Visão do boleiro

Visão do boleiro

Lateral Igor Julião aponta homofobia no futebol como reflexo da mentalidade do meio

 Igor Julião vê preconceito no esporte como consequência da forma de pensar dos envolvidos no ramo / Crédito: Lucas Merçon/FFC

Por Flávio Amaral

Igor Julião não segue muito a regra enquanto jogador de futebol. Amante da leitura, das artes e da História, gostos herdados em parte graças ao pai ex-militar e dotado de consciência crítica e adepto de causas sociais por influência do tio, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), o lateral-direito do Fluminense tocou, durante entrevista ao jornal O Globo, na temática da diversidade sexual no esporte.

A visão trazida pelo jovem atleta, que, aos 24 anos, relata ter se deparado com casos de homossexuais que vivem do futebol – jogadores ou não –, corrobora a percepção de muitos indivíduos LGBT+: o futebol reflete a mentalidade de quem faz parte do meio. Isso vale para torcedores, atletas e demais profissionais que atuam no campo e nos bastidores do esporte mais popular do Brasil.

— (O futebol) É um lugar extremamente hostil para alguém da comunidade (LGBTQ) ou uma mulher trabalharem. E não adianta eu brigar com as pessoas porque essa é a mentalidade do meio. Na posição em que estou hoje não vale a pena comprar uma briga dessas. Falo por conhecer pessoas que são homossexuais e não podem se assumir com medo de perder o emprego e da torcida. Seja jogador ou outras pessoas que trabalham no futebol – relatou Igor ao jornal.

Tentaremos contato com Igor Julião para contar aqui na coluna um pouco mais da visão do jogador sobre a homofobia presente no futebol, trazendo para o debate com o atleta maneiras de se projetar para um futuro não tão distante uma diluição dos preconceitos que marcam – e mancham – o esporte.

 

Musas do esporte LGBT+

Musas do esporte LGBT+

Drags apadrinham times e trazem alegria à luta por inclusão no futebol

Bárvara Pah estrela documentário ‘Soccer Boys’ ao lado do BeesCats / Crédito: Leo Martins/O Globo

Por Flávio Amaral

Time de futebol que se preze precisa de uma musa. Jogadores e torcedores das equipes LGBT+ de futebol sabem de cor o nome daquela que veste o manto, lidera a torcida, é presença marcante e irreverente do lado de fora do gramado e é campeã no quesito close. No esporte inclusivo, quem melhor que uma drag queen para desempenhar esse papel?

“A arte drag é uma das linhas de frente na batalha e representatividade LGBTQI+. Não poderia ser diferente no futebol que é um dos cenários mais machistas e homofóbicos”, afirma Eva d’Genesis, madrinha do Bharbixas. “A drag é o toque de humor e alegria, que representa o espirito do time com leveza”, completa Nicole Verywell, musa do Unicorns (SP).

Cerimonialista da primeira edição da Champions LiGay, em novembro de 2017, no Rio de Janeiro, Bárvara Pah defende as cores do BeesCats (RJ). “Com senso de humor e carisma, a drag reforça o trejeito que alguns acham que seria fraqueza e devolve ao público como força. A imagem da drag gera curiosidade e, num universo como o do futebol, essa figura ganha ainda mais força”, conta a musa, que reforça o papel agregador da personagem diante da competitividade do esporte.

“Nos campeonatos, a irreverência da drag dilui o clima de competição. Gosto de ser agregadora, falo com todos os times, faço festa, fico feliz com os reencontros e em conhecer pessoas novas, gosto de receber os times que participam pela primeira vez. Estamos ali para que os campeonatos não sejam levados tão a sério, o objetivo não é a vitória, mas sim o encontro, o fortalecimento da ideia de que não estamos sozinhos e de que a nossa luta é a mesma”.

Eva d’Genesis capricha no close durante coreografia dos Bharbixas na abertura da LiGay de Porto Alegre / Crédito: Douglas Barcelos

Defendendo a equipe Brasil afora

A cada campeonato disputado fora do estado, lá está a musa do time, viajando com a delegação, entrando em campo na cerimônia de abertura, participando da coreografia na apresentação dos times, gritando do lado de fora do campo em apoio aos atletas, como um torcedor fiel. Afinal, quem diz que elas não jogam junto?

“Viajar com a equipe traz o sentimento de pertencimento. Acompanhá-los nas viagens me faz sentir um integrante do time. Durante os jogos incentivo, grito muito (risos). Nessas experiências nos aproximamos do nosso time e dos outros também, conhecemos pessoas de outros estados que têm as mesmas lutas, fazemos amigos, trocamos experiências, nos fortalecemos como time e como seres humanos”, conta Bárvara.

“Vem a vontade de vencer mais uma vez, de gritar o nome do nosso time e vibrar a cada gol, mas o mais importante é saber que estamos fazendo história, que, através dos campeonatos, vencemos mais uma parcela do preconceito, do machismo, da homofobia”, acrescenta Eva.

A madrinha do BeesCats ressalta também a importância do papel social desempenhado pela equipe. Ela valoriza os amigos que fez no grupo e conta que o sentimento de pertencimento a traz segurança em seu dia a dia.

“Tenho amigos que fiz no time que provavelmente não teria conhecido de outra forma, pois são de outras áreas ou frequentam outros espaços. Essa troca nos enriquece, fortalece. É como uma família. São pessoas com as quais tenho contato frequente, nos encontramos fora dos jogos, apoiamos uns aos outros em momentos difíceis. Me sinto segura e forte com a colmeia dos Beescats”, conta Bárvara.

Nicole Verywell entra em campo com o Unicorns durante a abertura da Taça Hornet / Crédito: Philip Falzer

Memórias dos torneios

Pedimos a cada uma das musas para escolher um momento que, na opinião delas, foi mais marcante durante as participações em torneios acompanhando suas equipes.

Bárvara Pah: A conquista da Copa Sudeste, onde estive em campo com eles fazendo a transmissão dos jogos ao vivo, comentando com quem estava nos assistindo, com jogadores q que não puderam estar presentes. Literalmente estive em campo com eles, inclusive presenciando pela primeira vez um título de campeão do BeesCats. Festejar com eles vendo toda a dedicação de cada um para evoluir em campo não tem preço!

Eva D’Genesis: O dia em que fomos os primeiros campeões da Champions LiGay, mostrando que não é preciso estar dentro de padrões para ser capaz de conquistar algo. Levantarmos a taça sendo os mais afeminados nos fez nos entender que todos nós LGBTQI+ somos capazes de conquistar o que sonhamos e que nada é impossível! Basta acreditar e fazer nossa parte.

Nicole Verywell: Na Champions LiGay de São Paulo, quando o Unicorns entrou em campo na abertura com coreografia da música “This Is Me” e fechou a apresentação com os jogadores vestindo camisas de todas as equipes participantes do torneio. Achei tão bonito, tão natural essa união, esse momento de catarse. Estando com a bandeira e representando a intenção de todos sermos um só time, um só grupo que luta.

Vale (GO) vence Queer Cup de handebol

Vale (GO) vence Queer Cup de handebol

Episódio de homofobia marca evento e reforça papel da militância

QueerCup apresenta handebol inclusivo às quadras brasileiras / Crédito: Guilherme Becker

Por Flávio Amaral

O ano parecia ser do futebol inclusivo até a realização da Copa Angels e da primeira edição do Gay Prix de vôlei. A dobradinha dos esportes coletivos mais populares no Brasil parecia dar o tom de 2018, mas uma terceira modalidade entrou para o time da representatividade no apagar das luzes da temporada.

A Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) de Curitiba recebeu no dia 24 de novembro a Queer Cup, o primeiro campeonato brasileiro inclusivo de handebol, durante o fim de semana de comemorações do aniversário de dois anos do Capivara Esporte Clube, primeira equipe LGBT+ da capital paranaense.

Quatro equipes participaram dessa primeira edição: além dos anfitriões do Capivara, marcaram presença Pampacats (RS), Bharbixas (MG) e Vale (GO). Os goianos, por sinal, chegaram embalados pela conquista da Copa Anápolis, torneio que reuniu equipes do Centro-Oeste brasileiro no qual era o único time formado por atletas gays.

As apresentações na cerimônia de abertura, a música, a dança, o show de drags e a integração e alegria que já são marcas dos torneios inclusivos em diferentes modalidades se mostraram presentes mais uma vez.

Dentro de quadra, todas as equipes se enfrentaram entre si em fase única. Com dez anos de participação em competições de handebol com equipes tradicionais, o Vale (GO) fez valer o favoritismo e levantou o troféu com aproveitamento de 100% conquistado em três vitórias. Os mineiros do Bharbixas ficaram com o vice-campeonato, com os gaúchos do Pampacats em terceiro lugar e os paranaenses do Capivara na quarta posição.

Goianos do Vale levantam troféu do torneio / Crédito: Guilherme Becker

Homofobia

Mas nem tudo foi festa. Um episódio de homofobia envolvendo sócios da AABB, pessoas que trabalhavam nos bares do clube e participantes do evento marcou o fim de semana. Demonstrações de afeto entre membros das equipes e torcedores foram alvo de comentários e atitudes preconceituosas por parte de frequentadores presentes na AABB para outros propósitos diferentes da Queer Cup.

O capixaba Guilherme Loriato, que dirige a equipe inclusiva de vôlei Lendários, do Rio de Janeiro, foi alvo sobretudo de críticas e agressões verbais. Ele relata que responsáveis por bares do clube se recusaram a vender para o público do evento a partir de certo momento. “Foi um episódio muito triste, que, para mim, acabou com a alegria do campeonato, que estava muito lindo”, lamenta Guilherme.

Gustavo Mendes, do Bharbixas (MG), também foi vítima de insultos por parte de frequentadores do clube. “Palavras foram proferidas com o intuito de machucar e nos recriminar, mas não esperavam que revidássemos. Não na mesma moeda, com ódio, discriminação e violência (houve empurrões), mas com resistência! Nos portamos como quem exige respeito e mostramos que somos pessoas como quaisquer outras ao buscar a igualdade.”

Ele conta que foi feito um boletim de ocorrência junto à polícia e os autores das agressões tiveram de se justificar. “Vi naquele dia como o que estamos fazendo é importante na busca pela paz entre as diferenças. Sabemos que não será fácil e nossa mensagem foi deixada com todas as letras para eles: se a nossa alegria incomoda, seremos cada vez mais alegres!”

Em seu perfil no Facebook, a AABB de Curitiba postou uma nota dirigida aos associados e assinada pelo presidente André Castelo Branco Machado e pelo vice-presidente administrativo João Augusto Antero, na qual consta:

“O respeito às diferenças é algo primordial para a construção de uma sociabilidade saudável. Na AABB Curitiba, todos os associados, funcionários, fornecedores e usuários do clube e suas famílias devem ser igualmente respeitados. Para que isso ocorra, todos nós devemos nos pautar pelos princípios instituídos em nosso estatuto social, repelindo ‘preconceitos e discriminações de gênero, orientação sexual, etnia, raça, credo ou qualquer espécie’ (Art 43º). Com diálogo, tolerância e bom senso garantiremos um ambiente de respeito e acolhedor para todos.”

A diretoria do Capivara Esporte Clube também se posicionou, através do presidente Juliano Cerci. Confira a nota:

“Os episódios de homofobia ocorridos durante a Queer Cup de Handebol no último fim de semana nos fazem lembrar o quanto nossa luta é relevante. Eles demonstram a importância da união entre nós e do diálogo aberto com a sociedade.

O posicionamento da diretoria da AABB repelindo os preconceitos e a discriminação de gênero, de orientação sexual ou de qualquer outra espécie vem ao encontro da nossa ânsia por uma mudança social tão necessária.

Desejamos ocupar os espaços comuns a todos os cidadãos, inclusive expressando o nosso amor seja por meio de um beijo ou por simplesmente andarmos de mãos dadas.”

Respeitar os diferentes não significa querer vê-los expurgados das áreas a que você frequenta. Significa conviver com eles de maneira pacífica, respeitando o direito à dignidade também conferido a você.”