Na apuração perdemos você

Na apuração perdemos você

O adeus para Dona Ivone Lara

É uma notícia que devasta quem ama o samba. É o equivalente ao amante do futebol perder o Pelé ou como foi pro Pop perder Michael Jackson. Dona Ivone Lara é um ícone do samba, uma lenda, referência para inúmeras gerações.

Se a vida para a mulher ainda é difícil hoje imagine como era em 1965. Na época a função feminina era ser quase que exclusivamente mãe e dona de casa. Naquele ano Dona Ivone Lara se tornou a primeira mulher a ganhar um concurso de samba enredo, ganhou no seu amado Império Serrano que lhe homenageou em forma de enredo em 2012.

Dona Ivone Lara, joia rara como diz uma canção, também é parte importante de minha vida.

Em 2000 eu já tinha três anos como compositor de samba enredo e ainda não tinha conseguido vencer um concurso. Cheguei ao meu aniversário naquele ano desanimado porque acabara de ser eliminado no concurso da União da Ilha e estava mal no concurso do Boi da Ilha, pequena escola que naquele ano estava no grupo A, equivalente a segunda divisão futebolisticamente falando.

Sempre fui muito competitivo e aquilo me incomodava. Comecei a pensar em desistir do carnaval quando passei a ouvir CD ao vivo de Jorge Aragão que ganhara de aniversário. Tocou a canção “Enredo do meu samba” de Jorge Aragão e Dona Ivone Lara. Ouvindo a música que faz uma metáfora utilizando o carnaval para falar de amor fui mudando o sentimento. Esqueci a ideia de desistir e decidi que partiria para o ataque. Consegui reverter a situação do tal concurso e não só venci como o samba ganhou o prêmio Estandarte de Ouro do jornal O Globo. Um dos únicos dois sambas do bairro da Ilha do Governador a ganhar esse prêmio, o único nos últimos 41 anos.

Devo isso a Jorge Aragão e Dona Ivone Lara. Homenageei os dois dando o título de meu mais recente livro de “Na passarela do teu coração”, um verso da música. Dois poetas que mudaram minha vida.

E agora um deles parte deixando seus filhos órfãos. É dia de pegar uma gelada, surdo, tamborim, cavaco e cantar. É dia de cantar e celebrar porque a morte de uma pessoa aos 97 anos com uma história de vida tão fantástica não pode ser chorada e sim celebrada. Dona Ivone Lara se junta a grandes bambas na roda de samba no céu. A coisa está ficando bonita por lá, já tem anjo pensando que é passista.

Na apuração perdemos você.

Mas entendemos o enredo desse samba glorioso que foi sua vida.

Obrigado primeira dama do samba.

ENREDO DO MEU SAMBA

(Jorge Aragão / Dona Ivone Lara)

Não entendi o enredo

Desse samba amor

Já desfilei na passarela do teu

Coração

Gastei a subvenção

Do amor que você me entregou

Passei pro segundo grupo e com razão

Passei pro segundo grupo e com razão

Meu coração carnavalesco

Não foi mais que um adereço

Teve um dez na fantasia

Mas perdeu em harmonia

Sei que atravessei um mar

De alegorias

Desclassifiquei o amor de tantas alegrias

Agora sei

Desfilei sob aplausos da ilusão

E hoje tenho esse samba de amor, por comissão

Fim do carnaval

Nas cinzas pude perceber

Na apuração perdi você

 

@aloisiovillar

Aloisio Villar

Ah vira virou…

Ah vira virou…

Virando nas viradas dessa vida

A Mocidade chegou, virando nas viradas dessa vida, um elo, uma canção de amor…

Este parágrafo acima tem trecho do samba de 1990 da Mocidade Independente de Padre Miguel, samba campeão daquele carnaval e nada mais apropriado para a estreia de uma coluna destinada a falar de futebol e carnaval que começar assim.

Esse samba da Mocidade é sobre um enredo que falava de sua história e as viradas que deu começando como um time de futebol do bairro até se transformar em uma das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro. Viradas como vimos nas principais finais de estaduais no último fim de semana.

Atlético, Palmeiras e Vasco entraram com vantagens. Cruzeiro, Corinthians e Botafogo saíram com as taças. Mesmo o Grêmio que venceu com facilidade no fim teve que virar sua situação no campeonato já que com os reservas chegou a andar na zona de rebaixamento.

Cruzeiro tinha aparentemente a situação mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. Fácil por ter mais time que o Atlético e jogar em casa. Difícil por ser o único dos três que perderia o título vencendo por um gol de diferença. Em Minas não existiam os pênaltis então era um ou outro no tempo normal. Prevaleceu a maior categoria da raposa.

As outras decisões tiveram maior drama. Corinthians teve que vencer o melhor elenco do Brasil na casa dele. Teve de tudo lá, até pênalti marcado e desfeito minutos depois. Prevaleceu a condição de papa títulos do Corinthians mesmo nos últimos anos com elenco inferior. O Palmeiras parece sofrer da mesma “bunda molice” do Flamengo. Time que não hora de ser campeão amarela.

No Rio os times se equivaliam e o drama foi maior pelo gol que levou aos pênaltis sair aos 49 do segundo. O Vasco provou do próprio veneno já que venceu quatro jogos no campeonato nos acréscimos. O Botafogo foi o campeão improvável, a aparente quarta força do Rio leva a taça de uma forma parecida com 2010 quando venceu o título depois de passar por humilhações no início.  Detalhe: Desde 1989 sempre que o Botafogo leva o estadual um dos outros três do Rio vence o brasileiro ou Copa do Brasil.. Vasco 1989, Flamengo 1990, Vasco 1997, Flamengo 2006, Fluminense 2010 e Flamengo 2013.


E a imagem que fica da final é a do moleque querendo zoar antes da hora, botar faixa em uma menina e acabar com cara de trouxa. Se botarem esse vídeo nos XVideos fica mais popular que vídeos de lésbicas.

Os estaduais acabaram com viradas e eles mesmo viraram o jogo já que foram detonados o tempo todo e acabaram com estádios cheios e emoção. O brasileiro gosta dos estaduais, não gosta é das fórmulas.

Agora é brasileirão. Hora de virar a chave e ver se não teremos carruagem virando abóbora.

Por enquanto tudo virou carnaval.

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