A tabelinha entre música e futebol começou há mais de um século no Brasil

 

Quando decidi iniciar uma pesquisa sobre músicas que tinham como tema o futebol sabia que encontraria uma quantidade suficiente para traçar uma narrativa que contasse (cantasse e tocasse) boa parte da História do futebol brasileiro. Porém, ao longo desses mais de dois anos de buscas por livros e na internet posso dizer que achei muito, muito mais do que imaginava. As surpresas se sucedem, eis a verdade. Aqui preciso fazer uma pausa para agradecimentos a Paulo Luna, Beto Xavier, João e Luiza Carino, ambos do Instituto de Memória Musical Brasileira (IMMuB), e ao Instituto Moreira Salles (IMS). Em breve, agradecerei também a Assis Angelo. Sem eles eu teria uma dificuldade imensamente maior nesta empreitada.

FRIEDENREICH13 – RJ – 20/10/2011 – FRIEDENREICH/BIOGRAFIA – ESPECIAL DOMINICAL PARA O ESPORTES OE JT – Reprodução da foto de Friedenreich em campo com a seleção brasileira contra a Argentina, pelo Sul-Americano de 1925. Arthur Friedenreich, o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, escreveu sua própria biografia. O texto foi descoberto pelo editor carioca Cesar oliveira, que pretende publicar o livro no ano que vem para marcar os 120 anos de nascimento do craque. Foto: WILTON JUNIOR/AGENCIA ESTADO/AE

E tenho o dever de dizer meu muito obrigado também àqueles que me inspiraram involuntariamente a criar o projeto Jogada de Música, que começou como peça de teatro, como já mencionei aqui na coluna de estreia. A ideia me surgiu quando tive o prazer de trabalhar como assessor de imprensa do grupo História Através da Música, em 2015. Naquele ano, eles apresentaram o “espetáulaco” “Rio, um mar de histórias” como parte das comemorações dos 450 anos da cidade, e me acendeu a luz que me traz aqui.

Como frequentador de rodas de choro entre o fim dos anos 90 e a primeira década dos 2000, ouvi várias vezes a história de “1 x 0”, clássico de Pixinguinha que homenageia a primeira grande conquista da seleção brasileira, o Campeonato Sul-Americano de 1919 (ouça a versão instrumental acima, com Pixinguinha e Benedito Lacerda). Achava eu que esta seria a música que dava o pontapé inicial para a tabelinha envolvente com o futebol. Ledo engano. “Foot-ball”, uma polca de Francisco de Oliveira Lima, foi gravada em 1912! Melhor do que esta descoberta foi conseguir o áudio desta música, com a ajuda dos institutos citados lá em cima. Contei esta história (com um trecho de “Foot-ball”) no quadro Jogada de Música do programa Zona Mista que foi ao ar em 5 de dezembro passado.

Você pode ouvir este episódio adiantando o áudio abaixo para 1h32min21:

(05/12/2017)

No entanto, o episódio que deu origem à série não poderia ter sido outro: Pixinguinha, que em 23 de abril de 2017 completaria 120 anos, seu “1 x 0” e Friedenreich, o primeiro grande ídolo, artilheiro do Brasil e o primeiro jogador a ter uma homenagem musical, “El rey de la pelota”, de Menezes Filho. O quadro de estreia foi ao ar no dia 29 de janeiro de 2017, ainda no programa Panorama Esportivo do Pop Bola, domingo da primeira rodada do Campeonato Carioca. Já no Zona Mista, este importantíssimo capítulo da linha de passe entre a música e o futebol foi reprisada em 24 de outubro do ano passado, com as versões instrumental e a com letra de Nelson Angelo, na interpretação do grupo Casa de Marimbondo, que pode ser ouvida acima.

A reprise pode ser ouvida aqui, é só adiantar o áudio para 1h23min32: 

(24/10/2017)

Quinta que vem eu volto aqui para contar um pouco mais sobre esta íntima relação entre a música e o futebol do Brasil. Mas não se esqueça do Jogada de Música todas as terças, no Zona Mista da Rádio Globo, com o Pop Bola. Abraços.

Por Eduardo Lamas

Um time que sambava com a bola no pé

O complexo de vira-latas foi deixado de lado pela primeira vez há 60 anos, de acordo com Nelson Rodrigues. Em 1958, sob o comando de Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, Pelé, Garrincha e companhia puseram definitivamente o Brasil no Primeiro Mundo do futebol. Um time que sambava com a bola no pé, como diz um dos últimos versos de “A taça do mundo é nossa”, o hino da primeira Copa conquistada pela seleção. Um título ainda mais valorizado e comemorado por causa dos sofrimentos anteriores.

Oito anos antes, a torcida brasileira foi silenciada dolorosamente na derrota para o Uruguai, no “Maracanazo”, três dias após mais de 150 mil vozes cantarem “Touradas em Madri”, num misto espontâneo de comemoração e provocação pela estrondosa goleada de 6 a 1 sobre os espanhóis. E quatro anos antes, veio a revolta com a eliminação para o escrete húngaro, em jogo que terminou com o placar de 4 a 2 para os adversários e uma pancadaria generalizada que ficou conhecida como a Batalha de Berna, cidade suíça onde foi realizada as partidas (de futebol e luta livre campal).

No entanto, em 58, os então desconhecidos Pelé, com apenas 17 anos, e Garrincha assombraram o mundo a partir do momento em que entraram no time escalado por Vicente Feola. Ambos estrearam numa Copa do Mundo, na Suécia, no dia 15 de junho de 1958, no terceiro jogo do Brasil, contra a União Soviética, de Yashin, o Aranha Negra. O cartão de visitas foi dado nos três minutos iniciais da partida, quando o Anjo de Pernas Tortas, principalmente, deixou os soviéticos descadeirados e Vavá abriu o marcador. No fim, 2 a 0, com outro gol do atacante do Vasco.

Veja um pouco do que ocorreu naquele dia, com narração em francês e texto de Nelson Rodrigues na descrição sobre o vídeo: 

Depois da URSS, mais vitórias, uma difícil e duas fáceis: 1 a 0 sobre País de Gales, e 5 a 2 sobre a França e a Suécia. O carnaval em junho por todo o Brasil foi certamente inesquecível para quem o viveu. E para quem não o viveu, fica a imaginação e tudo o que veio a seguir graças àquela conquista. Para quem ainda não viu, recomendo assistir ao jogo completo contra os suecos. Escrevi sobre aquela partida, pouco depois de assisti-la, na série “Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos” do blog Em Questão. Lá dou o link para um vídeo ainda não bloqueado pela Dona Fifa (pelo menos até o momento em que escrevo este texto): http://eduardolamas.blogspot.com/2014/12/futebol-arte-os-maiores-jogos-de-todos.html.

O episódio da Jogada de Música da última terça-feira (6/2) é iniciado com a narração, de Edson Leite, do gol de Pelé que encerrou a goleada sobre a Suécia na final. O quadro do programa Zona Mista, da Rádio Globo, lembrou a belíssima gravação de outro grande parceiro de Elis, Jair Rodrigues, um apaixonado por futebol: “Manés e Pelés”

 ,

de Chico Xavier, o compositor cearense, não o médium mineiro famoso.

E foi encerrado com a festiva “A taça do mundo é nossa” .

Ouça o quadro abaixo (adiante o áudio para 1h18):

Pelé e Garrincha já haviam sido tema de capítulos anteriores na rádio. Juntos, inclusive. E outros certamente virão, afinal, a partir de 58, os dois não só ganharam uma quantidade imensa de homenagens musicais, como eles mesmos gravaram discos; o Rei inclusive em parceria com aquela que é considerada por muitos a maior cantora brasileira da História: Elis Regina. No Zona Mista de 28 de novembro último, o quadro tratou da incrível invencibilidade da seleção brasileira com os dois gênios juntos em campo. Três músicas foram lembradas naquela ocasião:

“A ginga do Pelé”, de João do Pife

“Garrincha”, de Luiz Americano

e “O futebol”, de Chico Buarque

Ouça aqui o quadro do dia 28/11/2017 (adiante o áudio para 1h19:

O maior ponta-direita da História do futebol foi lembrado no primeiro quadro dentro do Zona Mista, em 29 de agosto, quando foi contado como Garrincha criou o olé no futebol em parceria com 100 mil mexicanos, poucos meses antes da Copa da Suécia. Naquele dia, as músicas selecionadas foram:

“A ginga de Mané”, de Jacob do Bandolim

e “Balada número 7”, de Alberto Luiz, cantada por Noite Ilustrada

Escolhi a interpretação deste grande cantor em vez da que fez mais sucesso, com Moacyr Franco, por esta ser melancólica, o que não combinava com o tema daquele dia. Também foi usado um trecho da “Carmem”, de Bizet, como ilustração para o relato de João Saldanha citado no quadro. Infelizmente não consegui achar o áudio do episódio.

Embora Pelé ainda não tenha sido tema exclusivo de nenhum episódio da Jogada de Música, ele foi também um dos personagens principais dos episódios sobre o Maracanã e a Copa de 70, além de ter sido citado, nos sobre Tostão, Leônidas, Bahia, Cruzeiro e a seleção de 74. Prometo para breve ao menos um quadro inteiramente dedicado ao Rei. Só para ir ensaiando, como cantava Jackson do Pandeiro: “Quem é aquele moço com a bola no pé? É o Rei Pelé!”.

 Por Eduardo Lamas

Jogada de Música

Desculpe seu Zagallo, mas cem milhões de corações sofreram em 74

É com imensa felicidade que, na semana em que o quadro Jogada de Música completa um ano na Rádio Globo, tenho a oportunidade de estrear esta coluna. Antes, preciso fazer algumas apresentações: sou jornalista e escritor e comecei o trabalho de pesquisa das músicas que contam, cantam e tocam a História do futebol brasileiro no fim de 2015. Nasceu como peça de teatro, que ainda escrevo, pois estou na fase final das pesquisas. Na verdade, tenho a nítida impressão de que essas pesquisas não vão parar tão cedo, devido à vastidão de temas que envolvem a música brasileira sobre futebol e a História do esporte mais popular do Brasil e do mundo.

No fim de 2016 procurei o cineasta, jornalista, roteirista e produtor Renato Terra, com quem havia trabalhado entre 2004 e 2006, para falar do projeto. Impedido de assumir mais compromissos profissionaisna época, Renato me apresentou ao Alexandre Araújo, que abraçou a ideia, sugeriu um quadro para o programa Panorama Esportivo do Pop Bola e, como aceitei sem hesitar, lhe batizou de Jogada de Música. A turma do Pop Bola também entrou na Jogada e esta parceria proporciona agora mais este espaço, ao que só tenho a agradecer. Aqui, pretendo falar um pouco mais sobre os quadros, fornecendo mais informações, links e curiosidades, algumas até pessoais, se não os chatear.

Então, para começar, vou falar um pouco mais sobre oepisódio do dia 23, sobre a participação do Brasil na Copa de 74, pois na última terça (30) excepcionalmente o quadro não foi ao ar. As músicas escolhidas foram “Camisa 10”, de Hélio Matheus e Luís Vagner, gravada entre muitos outros por Luiz Américo, no seu LP de mesmo nome, lançado em 1973, e “Cem milhões de corações”, de Gilberto Montenegro, José Costa, César Cury e Jean Pierre, gravada pelo grupo Os Incríveis.

Por só conhecer o refrão e mesmo assim de forma errada (achava que era “É o camisa 10 da seleção”, em vez de “É camisa 10 na seleção”) passei a minha infância inteira acreditando que o grande sucesso do santista Luiz Américo era uma homenagem a Pelé. Na verdade ela é uma crítica muito bem-humorada à seleção que Zagalo e a comissão técnica que havia conquistado o tri em 70 preparavam para a Copa da Alemanha Ocidental. O refrão pede um substituto para o Rei e o restante da letra, que reproduzo abaixo, tem uma série de ironias com nomes de jogadores que fizeram parte da excursão à Europa e à África, em junho e início de julho de 1973. Foi naquele período que comissão técnica e jogadores brigaram com a imprensa e decidiram não dar mais entrevistas após uma derrota para a Suécia, lançando o que ficou conhecido como Manifesto de Glasgow (Escócia), assinado por todos os atletas.

A letra de “Camisa 10” é a seguinte, com comentários:

“Desculpe seu Zagalo

Mexe nesse time que tá muito fraco

Levaram uma flecha, (aqui achava que era uma referência ao ex-ponta-direita do Grêmio e do América-RJ, mas Flecha só foi convocado a primeira vez por Osvaldo Brandão,em 1976, quando atuava pelo time carioca,)

esqueceram o arco

Botaram muito fogo e sopraram o furacão(crítica ao número de jogadores do Botafogo convocados, 4 no total, e a Jairzinho, o Furacão da Copa de 70)

Que nem saiu do chão

 

Desculpe seu Zagalo

Puseram uma palhinha na sua fogueira(Palhinha, atacante do Cruzeiro que posteriormente foi do Corinthians e do Atlético-MG)

E se não fosse a força desse pau pereira (Luis Pereira, zagueiro do Palmeiras)

Comiam um frango assado

lá na jaula do leão(Emerson Leão, goleiro do Palmeiras que foi titular da seleção nas Copas de 74 e 78 e foi reserva em 70 e 86)

Mas não tem nada não!

 

Cuidado seu Zagalo

O Garoto do Parque está muito nervoso (Garoto do Parque São Jorge era o apelido de Rivelino, então no Corinthians)

E nesse meio campo fica perigoso

Parece que desliza nesse vai não vai

Quando não cai

É camisa dez na seleção

(Dez é a camisa dele,

quem é que vai no lugar dele?)

Desculpe seu Zagalo

A crítica que faço é pura brincadeira

Espírito de humor, torcida brasileira

A turma está sorrindo para não chorar…

Tá devagar”

Acabei descobrindo depois que há um pagode mais recente com o mesmo nome, mas o camisa 10 em questão é do Barcelona, nada tem a ver com o nosso tema. Já “Cem milhões de corações” tentou repetir o imenso sucesso de “Pra frente Brasil”, de Miguel Gustavo, que se tornou o hino da seleção do tri, uma das maiores, senão a maior, da História do futebol mundial. Também citava a população brasileira da época (em 70 eram “Noventa milhões em ação…”), mas o time pouco – ou nada – ajudou. A música tem duas partes completamente diferentes, parece mesmo que são duas, e foi gravada pelos Incríveis, que haviam feito sucesso nos anos 60 com “Era um garoto como eu que amava os Beatles e os Rolling Stones”, música que também teve muito êxito com os Engenheiros do Hawaii muitos anos depois. Os Incríveis também conseguiram grande sucesso no início dos anos 70 com “Eu te amo meu Brasil”, que acabou virando um hino da ditadura militar na época do “Ame-o ou deixe-o”.

A letra de “Cem milhões de corações” vai abaixo:

“Todos juntos de bandeira na mão

Saudando os canarinhos da nossa seleção

É uma nação inteira

Mostrando a todo mundo a glória brasileira.

 

Cem milhões de corações

Vibrando de uma só vez

É mais uma emoção

Brasil na Alemanha tetra campeão”.

O episódio número23 da Jogada de Música foi aberto com um pequeno trecho do comentário de João Saldanha, para a Rádio Globo, logo após a desclassificação para a final com a derrota de 2 a 0 para a Holanda, no dia3 de julho de 1974, em Dortmund. Saldanha exprime bem o quanto decepcionou aquela seleção, apesar dos ótimos jogadores que possuía.

O áudio completo do arquivo da Rádio Globo, a quem agradecemos juntamente com o comentarista Francisco Aiello, pode ser ouvido aqui:

Quem quiser ouvir o quadro do dia 23 aqui no site, é só adiantar o áudio para uma hora e alguns segundos neste link:

Segue a Jogada!

Dedico esta primeira coluna ao meu filho Daniel, que passou por uma delicada cirurgia na madrugada da última terça-feira e ainda se recupera no hospital.

Por Eduardo Lamas