Troca-se rivalidade por gestos positivos

Troca-se rivalidade por gestos positivos

Times gays dão exemplo de Fair Play

No último sábado, Flamengo e Vasco fizeram feio no quesito espírito esportivo. Cada equipe terminou o clássico disputado no Maracanã com dois jogadores a menos em campo. Um elemento que contribui para a postura vista nos minutos finais da partida é a rivalidade entre as equipes. Nesse texto vamos falar do ponto de vista da postura dos times em campo, deixando o comportamento das torcidas para outro momento.

Um dos significados do termo “rivalidade” no dicionário Michaelis é “competição entre duas ou mais pessoas, instituições, grupos etc. que pretendem a mesma coisa, que têm o mesmo objetivo”. Para as equipes, esse objetivo é o gol, a vitória, o título, a alegria da torcida, e até o “direito” de zoar o torcedor adversário. Mas até que ponto isso justifica uma postura inadequada em campo?

Com o surgimento de equipes gays de futebol a cada dia por todo o Brasil, esse é um dos debates que a “cultura do futebol inclusivo” traz para o esporte mais popular do país. No momento em que se carrega uma bandeira de diversidade e respeito às diferenças, é um dever refletir sobre até onde a rivalidade contribui para a prática esportiva e a partir de que ponto ela é nociva.

Combatemos possíveis antagonismos com os pilares dessa cultura: paz dentro e fora de campo, fair play, diversão, ética, sociabilidade, confraternização. Aqui na coluna você vai conhecer a cada semana contornos dessa realidade que o futebol gay traz para o esporte no país. Mas já podemos apresentar alguns bons exemplos que ilustram como a rivalidade é encarada nesse movimento.

Crédito: Douglas Barcelos

  • Rio Grande do Sul: Magia e Pampacats são as duas primeiras equipes gays do estado, que sediou a segunda edição da Champions LiGay, principal competição do segmento no país. O Magia organizou o torneio, mas escolheu como local o complexo esportivo onde o Pampacats realiza seus encontros;

Crédito: Arquivo BeesCats

Crédito: Arquivo BeesCats

  • Rio de Janeiro: os dois primeiros times gays do Rio, BeesCats e Alligaytors, foram juntos à Câmara Municipal da cidade receber uma Moção de Louvor e Congratulações por incentivar a diversidade sexual no esporte local. Já o Karyocas, “caçula” no estado, convidou o BeesCats para um amistoso de estreia de seu uniforme;

Crédito: Arquivos Unicorns Brazil

  • São Paulo: A terceira edição da Champions LiGay será realizada em novembro, em São Paulo, e organizada em conjunto por duas equipes paulistas. Unicorns e Futeboys darão as mãos para fazer da competição um sucesso, a exemplo das duas edições anteriores.

Esses exemplos comprovam que a rivalidade pode ser transformada em oportunidade de educar através de práticas e gestos positivos e que, ao invés de provocações e violência, ela pode gerar união de esforços por um bem maior. Para as equipes gays, o propósito envolve inclusão e igualdade de direitos. E os grandes clubes do país? Por que não aproveitam sua visibilidade para valorizar tantas causas nobres?

Rivais no Pará, Paysandu e Remo fazem campanha pela paz nos estádios/Crédito: Thiago Gomes/Agência Pará)

Depois das agressões vistas no “Clássico dos Milhões”, é hora de mudar a visão sobre a rivalidade. Em vez de pensar sobre o que ela pode destruir, vamos pensar o quanto é possível construir a partir dela. O pedido de “paz nos estádios” não pode ser apenas da boca para fora. Precisa ganhar real sentido.

Por Flávio Amaral

Respeito às diferenças dentro e fora das quatro linhas

Respeito às diferenças dentro e fora das quatro linhas

Entra em campo a LiGay Nacional de Futebol

 

Participantes da segunda Champions LiGay festejam fim de semana de respeito, inclusão e superação em Porto Alegre (Foto: Douglas Barcelos)

Atire a primeira pedra o fã de futebol que não espera o dia sagrado da pelada com os amigos, que não sai do trabalho às pressas para chegar a tempo no estádio ou mesmo aquele que não se desliga dos afazeres de casa e vai para o videogame enfrentar aquele amigo freguês no futebol virtual.

A resposta para a pergunta “qual o esporte mais popular no Brasil?” será quase sempre a mesma. Mas, apesar de essa paixão mexer com o coração de milhões de pessoas, nem todos se sentem tão à vontade nas arquibancadas e nos campos por todo o país.

E é exatamente por isso que foi criado esse espaço. Aqui na coluna, você vai acompanhar um movimento que vem tomando conta do Brasil pela formação de equipes de futebol compostas por jogadores assumidamente homossexuais. Essa empreitada carrega nos braços a chamada cultura do futebol inclusivo, que vem sendo implementada desde meados de 2017 pela LiGay Nacional de Futebol (LGNF).

Como assim, LiGay Nacional de Futebol?

A cidade de São Paulo recebeu, em julho de 2017, quatro times formados apenas por jogadores gays. BeesCats (RJ), Futeboys (SP), Unicorns (SP) e Capivara (PR) disputaram, na ocasião, a Taça Hornet da Diversidade. Esse foi o pontapé inicial para a formação de uma liga responsável por elaborar competições entre essas equipes, e que levou ao surgimento de outras tantas por diversos estados. Juntaram-se a eles Magia (RS) e Bharbixas (MG), compondo a cúpula da entidade. Hoje a LGNF já contabiliza mais de 35 equipes gays espalhadas por todo o território nacional.

Além da Taça Hornet, que terá sua segunda edição no dia 1° de junho, novamente na capital paulista, as equipes se encontram na Champions LiGay – isso mesmo, uma brincadeira com a consagrada Liga dos Campeões da Europa –, considerada pelos participantes e pela mídia em geral o “Brasileirão gay”. Aqui na coluna, você vai conferir tudo sobre as competições que agitam o cenário do futebol inclusivo.

Por que “cultura do futebol inclusivo”?

O que tantos atletas e fãs do futebol questionam não é apenas o preconceito que se vê dentro e fora de campo. A violência, a falta de respeito com companheiros, adversários e arbitragem, o excesso de malandragem e tantas outras mazelas que tiram parte do brilho do futebol também são colocados em debate. A proposta da LGNF em suas competições é pautada por fair play, honestidade, leveza, diversão, sociabilidade e confraternização. Tudo isso sem esquecer da competitividade que anima a prática esportiva.

Legenda: Adversários, só em campo: representantes de equipes se unem após competição e celebram sucesso da segunda Champions LiGay (Foto: Douglas Barcelos)

Olhar de dentro do campo

Esse ambiente leve e respeitoso, apesar da disputa em campo, de fato torna o futebol inclusivo diferente. Eu, Flávio Amaral, atacante do BeesCats (RJ), vou contar a cada semana aqui na coluna um pouco do que acontece não apenas nas partidas, mas também nas viagens para competições e nas ações promovidas pelas equipes, além do clima de preparação para torneios e as histórias e desafios de quem torna possível esse movimento de quebra de paradigmas em nossa sociedade.

Allez, BeesCats!

Além da segunda Taça Hornet e da terceira Champions LiGay, a bola também rola em gramados internacionais. O BeesCats será o representante do Brasil nos World Gay Games, espécie de Olimpíadas LGBT+ que têm Paris como cidade-sede. A equipe carioca contará com reforços do atual campeão da LiGay, o Bulls (SP), para tentar voltar da capital francesa com medalha no peito. Também realizado a cada quatro anos, o evento teve sua primeira edição em 1982. Ao todo, 36 modalidades esportivas serão disputadas por 15 mil atletas de 70 países diferentes.

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)

Calendário do segundo semestre

Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP)
Junho a julho/2018 Taça Gaynabara) Rio de Janeiro (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Curitiba (PR)
Agosto/2018 World Gay Games Paris (França)
Setembro/2018 Copa Sudeste Vitória (ES)
Novembro/2018 III Champion LiGay São Paulo (SP)

 Por Flávio Amaral