Por qual Brasil estamos lutando?

Por qual Brasil estamos lutando?

Clima político estimula intolerância e extremismo nas relações sociais

O ideal para esta coluna seria falar sobre esporte, mas a política tem sido protagonista não só do noticiário brasileiro, mas também das relações sociais. Isso porque o resultado do primeiro turno das eleições, com a liderança de Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência da república, exaltou os ânimos de seus eleitores. Discursos cada vez mais agressivos e, ainda pior: ações que caminham na mesma direção, inflamadas pelo preconceito e pelo ódio, sobretudo contra os LGBT+, são cada dia mais frequentes.

O poder da política de mobilizar massas tem grande potencial de despertar a consciência a respeito da coletividade. Permite que nos coloquemos no lugar do outro – a empatia que anda tão em falta – para lutar por direitos de toda a sociedade – o que, muitas vezes, é usado como pretexto para ações impulsivas. Ao mesmo tempo, porém, esse poder de mobilização possui caráter altamente destrutivo a partir do momento em que candidatos despertam na população sentimentos de intolerância e desrespeito. Na raiz disso e muitas vezes como justificativa para tal está a insatisfação com os rumos do país. Mas e os rumos que cada um dá à própria vida – e a interferência no caminho alheio – com essas atitudes, como ficam? Será que nos fazemos esse questionamento?

Devemos lembrar que não somos apenas influenciados por essa tensão social. Somos partícipes dela e interferimos negativamente e de forma mais séria à medida que somos coniventes com – ou tomamos nós mesmos – atitudes extremistas. Afinal, independentemente do lado de que estamos nesse maniqueísmo tão batido – “esquerda” x “direita”, “liberal” x “conservador” ou dê-se a ele a denominação que se deseja -, o extremismo é fatal (e esse termo pode ser compreendido literalmente, no momento em que LGBT+ têm sua vida ameaçada sob a bandeira de um candidato e sua ideologia.

Que possamos neste segundo turno repensar o futuro que queremos não só para nosso país, mas para as nossas relações com o próximo, com a sociedade. Afinal, relações muitas vezes duradouras e saudáveis são rompidas dia após dia em nome de preferências políticas. É hora da maturidade e do discernimento falarem mais alto.

Por Flávio Amaral

BeesCats vence a Copa Sudeste LGBTQ

BeesCats vence a Copa Sudeste LGBTQ

Cariocas conquistam segundo título na estreia do regional

Por Flávio Amaral

Beescats levam segundo troféu ao Rio de Janeiro/Crédito: Reprodução/Instagram BeesCats

Debaixo de um calor disfarçado pelo tempo encoberto que colocou à prova a resistência de mais de 120 atletas, Vitória (ES) recebeu no último sábado (29) a primeira edição da Copa Sudeste LGBTQ de futebol. Na entrega do troféu, uma cena que repetiu julho de 2017: o BeesCats, campeão do primeiro torneio interestadual realizado pouco mais de um ano antes, levantou novamente o caneco, confirmando seu segundo título em seis finais de torneios inclusivos de futebol 7 disputadas.

A festa começou na noite anterior, quando o Capixabas (ES), anfitrião da vez, promoveu um “esquenta” em um gastrobar na conhecida Rua da Lama, reduto boêmio que vira point nas noites do fim de semana na região de Vila Velha (ES). Entre sorrisos e abraços, foi a hora de cada atleta reencontrar amigos que fez nos campeonatos anteriores e matar a saudade, além de conhecer os times estreantes – o próprio Capixabas e Alcateia (MG).

“Acredito que (o encontro na noite anterior à competição) seja um dos momentos mais esperados pelos jogadores. É importante para os que já se conhecem fortalecerem elos de amizade e matarem a saudade, e mais importante ainda para as equipes novas, como Capixabas e Alcateia nessa Copa Sudeste. É o cartão de visitas, momento em que eles serão acolhidos por todos. Totalmente diferente de campeonatos que não sejam LGBTQI+, em que equipes e atletas se veem como adversários, nos vemos como amigos”, conta Josué Machado, do Bharbixas (MG).

O sábado amanheceu com cada equipe escolhendo um cantinho no complexo Greenball para montar seu “quartel-general” e finalizando os preparativos até ouvir o chamado de Angela Jackson, drag queen que apresentou o evento, para comparecer ao centro do campo diante de torcedores e demais atletas.

Close certo” dentro e fora de campo

Desfile bandeiras (Crédito: Time Capixabas)

A cerimônia de abertura contou com um desfile de delegações recheado de coreografias muito bem ensaiadas – como do Alcateia, que abriu o desfile com “A” de “arraso” – e posicionamento político, como da única equipe carioca participante, que exibiu sob seu uniforme camisas com a frase “ele não”, conscientizando, a uma semana das eleições, sobre os riscos à comunidade LGBT+ da possível eleição de Jair Bolsonaro como Presidente da República. Em seguida, representantes das delegações posicionaram as bandeiras dos quatro estados da região e também a do Brasil para execução do Hino Nacional Brasileiro, fechando a cerimônia.

Dentro das quatro linhas, os times provaram novamente sua evolução física, técnica e tática. A presença de reforços, um repertório variado de jogadas e partidas muito disputadas – algumas delas repletas de gols, apesar da curta duração – deram o tom da disputa. Fora de campo, a presença de mulheres no comando técnico reforçou a inclusão tão pregada pelo movimento nacional em que se constituiu o futebol LGBT+.

Depois de uma primeira fase movimentada, as semifinais contaram com os mineiros Bharbixas e Manotauros, os paulistas do Bulls e os cariocas do BeesCats disputando duas vagas na decisão, que acabou reeditando a final da primeira Champions LiGay. Foi a segunda vez que as equipes se encontraram nessa Copa Sudeste – BeesCats e Bharbixas caíram no mesmo grupo, com vitória mineira na primeira fase, por 3 a 1. Na disputa pelo título, o Rio de Janeiro levou a melhor: 2 a 0, mesmo placar das quatro vitórias anteriores no torneio, diante de Futeboys (SP), Alcateia (MG) e Bulls (SP).

Com a conquista, o time amarelo e preto coloca ponto final na série de medalhas de prata (I e II Champions LiGay, II Taça Hornet e Gay Games 2018). O vice-campeão Bharbixas e o terceiro colocado Bulls seguem também colecionando resultados expressivos nos torneios LGBT+ de futebol. Quis o destino que uma equipe carioca levantasse a taça em uma tarde que terminaria em samba. Uma apresentação de uma escola de samba de Vitória fechou o evento, fazendo com que atletas mostrassem novamente talento com os pés.

Visão do título

“O BeesCats é o time das finais. Na nossa curta história, disputamos seis torneios LGBT+ e chegamos nas seis finais, mas, nas últimas quatro competições, a conquista do ouro estava batendo na trave. Uma foi em decisão por shoot-out, outra nos pênaltis… a última, ainda mais traumática: nos Gay Games, em Paris, levamos o gol no último minuto de jogo. Vencer a Copa Sudeste coroou o nosso pacto, que era quebrar essa sequência de “não-vitórias” nas finais, e foi uma competição duríssima com times muito bem preparados. Passamos pelos quase invencíveis Bulls nas semifinais e conquistamos o título contra os lacradores Bharbixas, que já tinham um ótimo time e vieram ainda mais fortes, tanto que nos venceram na primeira fase. Mas clássico é clássico. E felizmente desta vez conseguimos, com o perdão do trocadilho, a vitória em Vitória” (André Machado, presidente do BeesCats).

Medalhas para todos: seja qual for o resultado em campo, levar o futebol inclusivo adiante é motivo de orgulho/Crédito: Reprodução/Instagram Capixabas

Visão do atleta

Apesar de não ser muito supersticioso, já na ida para Vitória minha mente me trazia flashes da última viagem de ônibus para um torneio inclusivo. Em julho do ano passado, eu voltava de São Paulo campeão e artilheiro da primeira edição da Taça Hornet. Depois de bater na trave em quatro finais seguidas, quem sabe o BeesCats não voltaria ao topo do pódio?

A sexta-feira marcou o reencontro com amigos queridos que fiz em terras paulistas, em BH, em Porto Alegre, em Curitiba… afinal, nossas equipes estão sempre juntas, e fica sempre aquela expectativa de rever todos. Cada torneio é certeza de fazer novos amigos e fortalecer os laços com os antigos.

Com a bola rolando, colhemos os frutos de uma preparação árdua, que passou por cada torneio anterior, além de treinos semanais que fazem alguns de nossos jogadores cruzarem a cidade para comparecer, chegando em casa já de madrugada. Muitos nos perguntam se “ganhamos dinheiro” com isso tudo. O “não” que respondemos, em nossa mente, significa, na verdade, “fazemos porque amamos, e abrimos mão de muita coisa para isso”. Tenho certeza que, neste ponto, falo por todos os jogadores de todos os times.

O título coroa um trabalho para o qual nos dedicamos e que vem sendo construído a muitas mãos desde maio de 2017, mas, nos gramados da inclusão e da representatividade, todos somos campeões. Em nossas cidades, em nossos estados, levantamos uma bandeira que não é nada leve, mas que nos dá orgulho de sobra. É ela que nos faz cruzar o Brasil fazendo o que mais amamos, e que, como qualquer outra pessoa, sabemos e podemos fazer: jogar futebol.

Troféu e medalha de ouro na Copa Sudeste entram para galeria pessoal de conquistas pelo BeesCats /Crédito: Ricardo Perreira

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Gay Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Gay Curitiba (PR) Sereyos (SC) Taboa (PR)
Agosto/2018 X Gay Games Paris (França) Sud-Au-Cul (FRA) BeesCats (RJ)
Setembro/2018 Copa Sudeste LGBT Vitória (ES) BeesCats (RJ) Bharbixas (MG)

Calendário do segundo semestre

Novembro/2018 III Champions LiGay São Paulo (SP)

Solidariedade na Copa Sudeste LGBTQ

Solidariedade na Copa Sudeste LGBTQ

Equipes planejam ação social conjunta para torneio regional

Por Flávio Amaral

Copa Sudeste LGBT reúne equipes dos quatro estados da região/Crédito: Reprodução/Instagram Capixabas

A Copa Sul Gay iniciou em janeiro deste ano uma nova tradição em um movimento de futebol inclusivo já em franco crescimento. Realizada em Florianópolis, a primeira competição que reuniu equipes LGBT+ de uma mesma região abriu o caminho para outra iniciativa regional, a Copa Sudeste, cuja iniciativa de sediar partiu do então recém-criado Capixabas (ES).

Enquanto os times finalizam seus preparativos para a disputa, que acontece no dia 29 de setembro, em Vitória, a coluna dessa semana se debruça sobre a ação social, tema que vem ganhando espaço entre líderes das equipes, que percebem a necessidade de expandir o raio de atuação – e dos benefícios – dos projetos desenvolvidos para outras pessoas, sobretudo os mais necessitados.

Ação comum semanas antes de torneios, sorteio dos grupos foi transmitido ao vivo no Instagram do Capixabas/Instagram Capixabas

“Com um mês de fundação, montamos a comissão social que chamamos ‘Capixabas de coração’. Em nosso primeiro amistoso, arrecadamos alimentos e itens de higiene pessoal e doamos ao asilo de Vitória. É importante atrelarmos nossos eventos a causas sociais, não para gerar visibilidade, mas para ter aquela satisfação pessoal que vai além do esporte. Queremos não apenas nos divertir praticando o esporte que amamos, mas também ajudar outras pessoas”, conta Jeff Tavares, membro da Comissão Social do Capixabas (ES).

Consciente da importância de unir os participantes da competição pela solidariedade e ajuda ao próximo, o goleiro do BeesCats (RJ) Victor Dubugras entrou em contato com diretores das outras sete equipes participantes da Copa Sudeste para organizar uma ação conjunta de arrecadação de alimentos não-perecíveis para o torneio. Segundo ele, diversas equipes também já planejam arrecadar brinquedos para crianças carentes, pensando no Dia das Crianças.

“É extremamente importante que cada evento esportivo LGBT+ tenha uma ação social e que cada equipe se empenhe em devolver à sociedade todo o apoio que estamos tendo ao levantar as bandeiras do respeito e da igualdade. Devemos também levantar a bandeira da solidariedade”, afirma o goleiro, responsável pela área social da equipe, que conta ainda a intenção de se criar ações de desenvolvimento humano, como apoio psicológico ao público.

Ação social une times em prol da solidariedade/Crédito: Reprodução/Instagram Capixabas

“Queremos ter uma equipe multidisciplinar que possa fazer ações que gerem benefício para a sociedade. Nossa ideia é algo ainda embrionário, mas contamos com muita motivação e pessoas já dispostas a ajudar. Queremos devolver um pouco do apoio que viemos recebendo com o time. Levar amor, carinho, atenção, solidariedade e esperança de um futuro melhor”, complementa Victor.

Um pouco do que já foi feito

A atenção e o compromisso para com o social não são uma novidade no universo das equipes LGBT+. O Bharbixas (MG), por exemplo, tem amistosos beneficentes com arrecadação de agasalhos para a comunidade da escola municipal em que joga aos domingos, participou de palestra na faculdade UNI-BH com o tema “LGBTfobia no esporte”, promoveu uma roda de discussão sobre ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), campanha de saúde mental, arrecadação e distribuição de alimentos.

Bharbixas arrecada agasalhos em ação social/Crédito: Arquivo da equipe

Em junho de 2017, o BeesCats (RJ) viajou pela primeira vez para uma competição, em São Paulo, e aproveitou para promover uma campanha do agasalho, ajudando moradores de rua a enfrentar o inverno rigoroso da capital paulista. A equipe organizou também um evento para adoção de cães e gatos, que deu um novo lar a muitos pets até então cuidados pela SUIPA, e já planeja arrecadação de brinquedos para alegrar o Dia das Crianças de muitos jovens carentes.

O Unicorns (SP) comemorou o Dia Internacional da Mulher com um “aulão” funcional gratuito, convidando os alunos a levar mães, avós, tias e amigas para do treino. A iniciativa foi muito além da integração, arrecadando alimentos não-perecíveis para doar à Casa Florescer, que desde 2016 auxilia mulheres transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade.

Treinos funcionais promovidos pelo Unicorns ajudam a manter a saúde dos paulistas/Crédito: Arquivo da equipe

Também em março, a equipe se mobilizou para alegrar a Páscoa de crianças carentes, doando bombons e chocolates arrecadados a instituições que cuidam de crianças e adolescentes à espera de adoção. Teve “aulão” gratuito também na Semana do Orgulho LGBT+, no Parque do Ibirapuera.

No fim de maio, o time promoveu a primeira edição do Unicorns Talks, ação para discutir a prevenção e combate ao HIV com inscrição mediante doação de agasalhos e cobertores que foram entregues à Casa1, projeto que desde 2016 acolhe pessoas LGBT+ em situação de risco em São Paulo. Os dois treinos semanais – nas noites de terça e quinta-feira – gratuitos voltados ao público em geral complementam as práticas voltadas ao social.

Diversão dentro e fora de campo

No dia do torneio, o espaço localizado em Vila Velha não contará apenas com show das equipes. A exemplo de campeonatos anteriores, música durante todo o dia de jogos segue como receita perfeita para uma ambiência leve e descontraída. Fora das quatro linhas, a DJ Ale comanda a pista, animando torcedores e também jogadores, que podem curtir o som entre uma partida e outra. O bar do espaço garante matar a fome de atletas e torcedores durante o evento.

Legenda: Ação social une times em prol da solidariedade/Crédito: Reprodução/Instagram Capixabas

Confira os torneios interestaduais de futebol 7 já realizados e as competições que encerram a já vitoriosa temporada de 2018 para o esporte inclusivo.

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Gay Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Gay Curitiba (PR) Sereyos (SC) Taboa (PR)
Agosto/2018 X Gay Games Paris (França) Sud-Au-Cul (FRA) BeesCats (RJ)

Calendário do segundo semestre

Setembro/2018 Copa Sudeste Vitória (ES)
Novembro/2018 III Champion LiGay São Paulo (SP)