A Seleção que jogava com música

Voa Canarinho Voa

A musical seleção de 82

 Nenhuma seleção teve uma relação tão íntima com a música como a de 1982. E não só porque jogava por música e encantou o mundo até ser eliminada pela Itália de Paolo Rossi e Dino Zoff. Dos 11 titulares de Telê Santana, nada menos do que sete foram homenageados em composições, muitas delas inspiradíssimas. Quatro destes gravaram discos, sendo que um em parceria com um grande nome da Música Popular Brasileira, e outro ainda criou um musical sobre futebol com 11 composições. Vamos à escalação musical.

O então lateral-esquerdo Júnior, como todos sabem, cantou o maior sucesso da época, “Povo Feliz (Voa Canarinho)”, de Memeco e Nonô. Ele foi também o coautor, com Alceu Maia, e cantor da outra música do compacto lançado às vésperas da Copa da Espanha: “Pagode da Seleção”. Na gravação desta, os jogadores convocados por Telê participam, sendo nomeados por Júnior, inclusive reservas, muitos que sequer entraram em campo nos gramados espanhóis, como o zagueiro Juninho, por exemplo.

Outros dois que gravaram discos foram Sócrates (“Sócrates”, de 1980) e o centroavante Serginho Chulapa (“Camisa 9”, de 1983). O Doutor da Bola ainda foi homenageado por Zé Miguel Wisnick em “Sócrates Brasileiro”, que foi gravada pelo compositor e também pela cantora Ná Ozetti. Em parceria com o maestro, cineasta e diretor de teatro Kleber Mazziero, ele compôs 11 músicas para o espetáculo teatral “O Futebol”, que estreou em 2004 e depois virou filme. Também cantou com Toquinho a música “Corinthians do meu coração”, no disco “Aquarela”, de 1983. Magrão, como também era chamado, é um capítulo à parte e, certamente, merecerá mais espaço por aqui. Por enquanto fique abaixo com a bela composição de Zé Miguel Wisnick, na voz do próprio.

Serginho também tem uma música para chamar de sua, “Chulapa Free”, assinada por nada menos que sete autores: Trambolho, Sergio Boneka, Campos, Clover Over, Lázaro Guido, Emerson Boy e Tai Santiago. A música foi gravada por Sergio Britto, dos Titãs, em seu álbum solo “Eu sou 300”, de 2006.

Já Zico, um dos jogadores mais homenageados por artistas da MPB, juntamente com Pelé e Garrincha, ainda fez dupla com Fagner no compacto “Batuquê de Praia”, lançado no ano da Copa da Espanha (veja no vídeo abaixo o clipe produzido pela TV Globo na época). Tanto a música-título, como “Cantos do Rio”, que vinha no Lado B, são de Petrúcio Maia.

A dupla que também fez sucesso na seleção e no Roma não ficou fora das paradas. Pepeu Gomes gravou o choro “Toninho Cerezo” no seu disco solo de estreia, “Geração de Som”, de 1978, e Francis Hime escalou “Falcão” para o repertório do álbum “Pau Brasil”, de 1982. O Rei de Roma ainda é citado com saudade, já em 81, por Kleiton e Kledir, em “Deu pra Ti”, um dos maiores êxitos da dupla gaúcha. Ouça abaixo o quadro que teve os dois como tema, no programa Zona Mista do dia 9 de janeiro (é só adiantar o áudio para 1h10min51s).

Por fim, o zagueiro Luisinho é o homenageado em “Jogo de Zagueiro”, de Sergio Santos, gravada originalmente em 2001, no CD “Cartografia Musical Brasileira – Minas Gerais”, do projeto Rumos Itaú Cultural Música (neste mesmo álbum está “Galo e Cruzeiro”, de Vander Lee, falecido em 2016). Ouça abaixo no vídeo abaixo, em 17min54.

Para não ficar extenso demais este texto, vamos dividir em dois capítulos a relação daquela seleção com a música. A primeira parte da Jogada de Música que iria ao ar no programa Zona Mista, da Radio Globo você pode ouvir abaixo, com narração de Hugo Lago, produção de Alexandre Araújo e edição de Marcelo Santos.

Portanto, na próxima semana volto com outras duas composições especiais feitas para aquele time que também fizeram sucesso. Você não vai perder por esperar. Até lá!

Por Eduardo Lamas

O sonho de ser jogador de futebol

O sonho de ser jogador de futebol

 Muitos artistas de nossa música acalentaram o sonho de se tornarem jogador de futebol. Duas colunas atrás, falei de Moreira da Silva, o Kid Morengueira, que queria mais é ser um Doutor em Futebol. Mas outros exemplos não faltam, sendo que alguns deles chegaram mesmo a atuar nos gramados, casos dos flamenguistas Jorge Ben (ou Benjor) e Diogo Nogueira. Outros que quiseram ir pelo mesmo caminho foram o tricolor Evandro Mesquita, os flamenguistas Jackson do Pandeiro e Djavan, e até Lobão, que já torceu pelo Botafogo, depois Flamengo e hoje diz não tolerar o futebol.

Como em “Doutor em Futebol” e sua segunda versão, “Pé e Bola”, o sonho virou música muitas vezes. Benito di Paula, outro torcedor rubro-negro, cantou em “Assobiar e Chupar Cana”, sucesso de 1977, que, em vez de cantor ou compositor, seria muito bom, seria muito legal, pudesse ser ator ou jogador de futebol. Nesta mesma composição, o artista friburguense narra uma fictícia tabelinha entre grandes nomes da nossa música, como Vinicius de Moraes, Toquinho e Jorge Ben, que termina num gol de Gonzagão.

Porém, tão gaiato quanto Moreira da Silva era o vascaíno Dicró. Com Edson Show ele compôs “O bom de bola”, que entre outras lorotas cabeludas, diz o seguinte: “Fui eu que ensinei ao Pelé, não é conversa fiada, o papo é sério, eu não conto farola, Beckenbauer e um tal de Cruijff aprenderam na minha escola”. Como se vê, a letra é bem divertida, com aquele humor peculiar que Dicró sempre apresentava em seus sambas. Ela foi gravada originalmente num compacto duplo, em 1979, e vinha na faixa 2 do Lado A como “Melô do Sócrates (O bom de bola)” – por que Sócrates? Também gostaria de saber. Já com seu nome definitivo, entrou no LP lançado pelo sambista no mesmo ano. Em 2002, ano da última conquista mundial da seleção brasileira, foi regravada no CD “Dicró no piscinão”, com uma atualização em um de seus versos: em vez de “Pergunte ao Zagallo e ao Brandão” vinha “Pergunte ao Felipão”. Confira abaixo a letra completa:

“Solta a bola Mané

Solta a bola Mané

Vou lhe contar quem eu sou

Fui eu que ensinei ao Pelé

Não é conversa fiada

O papo é sério

Eu não conto farola

Beckenbauer e um tal de Cruijff

Aprenderam na minha escola

Fui jogar na Alemanha

Bati um córner e ninguém me ajudou

Eu corri o campo todo

Toquei de cabeça e a bola entrou

Solta a bola Mané

Solta a bola Mané

Vou lhe contar quem eu sou

Fui eu que ensinei ao Pelé

No jogo da bola eu sou craque

Sempre fui destaque “O rei do futebol”

Já dei drible em Rivelino

Em Gerson e Tostão eu apliquei lençol

Na copa de 58 Pelé deu um chute e a bola subiu

Calmamente eu matei no peito

Toquei de trivela era gol do Brasil

Solta a bola Mané

Solta a bola Mané

Vou lhe contar quem eu sou

Fui eu que ensinei ao Pelé

O Zico pra mim é pinto

Não tem Dinamite, pois eu sou granada

Marquei gol de bicicleta

Em Portugal onde a bola é quadrada

O rei da Arábia me dava

Poços de petróleo e mais um milhão

Mas vou pendurar a chuteira

Eu sou patrimônio da minha nação

Pergunte ao Felipão (pergunte ao Zagallo e ao Brandão)

Solta a bola Mané

Solta a bola Mané

Vou lhe contar quem eu sou

Fui eu que ensinei ao Pelé.”

Galera, a Jogada foi interrompida na área da rádio, mas seguirá sem impedimento aqui neste espaço. Só tenho a agradecer a Alexandre Araújo, Hugo Lago, a turma do Pop Bola e a todos na Rádio Globo que fizeram 30 vezes a Jogada em tabelinha comigo, de 29 de janeiro de 2017 a 27 de março de 2018. Muito obrigado especial a todos que torceram junto e continuam empurrando este time para frente.

Para a última terça-feira, dia 10 de abril, já havia sido gravado o quadro com o tema que abordei aqui hoje, com narração de Hugo Lago, a produção de Alexandre Araújo e a edição de  Marcelo Santos. Portanto, quem quiser ouvi-lo, é só clicar na setinha abaixo.

Muito obrigado mais uma vez e até a próxima quinta.

Por Eduardo Lamas

Marras incríveis dentro da área

  Canta e encanta, Romário 

Romário, o Baixinho marrento e goleador, na música

Definido como gênio da grande área por Johan Cruyff, outro gênio da bola que foi seu técnico no Barcelona, Romário escreveu o seu nome como o principal jogador da conquista que acabou com o jejum de 24 anos sem títulos mundiais da seleção brasileira. Mas antes de brilhar na Copa dos Estados Unidos, em 1994, um ano antes ele já havia classificado o Brasil para aquele Mundial, no peito, na marra, na coragem e no talento, muito talento. Foram dele os dois gols da vitória de 2 a 0 sobre o Uruguai, numa das maiores atuações que um craque exibiu na História do Maracanã.

Quatro anos antes, no ainda maior estádio do mundo, o Baixinho já havia feito de cabeça, também contra os uruguaios, o gol do título da Copa América de 89, conquista que interrompeu uma sequência de 40 anos sem que o Brasil ganhasse essa competição. Arrebatador de multidões, quebrador de recordes, conquistador de títulos e corações femininos, artilheiro de mais de mil gols, segundo as suas contas, e com muitas polêmicas fora e dentro de campo, o Baixinho marrento não podia ficar sem homenagens musicais.

Uma delas, que leva o nome do craque, é mais um belo samba que tem como tema o universo do futebol assinado por Carlinhos Vergueiro. Esta música foi gravada por Vergueiro no CD “Contra-Ataque – Samba e Futebol” (Biscoito Fino), de 2010. Ouça no áudio abaixo.

Antes de se consagrar na seleção, no PSV Eindhoven, da Holanda, e no Barcelona, o Baixinho nascido na Vila da Penha havia começado, ainda nas categorias de base, a fazer seus muitos gols no Olaria e depois no Vasco, onde se profissionalizou. Foi com a camisa cruzmaltina, ao lado de Roberto Dinamite, que começou a se destacar, com velocidade e gols. Saiu em 88 para a Europa e voltou a jogar no Brasil em 95, já eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo do ano anterior.

Surpreendeu a todos, retornando ao país no auge, para jogar no Flamengo, arquirrival do Vasco e time que seu pai, Edevair, torcedor apaixonado do América, não via com bons olhos. Foi ídolo da torcida rubro-negra, mas depois também fez a alegria dos torcedores do Fluminense e novamente a do Vasco, onde encerrou a carreira, em 2008, aos 42 anos de idade.

E como um craque nunca fica só com uma homenagem musical, aí vai outra com o nome dele, Leonardo Teixeira, Ricardo Imperatore e Ronnie Marruda, gravada pela Banda Bel, no CD “Sambadrome (Tinitus), de 1994. Esta você pode ouvir no vídeo abaixo.

Há outra, chamada “Romário Bola de Ouro”, de Carlito Cavalcanti e Gerson do Pandeiro, que teve como intérpretes o cantor Gerson e o próprio Baixinho. Esta música faz parte de um LP de 1994, chamado “Samba & Pagode – Vol. 4”, mas não encontrei o áudio. Como também não achei o do quadro Jogada de Música que foi ao ar no dia 6 de setembro do ano passado, no programa Zona Mista, da Rádio Globo.

Por Eduardo Lamas