O armário visto do campo

O armário visto do campo

Igor Julião e a educação contra o preconceito

Foto: IgorJuliãoFlu (Crédito: Nelson Perez/FFC)

Por Flávio Amaral

Na semana passada, você conferiu aqui na coluna o comentário do lateral-direito do Fluminense Igor Julião, em entrevista ao jornal O Globo, sobre o preconceito existente no mundo da bola com relação à comunidade LGBT+. Nada mais justo, então, que ir ao encontro do jogador para, em um bate-papo exclusivo para a Orgulho em Campo, conhecer melhor sua percepção sobre um tema, que, afirma, “nem deveria estar sendo discutido”.

Chegando à casa do atleta, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, impossível deixar de notar na tela da televisão algo a que ele está bem acostumado e, pelo visto, não deixa de lado nem nas férias: futebol, mas, dessa vez, o virtual.

Os 36 minutos de conversa foram mais que suficientes para perceber a maturidade de pensamento que extrapola em muito os 24 anos que Igor tem de vida. Grande parte disso se deve à visão que demonstra de particularidades que, inevitavelmente, fazem parte do universo do esporte – e dos universos individuais envolvidos nele.

“O futebol é um meio no qual muitos jogadores vieram de lugares pobres, com baixos níveis de escolaridade e cultura, alguns com família preconceituosa, até mesmo por conta da religião. É um esporte majoritariamente de cristãos, mas a sociedade transformou o Cristianismo em algo pesado, preconceituoso. Vivemos numa sociedade em que as pessoas têm medo de se assumir em seu círculo próximo e sofrer retaliações”, analisa.

Raízes na genealogia

Dizer que preconceito “vem de berço” não estaria de todo errado, na opinião de Igor. Questionado sobre a origem do preconceito no futebol brasileiro, o jogador mostrou a importância do autoconhecimento ao destacar as crenças enraizadas no núcleo familiar como oportunidade de reconstruir a própria visão de mundo.

“Nossa estrutura social é preconceituosa. Eu também vim de uma família que tem seus preconceitos. Tenho de fazer um exercício diário de reconstrução. Eu continuo brigando com meus pais, meus avós. Muitos não querem fazer essa desconstrução de si mesmos, mas eu tenho um dever para com a sociedade e as pessoas que vivem ao meu redor de passar isso adiante. Meu pai foi melhor que meu avô nisso, eu estou sendo melhor que meu pai e quero que meu filho seja melhor que eu”, determina, consciente.

A menção à homofobia no futebol foi o suficiente para que ele fosse criticado após a entrevista para O Globo. “Fui chamado de ‘veado’ depois da entrevista. Se querem me ofender, mudem os termos, porque orientação sexual não pode ser ofensa. Comento com minha esposa: ‘sou atacado por defender (a criminalização de) algo que é um crime (homofobia)’. A pessoa se assumir é um ato de coragem. Graças à exposição que o futebol e Fluminense me deram, o quanto eu puder lutar por coisas que acredito serem mais humanas, vou lutar”.

Foto: IgorJuliãoFlu2 (Crédito: Lucas Merçon/FFC)

Exemplo na família

Por mais que Igor aponte em sua família o ponto de partida para uma reconstrução pessoal, ele também traz de casa a percepção sobre a coragem no ato de “sair do armário”. Há aproximadamente um mês, o atleta perdeu um tio que participava dos encontros semanais do BeesCats (RJ), equipe inclusiva de futebol. Ele o homenageou em sua camisa na partida do Fluminense contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.

“Eu tinha uma ligação muito grande com ele, tanto que fui a única pessoa da família com quem ele se abriu. Na época, eu tinha 16 anos, mas a frase que ele usou quando eu disse que a escolha era dele foi um tapa na cara, levo para a vida toda. Ele disse: ‘não, não escolhi isso, não nasci assim. Se eu pudesse escolher não sofrer preconceito… se a sociedade me enxergasse normalmente, eu escolheria’. Ele quis jogar (no BeesCats) com a camisa 40, número que eu usava na época”, relembra.

Sequer foi preciso dar a Igor exemplos do potencial de transformação pessoal e quebra de paradigmas que os times inclusivos representam. “Meu tio nunca se interessou por futebol, mas era muito feliz no ambiente do time. Ele jogava com uma chuteira que dei para ele”, se antecipou, contando que, na tradicional pelada de fim de ano em que seus amigos desafiam os amigos de seu irmão, seu pai fez uma homenagem apitando a partida com a camisa com a qual Adriano jogava.

Base da educação

Emprestado pelo Fluminense ao Sporting Kansas City (EUA), o lateral teve contato com a realidade americana, na qual o esporte universitário é um estágio preparatório para o futebol profissional. Mencionando o exemplo de um jogador do Minnesota United que assumiu sua homossexualidade, Igor justificou a diferença pela base proporcionada pelo ciclo acadêmico na América do Norte.

“A liga americana dá um suporte aos jogadores que se assumem, mas o processo de formação também é diferente. Lá o atleta passa pelo esporte universitário antes de se tornar profissional, ele sai com um diploma universitário, tem outra mentalidade.”

De opiniões firmes, Igor afirma notar pessoas desconfortáveis no ambiente esportivo por conta do preconceito, pessoas “que muitas vezes não são elas mesmas”, mas sustenta que, no momento em que jogadores brasileiros quiserem “sair do armário”, devem estar preparados para lidar com as responsabilidades da decisão e ter boa capacidade de argumentar em defesa da diversidade sexual no esporte.

“Essa iniciativa deve ser tomada, mas por pessoas que tenham ‘as costas largas’ (arquem com as consequências), tenham argumentos, estejam preparadas para isso. Se tivéssemos aqui no Brasil um coletivo com embasamento para discutir a causa e passar uma mensagem, isso poderia acontecer”, sinaliza.

Vídeo: (Crédito: TV Galo)

Clubes tomam posição

A luta pela inclusão no futebol tem sido mais presente no noticiário. Prova disso é o posicionamento de clubes a favor da causa em suas redes sociais. A FIFA, por exemplo, reconheceu através de uma carta de agradecimento os esforços da segunda vice-presidente do Vasco, Sônia Andrade, em suas ações para combater a violência e a discriminação no ambiente esportivo.

Por vezes, a intervenção precisa ser mais voltada para “apagar incêndios”, como no caso de cânticos homofóbicos direcionados pela torcida do Atlético-MG à do Cruzeiro durante clássico no Mineirão, inclusive citando o presidente eleito Jair Bolsonaro (confira a matéria dessa coluna sobre o episódio clicando aqui).

Para Igor Julião, o posicionamento dos clubes nas redes pode ser interpretado como o início de um movimento para educar os torcedores quanto à diversidade. “É um início, e muitos torcedores vão contra (as atitudes preconceituosas), dizendo que isso não os representa. Se a torcida faz algum grito racista, homofóbico, misógino para oprimir uma minoria, o clube deve sim tomar partido e, quando ele toma a iniciativa de se posicionar, já deixa uma mensagem positiva para a torcida”.

Abrindo o armário do futebol

Impossível deixar de contextualizar o histórico e o alcance do movimento do futebol LGBT+, para a surpresa – e aprovação – do jogador, que partilha da ideia de que o ato de o atleta gay ocupar um espaço hegemonicamente heterossexual é uma atitude de militância.

“Acho esse movimento muito importante e, ganhando a atenção que merece, daqui a um tempo, não será necessária essa divisão, que hoje só existe para que os atletas LGBT+ se sintam integrados. É preciso sim ‘fazer barulho’, tomar cada vez mais espaço para que todos estejam no mesmo ambiente”, afirmou, aproveitando para lançar uma sacada perspicaz: “não conheço a liga, mas imagino que os uniformes devem ser bem melhores que os da maioria dos times, pelo bom gosto que costumam ter (risos).”

Por fim, foi hora de propor a Igor o exercício de se colocar no lugar de um jornalista esportivo. Para quem tem, além do talento com a bola nos pés, a clareza de pensamento de um jovem “de alma experiente”, a tarefa não foi difícil: se imaginar como responsável pela cobertura de um torneio inclusivo e pensar que assuntos abordaria em sua matéria.

“Destacaria a união que os times provavelmente têm nessa luta, o conforto que sentem num espaço próprio dentro de uma sociedade cada vez mais opressora… e contar um pouco sobre cada jogador. São pessoas que, para se assumir, precisaram ter muita coragem. Mostraria também a qualidade técnica, provavelmente deve ter muita gente boa de bola e que, por um motivo ou outro, não chegou a uma categoria de base. Acho que muita gente se interessaria em acompanhar”.

No final, o jogador tomou gosto pela brincadeira, perguntando sobre a competitividade dos torneios LGBT+ e a recepção do BeesCats na Liga Carioca de Futebol 7. Talvez seja hora de o jornalismo esportivo expandir seus horizontes…

Foto: Uniformes (Crédito: Arquivo BeesCats)

Visão do boleiro

Visão do boleiro

Lateral Igor Julião aponta homofobia no futebol como reflexo da mentalidade do meio

 Igor Julião vê preconceito no esporte como consequência da forma de pensar dos envolvidos no ramo / Crédito: Lucas Merçon/FFC

Por Flávio Amaral

Igor Julião não segue muito a regra enquanto jogador de futebol. Amante da leitura, das artes e da História, gostos herdados em parte graças ao pai ex-militar e dotado de consciência crítica e adepto de causas sociais por influência do tio, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), o lateral-direito do Fluminense tocou, durante entrevista ao jornal O Globo, na temática da diversidade sexual no esporte.

A visão trazida pelo jovem atleta, que, aos 24 anos, relata ter se deparado com casos de homossexuais que vivem do futebol – jogadores ou não –, corrobora a percepção de muitos indivíduos LGBT+: o futebol reflete a mentalidade de quem faz parte do meio. Isso vale para torcedores, atletas e demais profissionais que atuam no campo e nos bastidores do esporte mais popular do Brasil.

— (O futebol) É um lugar extremamente hostil para alguém da comunidade (LGBTQ) ou uma mulher trabalharem. E não adianta eu brigar com as pessoas porque essa é a mentalidade do meio. Na posição em que estou hoje não vale a pena comprar uma briga dessas. Falo por conhecer pessoas que são homossexuais e não podem se assumir com medo de perder o emprego e da torcida. Seja jogador ou outras pessoas que trabalham no futebol – relatou Igor ao jornal.

Tentaremos contato com Igor Julião para contar aqui na coluna um pouco mais da visão do jogador sobre a homofobia presente no futebol, trazendo para o debate com o atleta maneiras de se projetar para um futuro não tão distante uma diluição dos preconceitos que marcam – e mancham – o esporte.

 

Musas do esporte LGBT+

Musas do esporte LGBT+

Drags apadrinham times e trazem alegria à luta por inclusão no futebol

Bárvara Pah estrela documentário ‘Soccer Boys’ ao lado do BeesCats / Crédito: Leo Martins/O Globo

Por Flávio Amaral

Time de futebol que se preze precisa de uma musa. Jogadores e torcedores das equipes LGBT+ de futebol sabem de cor o nome daquela que veste o manto, lidera a torcida, é presença marcante e irreverente do lado de fora do gramado e é campeã no quesito close. No esporte inclusivo, quem melhor que uma drag queen para desempenhar esse papel?

“A arte drag é uma das linhas de frente na batalha e representatividade LGBTQI+. Não poderia ser diferente no futebol que é um dos cenários mais machistas e homofóbicos”, afirma Eva d’Genesis, madrinha do Bharbixas. “A drag é o toque de humor e alegria, que representa o espirito do time com leveza”, completa Nicole Verywell, musa do Unicorns (SP).

Cerimonialista da primeira edição da Champions LiGay, em novembro de 2017, no Rio de Janeiro, Bárvara Pah defende as cores do BeesCats (RJ). “Com senso de humor e carisma, a drag reforça o trejeito que alguns acham que seria fraqueza e devolve ao público como força. A imagem da drag gera curiosidade e, num universo como o do futebol, essa figura ganha ainda mais força”, conta a musa, que reforça o papel agregador da personagem diante da competitividade do esporte.

“Nos campeonatos, a irreverência da drag dilui o clima de competição. Gosto de ser agregadora, falo com todos os times, faço festa, fico feliz com os reencontros e em conhecer pessoas novas, gosto de receber os times que participam pela primeira vez. Estamos ali para que os campeonatos não sejam levados tão a sério, o objetivo não é a vitória, mas sim o encontro, o fortalecimento da ideia de que não estamos sozinhos e de que a nossa luta é a mesma”.

Eva d’Genesis capricha no close durante coreografia dos Bharbixas na abertura da LiGay de Porto Alegre / Crédito: Douglas Barcelos

Defendendo a equipe Brasil afora

A cada campeonato disputado fora do estado, lá está a musa do time, viajando com a delegação, entrando em campo na cerimônia de abertura, participando da coreografia na apresentação dos times, gritando do lado de fora do campo em apoio aos atletas, como um torcedor fiel. Afinal, quem diz que elas não jogam junto?

“Viajar com a equipe traz o sentimento de pertencimento. Acompanhá-los nas viagens me faz sentir um integrante do time. Durante os jogos incentivo, grito muito (risos). Nessas experiências nos aproximamos do nosso time e dos outros também, conhecemos pessoas de outros estados que têm as mesmas lutas, fazemos amigos, trocamos experiências, nos fortalecemos como time e como seres humanos”, conta Bárvara.

“Vem a vontade de vencer mais uma vez, de gritar o nome do nosso time e vibrar a cada gol, mas o mais importante é saber que estamos fazendo história, que, através dos campeonatos, vencemos mais uma parcela do preconceito, do machismo, da homofobia”, acrescenta Eva.

A madrinha do BeesCats ressalta também a importância do papel social desempenhado pela equipe. Ela valoriza os amigos que fez no grupo e conta que o sentimento de pertencimento a traz segurança em seu dia a dia.

“Tenho amigos que fiz no time que provavelmente não teria conhecido de outra forma, pois são de outras áreas ou frequentam outros espaços. Essa troca nos enriquece, fortalece. É como uma família. São pessoas com as quais tenho contato frequente, nos encontramos fora dos jogos, apoiamos uns aos outros em momentos difíceis. Me sinto segura e forte com a colmeia dos Beescats”, conta Bárvara.

Nicole Verywell entra em campo com o Unicorns durante a abertura da Taça Hornet / Crédito: Philip Falzer

Memórias dos torneios

Pedimos a cada uma das musas para escolher um momento que, na opinião delas, foi mais marcante durante as participações em torneios acompanhando suas equipes.

Bárvara Pah: A conquista da Copa Sudeste, onde estive em campo com eles fazendo a transmissão dos jogos ao vivo, comentando com quem estava nos assistindo, com jogadores q que não puderam estar presentes. Literalmente estive em campo com eles, inclusive presenciando pela primeira vez um título de campeão do BeesCats. Festejar com eles vendo toda a dedicação de cada um para evoluir em campo não tem preço!

Eva D’Genesis: O dia em que fomos os primeiros campeões da Champions LiGay, mostrando que não é preciso estar dentro de padrões para ser capaz de conquistar algo. Levantarmos a taça sendo os mais afeminados nos fez nos entender que todos nós LGBTQI+ somos capazes de conquistar o que sonhamos e que nada é impossível! Basta acreditar e fazer nossa parte.

Nicole Verywell: Na Champions LiGay de São Paulo, quando o Unicorns entrou em campo na abertura com coreografia da música “This Is Me” e fechou a apresentação com os jogadores vestindo camisas de todas as equipes participantes do torneio. Achei tão bonito, tão natural essa união, esse momento de catarse. Estando com a bandeira e representando a intenção de todos sermos um só time, um só grupo que luta.