Um toque de prima para o Zeca “Boleiro”

Durante minhas andanças em busca de músicas sobre futebol encontrei há algumas semanas vídeos de duas entrevistas do cantor e compositor Zeca Baleiro, torcedor do Maranhão Atlético Clube e do Santos Futebol Clube. Em uma delas, ele mostra o seu lado boleiro e torcedor ao descrever os motivos que o levaram a compor com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges a bela música em homenagem a Canhoteiro, “O Garrincha da ponta-esquerda”, grande ídolo do São Paulo nas décadas de 50 e 60. Em outra, concedida a André Rizek, no SporTV, sobre o mesmo tema, ele afirma que há poucas músicas sobre futebol no Brasil. Gosto muito do Zeca, mas nessa ele pisou na bola. Há músicas sobre futebol no Brasil desde 1912, quando Francisco de Oliveira Lima gravou a polca “Foot-ball”, como já falamos na coluna passada.

É impossível fechar um número de composições sobre o esporte mais popular do mundo neste país em que música e futebol são duas verdadeiras paixões. E mais, são duas áreas nas quais o Brasil pode se inserir no Primeiro Mundo. Nestas e em mais quais? Bom, este assunto rende e não é para este espaço. O que quero ressaltar é que há uma quantidade incalculável de músicas específicas sobre futebol e um número talvez ainda maior de letras com referências, metáforas, analogias ao jogo de bola (afinal, o extremado debate político dos últimos anos não virou um “fla-flu”?). De peladas de rua (“Bola de meia, bola de gude”, Milton Nascimento e Fernando Brant; “Só se não for brasileiro nessa hora”, Moraes Moreira e Galvão, etc) a referências a clássicos e ídolos do futebol e muitas a torcedor (“Dotô, jogava o Flamengo e eu queria escutá…”, “Incompatibilidade de gênios”, João Bosco e Aldir Blanc). O linguajar nosso de cada dia traz tantas imagens futebolísticas arraigadas em nossa cultura que nem percebemos que estamos utilizando expressões futebolísticas. E isso se reflete claramente na Música Popular Brasileira.

Ouça e veja no vídeo abaixo Fagner e Zeca Baleiro interpretando a música “Canhoteiro”:

Zeca é craque da música e para não ficar sem pai nem mãe na zona do agrião (expressões emprestadas ou criadas para o futebol e que ficaram – mais – populares por causa disso), dou  três dicas de leitura para ele e para você que vem aqui assistir a este espetáculo chamado Jogada Música (um pouco de marra não faz mal a ninguém, né Romário!). Pois bem, aí vão: “No compasso da bola”, de Paulo Luna; “O futebol no país da música”, de Beto Xavier, e “A presença do futebol na Música Popular Brasileira”, de Assis Ângelo. Li os dois primeiros e em breve vou comprar este último para me embasar mais. Afinal, o projeto Jogada de Música, que por enquanto ocupa duas posições, na Rádio Globo e aqui, vai em muito breve jogar nas 11. É só aguardar para assistir de camarote como se estivesse na arquibancada, ou seja, no conforto, mas na maior vibração. Fique atento no lance!

No programa Zona Mista de terça-feira passada (20/02), o tema foi “Os pontas da bola e da vida” e um pouco da história de Canhoteiro foi contada e cantada, neste último caso por Zeca Baleiro e Fagner. Há também Dicró e Skank. Ouça aqui, adiantando o áudio para 1h17min41:

Por Eduardo Lamas

 

A tabelinha entre música e futebol começou há mais de um século no Brasil

 

Quando decidi iniciar uma pesquisa sobre músicas que tinham como tema o futebol sabia que encontraria uma quantidade suficiente para traçar uma narrativa que contasse (cantasse e tocasse) boa parte da História do futebol brasileiro. Porém, ao longo desses mais de dois anos de buscas por livros e na internet posso dizer que achei muito, muito mais do que imaginava. As surpresas se sucedem, eis a verdade. Aqui preciso fazer uma pausa para agradecimentos a Paulo Luna, Beto Xavier, João e Luiza Carino, ambos do Instituto de Memória Musical Brasileira (IMMuB), e ao Instituto Moreira Salles (IMS). Em breve, agradecerei também a Assis Angelo. Sem eles eu teria uma dificuldade imensamente maior nesta empreitada.

FRIEDENREICH13 – RJ – 20/10/2011 – FRIEDENREICH/BIOGRAFIA – ESPECIAL DOMINICAL PARA O ESPORTES OE JT – Reprodução da foto de Friedenreich em campo com a seleção brasileira contra a Argentina, pelo Sul-Americano de 1925. Arthur Friedenreich, o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, escreveu sua própria biografia. O texto foi descoberto pelo editor carioca Cesar oliveira, que pretende publicar o livro no ano que vem para marcar os 120 anos de nascimento do craque. Foto: WILTON JUNIOR/AGENCIA ESTADO/AE

E tenho o dever de dizer meu muito obrigado também àqueles que me inspiraram involuntariamente a criar o projeto Jogada de Música, que começou como peça de teatro, como já mencionei aqui na coluna de estreia. A ideia me surgiu quando tive o prazer de trabalhar como assessor de imprensa do grupo História Através da Música, em 2015. Naquele ano, eles apresentaram o “espetáulaco” “Rio, um mar de histórias” como parte das comemorações dos 450 anos da cidade, e me acendeu a luz que me traz aqui.

Como frequentador de rodas de choro entre o fim dos anos 90 e a primeira década dos 2000, ouvi várias vezes a história de “1 x 0”, clássico de Pixinguinha que homenageia a primeira grande conquista da seleção brasileira, o Campeonato Sul-Americano de 1919 (ouça a versão instrumental acima, com Pixinguinha e Benedito Lacerda). Achava eu que esta seria a música que dava o pontapé inicial para a tabelinha envolvente com o futebol. Ledo engano. “Foot-ball”, uma polca de Francisco de Oliveira Lima, foi gravada em 1912! Melhor do que esta descoberta foi conseguir o áudio desta música, com a ajuda dos institutos citados lá em cima. Contei esta história (com um trecho de “Foot-ball”) no quadro Jogada de Música do programa Zona Mista que foi ao ar em 5 de dezembro passado.

Você pode ouvir este episódio adiantando o áudio abaixo para 1h32min21:

(05/12/2017)

No entanto, o episódio que deu origem à série não poderia ter sido outro: Pixinguinha, que em 23 de abril de 2017 completaria 120 anos, seu “1 x 0” e Friedenreich, o primeiro grande ídolo, artilheiro do Brasil e o primeiro jogador a ter uma homenagem musical, “El rey de la pelota”, de Menezes Filho. O quadro de estreia foi ao ar no dia 29 de janeiro de 2017, ainda no programa Panorama Esportivo do Pop Bola, domingo da primeira rodada do Campeonato Carioca. Já no Zona Mista, este importantíssimo capítulo da linha de passe entre a música e o futebol foi reprisada em 24 de outubro do ano passado, com as versões instrumental e a com letra de Nelson Angelo, na interpretação do grupo Casa de Marimbondo, que pode ser ouvida acima.

A reprise pode ser ouvida aqui, é só adiantar o áudio para 1h23min32: 

(24/10/2017)

Quinta que vem eu volto aqui para contar um pouco mais sobre esta íntima relação entre a música e o futebol do Brasil. Mas não se esqueça do Jogada de Música todas as terças, no Zona Mista da Rádio Globo, com o Pop Bola. Abraços.

Por Eduardo Lamas

Um time que sambava com a bola no pé

O complexo de vira-latas foi deixado de lado pela primeira vez há 60 anos, de acordo com Nelson Rodrigues. Em 1958, sob o comando de Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, Pelé, Garrincha e companhia puseram definitivamente o Brasil no Primeiro Mundo do futebol. Um time que sambava com a bola no pé, como diz um dos últimos versos de “A taça do mundo é nossa”, o hino da primeira Copa conquistada pela seleção. Um título ainda mais valorizado e comemorado por causa dos sofrimentos anteriores.

Oito anos antes, a torcida brasileira foi silenciada dolorosamente na derrota para o Uruguai, no “Maracanazo”, três dias após mais de 150 mil vozes cantarem “Touradas em Madri”, num misto espontâneo de comemoração e provocação pela estrondosa goleada de 6 a 1 sobre os espanhóis. E quatro anos antes, veio a revolta com a eliminação para o escrete húngaro, em jogo que terminou com o placar de 4 a 2 para os adversários e uma pancadaria generalizada que ficou conhecida como a Batalha de Berna, cidade suíça onde foi realizada as partidas (de futebol e luta livre campal).

No entanto, em 58, os então desconhecidos Pelé, com apenas 17 anos, e Garrincha assombraram o mundo a partir do momento em que entraram no time escalado por Vicente Feola. Ambos estrearam numa Copa do Mundo, na Suécia, no dia 15 de junho de 1958, no terceiro jogo do Brasil, contra a União Soviética, de Yashin, o Aranha Negra. O cartão de visitas foi dado nos três minutos iniciais da partida, quando o Anjo de Pernas Tortas, principalmente, deixou os soviéticos descadeirados e Vavá abriu o marcador. No fim, 2 a 0, com outro gol do atacante do Vasco.

Veja um pouco do que ocorreu naquele dia, com narração em francês e texto de Nelson Rodrigues na descrição sobre o vídeo: 

Depois da URSS, mais vitórias, uma difícil e duas fáceis: 1 a 0 sobre País de Gales, e 5 a 2 sobre a França e a Suécia. O carnaval em junho por todo o Brasil foi certamente inesquecível para quem o viveu. E para quem não o viveu, fica a imaginação e tudo o que veio a seguir graças àquela conquista. Para quem ainda não viu, recomendo assistir ao jogo completo contra os suecos. Escrevi sobre aquela partida, pouco depois de assisti-la, na série “Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos” do blog Em Questão. Lá dou o link para um vídeo ainda não bloqueado pela Dona Fifa (pelo menos até o momento em que escrevo este texto): http://eduardolamas.blogspot.com/2014/12/futebol-arte-os-maiores-jogos-de-todos.html.

O episódio da Jogada de Música da última terça-feira (6/2) é iniciado com a narração, de Edson Leite, do gol de Pelé que encerrou a goleada sobre a Suécia na final. O quadro do programa Zona Mista, da Rádio Globo, lembrou a belíssima gravação de outro grande parceiro de Elis, Jair Rodrigues, um apaixonado por futebol: “Manés e Pelés”

 ,

de Chico Xavier, o compositor cearense, não o médium mineiro famoso.

E foi encerrado com a festiva “A taça do mundo é nossa” .

Ouça o quadro abaixo (adiante o áudio para 1h18):

Pelé e Garrincha já haviam sido tema de capítulos anteriores na rádio. Juntos, inclusive. E outros certamente virão, afinal, a partir de 58, os dois não só ganharam uma quantidade imensa de homenagens musicais, como eles mesmos gravaram discos; o Rei inclusive em parceria com aquela que é considerada por muitos a maior cantora brasileira da História: Elis Regina. No Zona Mista de 28 de novembro último, o quadro tratou da incrível invencibilidade da seleção brasileira com os dois gênios juntos em campo. Três músicas foram lembradas naquela ocasião:

“A ginga do Pelé”, de João do Pife

“Garrincha”, de Luiz Americano

e “O futebol”, de Chico Buarque

Ouça aqui o quadro do dia 28/11/2017 (adiante o áudio para 1h19:

O maior ponta-direita da História do futebol foi lembrado no primeiro quadro dentro do Zona Mista, em 29 de agosto, quando foi contado como Garrincha criou o olé no futebol em parceria com 100 mil mexicanos, poucos meses antes da Copa da Suécia. Naquele dia, as músicas selecionadas foram:

“A ginga de Mané”, de Jacob do Bandolim

e “Balada número 7”, de Alberto Luiz, cantada por Noite Ilustrada

Escolhi a interpretação deste grande cantor em vez da que fez mais sucesso, com Moacyr Franco, por esta ser melancólica, o que não combinava com o tema daquele dia. Também foi usado um trecho da “Carmem”, de Bizet, como ilustração para o relato de João Saldanha citado no quadro. Infelizmente não consegui achar o áudio do episódio.

Embora Pelé ainda não tenha sido tema exclusivo de nenhum episódio da Jogada de Música, ele foi também um dos personagens principais dos episódios sobre o Maracanã e a Copa de 70, além de ter sido citado, nos sobre Tostão, Leônidas, Bahia, Cruzeiro e a seleção de 74. Prometo para breve ao menos um quadro inteiramente dedicado ao Rei. Só para ir ensaiando, como cantava Jackson do Pandeiro: “Quem é aquele moço com a bola no pé? É o Rei Pelé!”.

 Por Eduardo Lamas