Inclusão de Sul a Nordeste

Inclusão de Sul a Nordeste

Terceira Copa Sul e primeira Copa do Nordeste têm estreantes em pódios

Por Flávio Amaral

A coluna Orgulho em Campo estreia hoje um novo formato de curtinhas, trazendo informações de diferentes eventos que movimentam o esporte inclusivo. Nesse primeiro combinado de novidades, duas equipes conquistam seu primeiro título nos gramados em torneios regionais, contemplando duas regiões do país com taças no futebol 7 LGBT+ dando o tom de novos times pintando como potências nacionais nesse início de ano. Destaque também para a primeira exibição aberta no Rio de Janeiro do documentário Soccer Boys, sobre a história do BeesCats.

Maragatos levanta primeira taça do Rio Grande do Sul no futebol inclusivo / Crédito: Reprodução/Instagram Maragatos

Título gaúcho em Floripa

Depois de um título para Curitiba (Taboa) e um para Florianópolis (Sereyos), faltava o primeiro caneco do futebol LGBT+ para o Rio Grande do Sul. A Copa Sul Gay chegou à sua terceira edição no último dia 09 com o Maragatos, estreante em competições inclusivas de futebol 7, levantando a taça. A vitória sobre o Taboa – com quem eles haviam empatado na primeira fase – na competição organizada pelo Sereyos mostra que o futebol inclusivo pode conhecer mais uma potência na região Sul em 2019.

Com o Bravus, a capital federal também recebe seu primeiro troféu no futebol LGBT+ / Crédito: Reprodução/Instagram Bravus

Festa de Brasília no Nordeste

A Copa que tinha sua primeira edição realizada era do Nordeste, com o Dendê (BA) como anfitriões, mas os convidados não quiseram saber. O Bravus, que receberá a próxima Champions LiGay, em abril, quis chegar em abril com o status de campeão como credencial. Em Lauro de Freitas, município da região metropolitana de Salvador (BA), a equipe do planalto central venceu a Copa Gay do Nordeste, disputada nos últimos dias 09 e 10, após derrotar o também convidado Bárbaros (SP) na decisão e faturou seu primeiro título em torneios LGBT+.

Do lado de fora, os atletas contavam com fiéis torcedoras, mulheres do Mães do Arco-Íris, coletivo de abrangência nacional e com representação na Bahia formado por mães de LGBT+ que busca dar visibilidade à importância do apoio incondicional e do amor a seus filhos e organiza diversas ações de combate à LGBTfobia.

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Gay Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Gay Curitiba (PR) Sereyos (SC) Taboa (PR)
Agosto/2018 X Gay Games Paris (França) Sud-Au-Cul (FRA) BeesCats (RJ)
Setembro/2018 Copa Sudeste LGBTQ Vitória (ES) BeesCats (RJ) Bharbixas (MG)
Novembro/2018 III Champions LiGay São Paulo (SP) Bulls (SP) Bharbixas (MG)
Fevereiro/2018 III Copa Sul Gay Florianópolis (SC) Maragatos (RS) Taboa (PR)
Fevereiro/2018 Copa do Nordeste Aracaju (SE) Bravus (DF) Bárbaros (SP)

Dos gramados para as telas

Na mesma semana dos torneios, a história do BeesCats (RJ) ganhava a tela da cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro em uma noite que uniu cinema e futebol. A exibição aberta com a comédia Pobre Yurinho, de direção de João Ademir, recepcionou o público com leveza da ludicidade da “brincadeira de bola”.

A sequência com “Marielle e Mônica”, de direção de Fabio Erdos, trouxe carga política à noite, com as memórias de Mônica Benício, que tinha em Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018, a mulher de sua vida.

Encerrou a exibição “Soccer Boys”, do diretor Carlos Guilherme Vogel e produzido em parceria com o Canal Futura, mostrando a caminhada do BeesCats, primeiro time de futebol LGBT+ do Rio de Janeiro, tendo como pano de fundo a participação da equipe na segunda edição da Taça Hornet da Diversidade, vencida pelos cariocas no ano anterior. O documentário será exibido pelo canal Futura ainda no primeiro semestre de 2019.

Documentário “Soccer Boys” leva BeesCats para as telas / Crédito: Reprodução/Instagram Bravus

Copa Sul Gay abre 2019 do esporte LGBT+

Copa Sul Gay abre 2019 do esporte LGBT+

Terceira edição do evento promove também futebol feminino e vôlei

Assim como na primeira edição, Sereyos será novamente o anfitrião da Copa Sul Gay / Crédito: Arquivo Sereyos

Por Flávio Amaral

Assim como foi em 2018, mais um ano se inicia para o esporte LGBT+ com Florianópolis abrindo os trabalhos. A Copa Sul Gay, que chega à sua terceira edição novamente sob organização do Sereyos (SC), será o primeiro torneio inclusivo de 2019 e promete agitar a cidade insular.

Mas a principal diferença da vez é a dimensão do evento. Afinal, quem disse que os campos são só deles? No dia 09 de fevereiro, enquanto os meninos disputam a terceira edição da Copa Sul Gay, as meninas participam da primeira Copa Sul Feminina de futebol. Serão 10 times em cada competição, tudo isso na Arena São José, a partir das 11h30.

Alguém disse que é só futebol? Nos dias 23 e 24 do mesmo mês será a vez de a bola subir para a Copa Sul Gay de Voleibol, no SESC Prainha, das 08h às 22h. Dezesseis equipes estarão na disputa que promete trazer uma dose extra de representatividade para o esporte da capital catarinense. E bota extra nisso: são mais de 600 atletas envolvidos.

A programação conta com shows, DJs, futebol drag show, futebol de bolha, gaymada (a já tradicional queimada), gaymada com balões d’água, apresentações de drag queens e de escola de samba, praça de foodtrucks, lounge, festas noturnas em parceria com casas da cidade e uma day party a beira-mar para o encerramento.

A organização ressalta o lado social do evento, que marca um novo momento na resistência e na luta contra o preconceito através do esporte. Tanto para o futebol como para o vôlei, é pedida a contribuição de um quilo de alimento não perecível ou um brinquedo como entrada.

“Estamos muito felizes com a proporção que a Terceira Copa Sul Gay tomou, desta vez trazendo a luta das mulheres dentro do futebol com a Primeira Copa Sul de Futebol Feminino e também com a Primeira Copa Sul Gay de vôlei. A expectativa está a mil! Mais do que nunca, estamos conseguindo fazer deste campeonato um ato de inclusão, política, liberdade, igualdade, consolidando cada vez mais esse movimento maravilhoso com tanta gente incrível trabalhando junto para dar certo!”, comemora o presidente do Sereyos, Eddie Prim.

Pontes construídas pela inclusão

Pontes construídas pela inclusão

Laços entre os participantes dos Gay Games de Paris são mantidos cinco meses após

Árbitra Kimberly Hadley foi uma das maiores entusiastas de nossa equipe durante os Gay Games de Paris / Crédito: Arquivo pessoal

Por Flávio Amaral

Cinco meses após o fim da décima edição dos Gay Games, conferindo minhas redes sociais, me deparei com uma notificação que me levou de volta no tempo. Para minha surpresa, Kimberly Hadley, árbitra da final do futebol 7 masculino, tinha marcado a mim e a outros dois companheiros de BeesCats em uma postagem na qual parabenizava nosso time.

“Eu tenho tanto orgulho de vocês Douglas Braga de Oliveira, Andre Machado, Flávio Amaral e os outros BeesCats por continuarem a proporcionar a oportunidade de criar sonhos para outros gays que querem jogar futebol em um espaço seguro.

Conheci vocês todos nos Gay Games em Paris (LGLFA World Championship XXIII) e tenho orgulho de lhes chamar de meus amigos e familiares. Que grupo maravilhoso de homens que, por acaso, são tão bons jogadores de futebol!

Gostei de lhes conhecer e de arbitrar algumas das partidas de vocês! Agora o desafio para vocês é desenvolver uma equipe de mulheres para se tornar parte do seu clube e para eventualmente formar uma LiGay feminina. Espero vê-los em Las Vegas janeiro de 2020! Muito ❤! Mamãe”

Mensagens carinhosas como essa nos levam a pensar sobre o valor dos laços que estabelecemos em nosso convívio, sobretudo em meio à luta que travamos a cada treino, a cada jogo, a cada torneio. Companheiros de time, jogadores de outras equipes, árbitros, treinadores, drags madrinhas, torcedores… são centenas de laços que forjamos a cada experiência no futebol inclusivo.

O texto de Kimberly foi traduzido para ser publicado nesta coluna, mas o original foi escrito em inglês, mesmo idioma através do qual o filósofo Teilhard de Chardin criou a célebre frase “no men is an island” (“nenhum homem é uma ilha”), reforçando a necessidade de contarmos uns com os outros para sobrevivermos.

A sobrevivência nesse caso pode se referir desde à vida em sociedade, num sentido geral, até aos desafios e lutas nos quais nos engajamos, de um ponto de vista mais específico.  O movimento do esporte inclusivo é um trabalho feito a muitas mãos – e pés – em todo o mundo.

Esse mundo da bola um pouco mais colorido do que o que estamos acostumados a ver na mídia se encontrou em Paris para aproximadamente 10 dias de confraternização. No Brasil e pelo resto do mundo, cada vez mais equipes seguem nessa jornada. A temporada 2018 está apenas começando.