Futebol inclusivo ocupa o Mineirão

Futebol inclusivo ocupa o Mineirão

Bharbixas (MG) comemora 1 ano em jogo contra seleção da LiGay

Por Flávio Amaral

Foto1 – 13 jun (Legenda: Jogadores gays tomam o gramado do Mineirão: dia histórico para a diversidade sexual no esporte/Crédito: Mineirão/Agência i7)

Se o futebol já era terreno hostil para a população LGBT+, os gritos de “Ôôô… bicha!” que ecoavam durante a Copa de 2014 tornaram esse cenário ainda mais adverso. No campo ou na arquibancada, olhares tortos e frases como “futebol é para macho” afastam milhares de homens do esporte, criando um bloqueio difícil de superar.

Às vésperas de uma Copa do Mundo em um país onde se alimenta a intolerância e a homofobia, o Brasil vive um momento de transformação. Equipes gays de futebol surgem a cada semana e lançam um novo olhar sobre o esporte mais popular do país. Outro passo importante foi dado justamente em um dos palcos daquele Mundial.

O último sábado (09/06) marcou o aniversário de um ano do Bharbixas, primeira equipe gay de futebol de Minas Gerais. Que palco poderia ter sido melhor para essa comemoração, senão o Mineirão, local onde muitos dos atletas do time veem seus ídolos em campo? E foi ali, em campo, que a festa aconteceu, em um amistoso entre os aniversariantes e um combinado da LiGay Nacional de Futebol formado por atletas do Afronte (SP), BeesCats (RJ), Bulls (SP), Capivara (PR), Manotauros (MG) e Pampacats (RS).

No placar, 2 a 1 para os anfitriões, com dois gols de Gabriel Leão. Do lado dos visitantes, pisando pela primeira vez num gramado de estádio de Copa, tive a honra de marcar o gol do combinado da LiGay e realizar um dos sonhos de todo menino que cresceu com a bola no pé.

Após o apito final, a área externa ao gramado virou pista. Atletas, organizadores e torcedores curtiram shows até o fim da noite, enquanto a cobertura da arena alternava o azul e rosa do Bharbixas e as cores do arco-íris. O efeito que encantava espectadores concretizava mais um marco histórico do futebol inclusivo.

Foto2 – 13 jun (Legenda: Cobertura da arena alterna as cores do Bharbixas… /Crédito: Bharbixas)

Foto3 – 13 jun (Legenda: …e do arco-íris: a capital mineira abraça o futebol inclusivo/Crédito: Bharbixas)

Visão do jogador

Entrar no Mineirão pelo mesmo local onde tantos astros do futebol nacional chegam e encontrar no vestiário uniformes novos e nosso par de chuteiras mostrava que a experiência seria fiel à rotina de um atleta profissional. O aquecimento acompanhado por fisioterapeutas e preparadores físicos deixou as equipes, até então acostumadas ao fut7, prontas para encarar os 105m x 68m de gramado.

Subindo ao campo ao lado dos aniversariantes já em festa, podíamos ver torcedores eufóricos. Ao som do Hino Nacional Brasileiro, a bandeira tremulava no telão da arena. A emoção estava estampada no rosto de cada atleta e cada espectador, todos incrédulos com a dimensão do que presenciavam.

Depois de 20 anos de contato com o esporte pelo qual sou apaixonado, é difícil expressar em palavras a emoção de ouvir o frisson vindo da arquibancada, de jogar – e, mais ainda, de marcar um gol – em um estádio de Copa do Mundo.

O sentimento que reinou com a bola rolando foi reafirmado na festa, quando jogadores, membros da diretoria e torcedores de diferentes equipes inclusivas Brasil afora celebravam. Foi o que o Bharbixas idealizou ao projetar o evento e exatamente o que a capital mineira vivenciou nesse dia: respeito e inclusão.

 

Bulls conquista título da Taça Hornet

Bulls conquista título da Taça Hornet

Torneio com 15 equipes movimenta SP em feriado com Parada LGBT

Por Flávio Amaral

Foto1 – 06 jun (Legenda: Finalistas da Taça Hornet: o campeão Bulls, de vermelho e preto, o vice BeesCats, de amarelo e preto, e o terceiro colocado Unicorns, de camisas listradas/Crédito: Ricardo Perreira)

No frio domingo do feriado, as ruas de São Paulo ganharam um colorido especial para mais uma Parada do Orgulho LGBT. A festa da inclusão, porém, foi muito além da Avenida Paulista. A segunda edição da Taça Hornet da Diversidade reuniu 15 equipes de diferentes estados e mostrou que o esporte é para todos. O troféu, conquistado em 2017 pelo BeesCats (RJ), ficou nas mãos do Bulls (SP), em um dia em que mais de 200 atletas mostraram que gay também faz bonito com a bola no pé.

O sorteio das chaves, realizado durante a Feira da Diversidade, no Vale do Anhangabaú, deu certeza de emoção já na fase de grupos. Foram colocados frente a frente os cariocas BeesCats e Alligaytors no “grupo da morte”, e também Unicorns e Futeboys, no clássico paulista entre duas das equipes fundadoras da LiGay Nacional de Futebol e que dividem a organização da Champions LiGay de novembro.

Só o líder de cada grupo avançou ao triangular final, que reuniu Bulls (SP), Unicorns (SP) e BeesCats (RJ). Com duas vitórias no triangular, o atual campeão da LiGay faturou também a Taça Hornet, com o time carioca novamente em segundo e o Unicorns em terceiro. E não faltou bola na rede: foram marcados 143 gols em 33 partidas, uma média de mais de 4 gols por jogo.

Foto2 – 06 jun (Legenda: Crescimento a cada torneio: depois de 12 participantes na Champions LiGay, Taça Hornet recebeu 15 equipes/Crédito: Felipe Coelho/Hornet)

Percorrer o Brasil para competir, porém, não é missão fácil para quem levanta a bandeira da representatividade LGBT+. A grande maioria das equipes não possui patrocínio que ajude a arcar com custos de passagens e hospedagem. Por isso, a solução encontrada por muitos jogadores é se hospedar na casa de amigos residentes na cidade, o que não tirou o brilho da experiência de viajar com companheiros de time.

“Nos dividimos entre hostels, AirBnb e casas de amigos, mas isso não impediu de passarmos o fim de semana juntos. Criamos um grupo no Whatsapp só de quem foi a São Paulo e combinamos tudo por lá. Ficamos em bairros vizinhos e alguns no mesmo bairro para facilitar o encontro com os companheiros de time”, conta Josué Machado, zagueiro do Bharbixas que participou das três competições disputadas pela equipe – as anteriores foram as duas Champions LiGay, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.

Além de valorizar o crescimento do torneio, o Gerente de Marketing e Eventos da Hornet, Felipe Coelho, destacou a importância de ter um espaço totalmente voltado para a competição: “Saímos de um primeiro campeonato com quatro equipes para 15 agora, então foi preciso muita sensatez e paciência para ouvir a todos e decidir sem prejudicar ninguém. Alugamos uma arena inteira com três quadras onde as pessoas puderam circular com mais assertividade, fazendo com que o evento fosse um sucesso no quesito interação e comunidade.

Competições de Fut7 já realizadas

Data Competição Cidade-sede Campeão Vice
Julho/2017 I Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) BeesCats (RJ) Futeboys (SP)
Novembro/2017 I Champions LiGay Rio de Janeiro (RJ) Bharbixas (MG) BeesCats (RJ)
Janeiro/2018 I Copa Sul Florianópolis (SC) Taboa (PR) Sereyos (SC)
Abril/2018 II Champions LiGay Porto Alegre (RS) Bulls (SP) BeesCats (RJ)
Junho/2018 II Taça Hornet da Diversidade São Paulo (SP) Bulls (SP) BeesCats (RJ)

Calendário do segundo semestre

Junho a julho/2018 Taça Gaynabara Rio de Janeiro (RJ)
Julho/2018 II Copa Sul Curitiba (PR)
Agosto/2018 World Gay Games Paris (França)
Setembro/2018 Copa Sudeste Vitória (ES)
Novembro/2018 III Champion LiGay São Paulo (SP)

Por Flávio Amaral

Diversidade no campo e na rua

Diversidade no campo e na rua

Taça Hornet e Parada LGBT movimentam São Paulo

Por Flávio Amaral

Festa da diversidade: Parada LGBT promete reunir multidão na Avenida Paulista/Crédito: Reprodução Facebook APOGLBT SP)

Confesso que nunca me senti militante político, na essência da expressão. Não costumo ir às ruas, protestar, defender causas publicamente. Mas admito que a ficha caiu de vez no último dia 17 de maio, em evento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Nesse dia BeesCats e Alligaytors receberam uma Moção de Louvor e Congratulações por incentivar a diversidade sexual no esporte na cidade.

Ao falar, na ocasião, para a comunidade LGBT+ sobre esse movimento nacional de inclusão e respeito às diferenças que as equipes gays de futebol estão trazendo para o país, percebi que sim, estamos fazendo política. Ocupamos hoje um espaço hegemonicamente preconceituoso e tentamos, aos poucos, desconstruir e transformar esse cenário.

Números divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), associação que levanta dados sobre a violência contra indivíduos LGBT+, apontam que, a cada 19 horas, uma pessoa deste público é assassinada ou se suicida em nosso país. E o Brasil é campeão no que jamais deveria: em nossas terras ocorrem 52% dos homicídios contra LGBT no mundo.

Legenda: Primeira Taça Hornet reuniu quatro equipes na capital paulista em julho de 2017/Crédito: Arquivo BeesCats)

No dia 03 de junho, São Paulo será palco de mais uma Parada do Orgulho LGBT. Dois dias antes, 15 equipes de futebol formadas por jogadores homossexuais disputam a segunda edição da Taça Hornet da Diversidade, provando que o esporte deve ser lugar para todos.

Depois do show com a bola nos pés, será a vez de dar aquele close na Avenida Paulista, em um evento com “beijaços”, cartazes, fantasias e adereços que ajudam a expressar de forma criativa e bem-humorada as reivindicações do movimento LGBT. De fato, a festa tem lugar cativo no calendário da capital paulista.

“A Parada é, ao lado do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, realizado em Interlagos,
o maior evento de fluxo turístico da nossa cidade, tem um impacto econômico de grande expressão.
Além da causa, contribui para a economia, gerando renda, empregos e imagem internacional”
(João Dória, prefeito de São Paulo)

Disputa mesmo, só nos campos de jogo, na busca pela taça conquistada pelo BeesCats na primeira edição, em 2017. Tanto no torneio como na Parada, celebração, inclusão, respeito, sociabilidade, confraternização são as palavras de ordem. Dentro e fora das quatro linhas, a garantia é de uma reedição do que já é rotina no futebol inclusivo: sorrisos, abraços, reencontros, união.

Para esses atletas, que dão a cara a tapa e chutam o armário para escanteio num “país do futebol” com estatísticas tão desfavoráveis para quem partilha de sua orientação sexual, calçar a chuteira e entrar em campo são, de fato, atos políticos. Para nós, que não medimos esforços para, além dos uniformes de jogo, vestir a camisa da representatividade dentro e fora de nossa cidade ou estado, cada abraço e cada sorriso em campo são passos importantes na caminhada para tornar o futebol mais humano.