Bulls conquista título da Taça Hornet

Bulls conquista título da Taça Hornet

Torneio com 15 equipes movimenta SP em feriado com Parada LGBT

Por Flávio Amaral

Foto1 – 06 jun (Legenda: Finalistas da Taça Hornet: o campeão Bulls, de vermelho e preto, o vice BeesCats, de amarelo e preto, e o terceiro colocado Unicorns, de camisas listradas/Crédito: Ricardo Perreira)

No frio domingo do feriado, as ruas de São Paulo ganharam um colorido especial para mais uma Parada do Orgulho LGBT. A festa da inclusão, porém, foi muito além da Avenida Paulista. A segunda edição da Taça Hornet da Diversidade reuniu 15 equipes de diferentes estados e mostrou que o esporte é para todos. O troféu, conquistado em 2017 pelo BeesCats (RJ), ficou nas mãos do Bulls (SP), em um dia em que mais de 200 atletas mostraram que gay também faz bonito com a bola no pé.

O sorteio das chaves, realizado durante a Feira da Diversidade, no Vale do Anhangabaú, deu certeza de emoção já na fase de grupos. Foram colocados frente a frente os cariocas BeesCats e Alligaytors no “grupo da morte”, e também Unicorns e Futeboys, no clássico paulista entre duas das equipes fundadoras da LiGay Nacional de Futebol e que dividem a organização da Champions LiGay de novembro.

Só o líder de cada grupo avançou ao triangular final, que reuniu Bulls (SP), Unicorns (SP) e BeesCats (RJ). Com duas vitórias no triangular, o atual campeão da LiGay faturou também a Taça Hornet, com o time carioca novamente em segundo e o Unicorns em terceiro. E não faltou bola na rede: foram marcados 143 gols em 33 partidas, uma média de mais de 4 gols por jogo.

Foto2 – 06 jun (Legenda: Crescimento a cada torneio: depois de 12 participantes na Champions LiGay, Taça Hornet recebeu 15 equipes/Crédito: Felipe Coelho/Hornet)

Percorrer o Brasil para competir, porém, não é missão fácil para quem levanta a bandeira da representatividade LGBT+. A grande maioria das equipes não possui patrocínio que ajude a arcar com custos de passagens e hospedagem. Por isso, a solução encontrada por muitos jogadores é se hospedar na casa de amigos residentes na cidade, o que não tirou o brilho da experiência de viajar com companheiros de time.

“Nos dividimos entre hostels, AirBnb e casas de amigos, mas isso não impediu de passarmos o fim de semana juntos. Criamos um grupo no Whatsapp só de quem foi a São Paulo e combinamos tudo por lá. Ficamos em bairros vizinhos e alguns no mesmo bairro para facilitar o encontro com os companheiros de time”, conta Josué Machado, zagueiro do Bharbixas que participou das três competições disputadas pela equipe – as anteriores foram as duas Champions LiGay, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.

Além de valorizar o crescimento do torneio, o Gerente de Marketing e Eventos da Hornet, Felipe Coelho, destacou a importância de ter um espaço totalmente voltado para a competição: “Saímos de um primeiro campeonato com quatro equipes para 15 agora, então foi preciso muita sensatez e paciência para ouvir a todos e decidir sem prejudicar ninguém. Alugamos uma arena inteira com três quadras onde as pessoas puderam circular com mais assertividade, fazendo com que o evento fosse um sucesso no quesito interação e comunidade.

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) Bulls (SP) BeesCats (RJ)

Calendário do segundo semestre

Junho a julho/2018 Taça Gaynabara Rio de Janeiro (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Curitiba (PR)
Agosto/2018 World Gay Games Paris (França)
Setembro/2018 Copa Sudeste Vitória (ES)
Novembro/2018 III Champion LiGay São Paulo (SP)

Por Flávio Amaral

Diversidade no campo e na rua

Diversidade no campo e na rua

Taça Hornet e Parada LGBT movimentam São Paulo

Por Flávio Amaral

Festa da diversidade: Parada LGBT promete reunir multidão na Avenida Paulista/Crédito: Reprodução Facebook APOGLBT SP)

Confesso que nunca me senti militante político, na essência da expressão. Não costumo ir às ruas, protestar, defender causas publicamente. Mas admito que a ficha caiu de vez no último dia 17 de maio, em evento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Nesse dia BeesCats e Alligaytors receberam uma Moção de Louvor e Congratulações por incentivar a diversidade sexual no esporte na cidade.

Ao falar, na ocasião, para a comunidade LGBT+ sobre esse movimento nacional de inclusão e respeito às diferenças que as equipes gays de futebol estão trazendo para o país, percebi que sim, estamos fazendo política. Ocupamos hoje um espaço hegemonicamente preconceituoso e tentamos, aos poucos, desconstruir e transformar esse cenário.

Números divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), associação que levanta dados sobre a violência contra indivíduos LGBT+, apontam que, a cada 19 horas, uma pessoa deste público é assassinada ou se suicida em nosso país. E o Brasil é campeão no que jamais deveria: em nossas terras ocorrem 52% dos homicídios contra LGBT no mundo.

Legenda: Primeira Taça Hornet reuniu quatro equipes na capital paulista em julho de 2017/Crédito: Arquivo BeesCats)

No dia 03 de junho, São Paulo será palco de mais uma Parada do Orgulho LGBT. Dois dias antes, 15 equipes de futebol formadas por jogadores homossexuais disputam a segunda edição da Taça Hornet da Diversidade, provando que o esporte deve ser lugar para todos.

Depois do show com a bola nos pés, será a vez de dar aquele close na Avenida Paulista, em um evento com “beijaços”, cartazes, fantasias e adereços que ajudam a expressar de forma criativa e bem-humorada as reivindicações do movimento LGBT. De fato, a festa tem lugar cativo no calendário da capital paulista.

“A Parada é, ao lado do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, realizado em Interlagos,
o maior evento de fluxo turístico da nossa cidade, tem um impacto econômico de grande expressão.
Além da causa, contribui para a economia, gerando renda, empregos e imagem internacional”
(João Dória, prefeito de São Paulo)

Disputa mesmo, só nos campos de jogo, na busca pela taça conquistada pelo BeesCats na primeira edição, em 2017. Tanto no torneio como na Parada, celebração, inclusão, respeito, sociabilidade, confraternização são as palavras de ordem. Dentro e fora das quatro linhas, a garantia é de uma reedição do que já é rotina no futebol inclusivo: sorrisos, abraços, reencontros, união.

Para esses atletas, que dão a cara a tapa e chutam o armário para escanteio num “país do futebol” com estatísticas tão desfavoráveis para quem partilha de sua orientação sexual, calçar a chuteira e entrar em campo são, de fato, atos políticos. Para nós, que não medimos esforços para, além dos uniformes de jogo, vestir a camisa da representatividade dentro e fora de nossa cidade ou estado, cada abraço e cada sorriso em campo são passos importantes na caminhada para tornar o futebol mais humano.

Troca-se rivalidade por gestos positivos

Troca-se rivalidade por gestos positivos

Times gays dão exemplo de Fair Play

No último sábado, Flamengo e Vasco fizeram feio no quesito espírito esportivo. Cada equipe terminou o clássico disputado no Maracanã com dois jogadores a menos em campo. Um elemento que contribui para a postura vista nos minutos finais da partida é a rivalidade entre as equipes. Nesse texto vamos falar do ponto de vista da postura dos times em campo, deixando o comportamento das torcidas para outro momento.

Um dos significados do termo “rivalidade” no dicionário Michaelis é “competição entre duas ou mais pessoas, instituições, grupos etc. que pretendem a mesma coisa, que têm o mesmo objetivo”. Para as equipes, esse objetivo é o gol, a vitória, o título, a alegria da torcida, e até o “direito” de zoar o torcedor adversário. Mas até que ponto isso justifica uma postura inadequada em campo?

Com o surgimento de equipes gays de futebol a cada dia por todo o Brasil, esse é um dos debates que a “cultura do futebol inclusivo” traz para o esporte mais popular do país. No momento em que se carrega uma bandeira de diversidade e respeito às diferenças, é um dever refletir sobre até onde a rivalidade contribui para a prática esportiva e a partir de que ponto ela é nociva.

Combatemos possíveis antagonismos com os pilares dessa cultura: paz dentro e fora de campo, fair play, diversão, ética, sociabilidade, confraternização. Aqui na coluna você vai conhecer a cada semana contornos dessa realidade que o futebol gay traz para o esporte no país. Mas já podemos apresentar alguns bons exemplos que ilustram como a rivalidade é encarada nesse movimento.

Crédito: Douglas Barcelos

  • Rio Grande do Sul: Magia e Pampacats são as duas primeiras equipes gays do estado, que sediou a segunda edição da Champions LiGay, principal competição do segmento no país. O Magia organizou o torneio, mas escolheu como local o complexo esportivo onde o Pampacats realiza seus encontros;

Crédito: Arquivo BeesCats

Crédito: Arquivo BeesCats

  • Rio de Janeiro: os dois primeiros times gays do Rio, BeesCats e Alligaytors, foram juntos à Câmara Municipal da cidade receber uma Moção de Louvor e Congratulações por incentivar a diversidade sexual no esporte local. Já o Karyocas, “caçula” no estado, convidou o BeesCats para um amistoso de estreia de seu uniforme;

Crédito: Arquivos Unicorns Brazil

  • São Paulo: A terceira edição da Champions LiGay será realizada em novembro, em São Paulo, e organizada em conjunto por duas equipes paulistas. Unicorns e Futeboys darão as mãos para fazer da competição um sucesso, a exemplo das duas edições anteriores.

Esses exemplos comprovam que a rivalidade pode ser transformada em oportunidade de educar através de práticas e gestos positivos e que, ao invés de provocações e violência, ela pode gerar união de esforços por um bem maior. Para as equipes gays, o propósito envolve inclusão e igualdade de direitos. E os grandes clubes do país? Por que não aproveitam sua visibilidade para valorizar tantas causas nobres?

Rivais no Pará, Paysandu e Remo fazem campanha pela paz nos estádios/Crédito: Thiago Gomes/Agência Pará)

Depois das agressões vistas no “Clássico dos Milhões”, é hora de mudar a visão sobre a rivalidade. Em vez de pensar sobre o que ela pode destruir, vamos pensar o quanto é possível construir a partir dela. O pedido de “paz nos estádios” não pode ser apenas da boca para fora. Precisa ganhar real sentido.

Por Flávio Amaral