol e Fluminense me deram, o quanto eu puder lutar por coisas que acredito serem mais humanas, vou lutar”.

Foto: IgorJuliãoFlu2 (Crédito: Lucas Merçon/FFC)

Exemplo na família

Por mais que Igor aponte em sua família o ponto de partida para uma reconstrução pessoal, ele também traz de casa a percepção sobre a coragem no ato de “sair do armário”. Há aproximadamente um mês, o atleta perdeu um tio que participava dos encontros semanais do BeesCats (RJ), equipe inclusiva de futebol. Ele o homenageou em sua camisa na partida do Fluminense contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.

“Eu tinha uma ligação muito grande com ele, tanto que fui a única pessoa da família com quem ele se abriu. Na época, eu tinha 16 anos, mas a frase que ele usou quando eu disse que a escolha era dele foi um tapa na cara, levo para a vida toda. Ele disse: ‘não, não escolhi isso, não nasci assim. Se eu pudesse escolher não sofrer preconceito… se a sociedade me enxergasse normalmente, eu escolheria’. Ele quis jogar (no BeesCats) com a camisa 40, número que eu usava na época”, relembra.

Sequer foi preciso dar a Igor exemplos do potencial de transformação pessoal e quebra de paradigmas que os times inclusivos representam. “Meu tio nunca se interessou por futebol, mas era muito feliz no ambiente do time. Ele jogava com uma chuteira que dei para ele”, se antecipou, contando que, na tradicional pelada de fim de ano em que seus amigos desafiam os amigos de seu irmão, seu pai fez uma homenagem apitando a partida com a camisa com a qual Adriano jogava.

Base da educação

Emprestado pelo Fluminense ao Sporting Kansas City (EUA), o lateral teve contato com a realidade americana, na qual o esporte universitário é um estágio preparatório para o futebol profissional. Mencionando o exemplo de um jogador do Minnesota United que assumiu sua homossexualidade, Igor justificou a diferença pela base proporcionada pelo ciclo acadêmico na América do Norte.

“A liga americana dá um suporte aos jogadores que se assumem, mas o processo de formação também é diferente. Lá o atleta passa pelo esporte universitário antes de se tornar profissional, ele sai com um diploma universitário, tem outra mentalidade.”

De opiniões firmes, Igor afirma notar pessoas desconfortáveis no ambiente esportivo por conta do preconceito, pessoas “que muitas vezes não são elas mesmas”, mas sustenta que, no momento em que jogadores brasileiros quiserem “sair do armário”, devem estar preparados para lidar com as responsabilidades da decisão e ter boa capacidade de argumentar em defesa da diversidade sexual no esporte.

“Essa iniciativa deve ser tomada, mas por pessoas que tenham ‘as costas largas’ (arquem com as consequências), tenham argumentos, estejam preparadas para isso. Se tivéssemos aqui no Brasil um coletivo com embasamento para discutir a causa e passar uma mensagem, isso poderia acontecer”, sinaliza.

Vídeo: (Crédito: TV Galo)

Clubes tomam posição

A luta pela inclusão no futebol tem sido mais presente no noticiário. Prova disso é o posicionamento de clubes a favor da causa em suas redes sociais. A FIFA, por exemplo, reconheceu através de uma carta de agradecimento os esforços da segunda vice-presidente do Vasco, Sônia Andrade, em suas ações para combater a violência e a discriminação no ambiente esportivo.

Por vezes, a intervenção precisa ser mais voltada para “apagar incêndios”, como no caso de cânticos homofóbicos direcionados pela torcida do Atlético-MG à do Cruzeiro durante clássico no Mineirão, inclusive citando o presidente eleito Jair Bolsonaro (confira a matéria dessa coluna sobre o episódio clicando aqui).

Para Igor Julião, o posicionamento dos clubes nas redes pode ser interpretado como o início de um movimento para educar os torcedores quanto à diversidade. “É um início, e muitos torcedores vão contra (as atitudes preconceituosas), dizendo que isso não os representa. Se a torcida faz algum grito racista, homofóbico, misógino para oprimir uma minoria, o clube deve sim tomar partido e, quando ele toma a iniciativa de se posicionar, já deixa uma mensagem positiva para a torcida”.

Abrindo o armário do futebol

Impossível deixar de contextualizar o histórico e o alcance do movimento do futebol LGBT+, para a surpresa – e aprovação – do jogador, que partilha da ideia de que o ato de o atleta gay ocupar um espaço hegemonicamente heterossexual é uma atitude de militância.

“Acho esse movimento muito importante e, ganhando a atenção que merece, daqui a um tempo, não será necessária essa divisão, que hoje só existe para que os atletas LGBT+ se sintam integrados. É preciso sim ‘fazer barulho’, tomar cada vez mais espaço para que todos estejam no mesmo ambiente”, afirmou, aproveitando para lançar uma sacada perspicaz: “não conheço a liga, mas imagino que os uniformes devem ser bem melhores que os da maioria dos times, pelo bom gosto que costumam ter (risos).”

Por fim, foi hora de propor a Igor o exercício de se colocar no lugar de um jornalista esportivo. Para quem tem, além do talento com a bola nos pés, a clareza de pensamento de um jovem “de alma experiente”, a tarefa não foi difícil: se imaginar como responsável pela cobertura de um torneio inclusivo e pensar que assuntos abordaria em sua matéria.

“Destacaria a união que os times provavelmente têm nessa luta, o conforto que sentem num espaço próprio dentro de uma sociedade cada vez mais opressora… e contar um pouco sobre cada jogador. São pessoas que, para se assumir, precisaram ter muita coragem. Mostraria também a qualidade técnica, provavelmente deve ter muita gente boa de bola e que, por um motivo ou outro, não chegou a uma categoria de base. Acho que muita gente se interessaria em acompanhar”.

No final, o jogador tomou gosto pela brincadeira, perguntando sobre a competitividade dos torneios LGBT+ e a recepção do BeesCats na Liga Carioca de Futebol 7. Talvez seja hora de o jornalismo esportivo expandir seus horizontes…

Foto: Uniformes (Crédito: Arquivo BeesCats)