Copa de 50, sons de euforia e silêncio

Copa de 50, sons de euforia e silêncio

Música de Lamartine para seleção e 150 mil vozes cantando marchinha

Na hierarquia das tragédias futebolísticas nacionais, a Copa de 50 não perdeu um milímetro de sua importância depois dos 7 a 1 de 2014. Cada uma tem, principalmente devido aos contextos históricos, uma natureza muito distinta da outra. Se na primeira houve – embora com muitas injustiças injustificáveis – uma lição a duras penas aprendida, nesta mais recente, apenas humilhação. Nada mais do que isso, pois nada compreendemos, pouco – para não dizer nada – foi aprendido. E os erros permanecem e vão sendo aperfeiçoados, como numa cruel inversão de significados e valores. Se a lição sabemos de cor, para que aprender?

Cada um desses jogos resume o país, tal como era, tal como está. Com uma geração “nem, nem” aí cada vez maior, vamos em frente mesmo que seja o abismo o rumo final. Chegamos ao topo, ao posto de melhores do mundo e desaprendemos a jogar imitando quem agora nos copia. Há quem diga que estamos mais maduros, resilientes? Não, infelizmente, não. Ironicamente ficamos indiferentes, por isso muitos até acham graça.

Depois da “trégua” para o mundo se destruir e carregar para debaixo da terra e dos mares, oceanos e rios um número absurdo de cadáveres, a Copa do Mundo voltou a ser disputada e à América do Sul. No Brasil, país que já havia feito bonito em 1938, na França, com um terceiro lugar, o que hoje seria saudado como retumbante fracasso. O país colecionava já naquela época um número considerável de músicas sobre o futebol. E antes mesmo de entrar em campo, a seleção brasileira já tinha uma composição para chamar de sua. Lamartine Babo, o autor dos hinos de dez clubes cariocas e um niteroiense (o Canto do Rio), fez a “Marcha do Scratch Brasileiro”, gravada por Jorge Goulart e Francisco Sergi e sua orquestra no Lado B de um compacto da Continental que tinha o Hino (ou Marcha) do Bonsucesso no Lado A.

Ouça aqui: http://immub.org/album/78-rpm-45950

No entanto, se o mundo saiu da profunda tristeza da guerra e entrou na alegria da competição maior do esporte mais popular da Terra, o Brasil na Copa foi da euforia à depressão. Invicta, a seleção de Barbosa, Zizinho, Ademir de Menezes e companhia, passou pela primeira fase com duas vitórias e um empate, e na segunda e última exibia um futebol de primeira qualidade e altamente goleadora. Depois de fazer os suecos dançarem com o mesmo placar que os alemães nos imporiam 64 anos depois, o time brasileiro destroçava o da Espanha por 6 a 1,  quando nos momentos finais, espontaneamente, sem que jamais se saiba quem iniciou a cantoria, 150 mil vozes entoaram “Touradas em Madri”, de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro. Nas arquibancadas do Maracanã, Braguinha chorou de emoção. Essa marchinha de carnaval de enorme sucesso havia sido gravada a primeira vez em 1938, por Almirante, mas foi regravada pelo menos mais três vezes antes do Mundial de 50 por outros cantores, inclusive Carmen Miranda, em 1949.

 

Durante a narração do jogo, pela Rádio Nacional, o locutor Antônio Cordeiro, claramente emocionado e surpreso com aquele coro inesperado, rindo e chegando a dar uma rápida gargalhada, informa aos ouvintes o que está ocorrendo, sem se lembrar do nome da música (“Nota sensacional da torcida brasileira cantando a marcha agarrei o touro à unha”, “vai levando Gainza, ao som da marcha dos toureiros”) e sem se esquecer de narrar a partida. Uma pena, pois se deixasse de transmitir o que ocorria em campo, a latinha (microfone) captaria melhor o som das arquibancadas e o registro daquele momento histórico ficaria ainda mais belo. Emocionante, ouça abaixo nos minutos finais da transmissão (a partir de 52min58s).

Porém, o jogo seguinte seria contra o Uruguai, com o Brasil precisando somente do empate para ser campeão, e todos sabem como tudo terminou. A confiança exagerada de todos os brasileiros foi expressada no discurso em pleno Maracanã do prefeito do então Distrito Federal Ângelo Mendes de Moraes pouco antes de a bola rolar: “Vós brasileiros, a quem eu considero os vencedores do campeonato mundial; vós brasileiros que a menos de poucas horas sereis aclamados campeões por milhares de compatriotas; vós que não possuis rivais em todo o hemisfério; vós que superais qualquer outro competidor; vós que eu já saúdo como vencedores! Cumpri minha promessa construindo esse estádio. Agora, fazei o vosso dever, ganhando a Copa do Mundo”.

Começou a peleja, o Brasil fez 1 a 0 no início do segundo tempo só para aumentar ainda mais o otimismo reinante, mas a marcha do tempo foi cruel. E de marchinha em marchinha naquela Copa, instaurou-se o silêncio. Porém, nas profundezas mais entranhadas daquele incomensurável vazio sonoro das arquibancadas repletas do Maracanã cada um poderia ouvir, se quisesse, a Marcha Fúnebre.

No entanto, daquele luto o futebol brasileiro renasceu, ergueu-se como gigante, conquistou o mundo cinco vezes até cair no atual estágio de indigência técnica e tática, de abandono de suas raízes. Mas isso é outro papo. E o papo da Jogada de Música vai se encerrando neste espaço, agradecendo imensamente a todos que acompanharam aqui cada lance musical da bola, especialmente à galera do Pop Bola que nos cedeu este espaço. O árbitro apitou e apontou para o meio, a coluna sai de campo, mas a Jogada prossegue em outras áreas. Muitíssimo obrigado a todos!

Os 40 anos do gol de Rondinelli

Os 40 anos do gol de Rondinelli

Título de 78 deu origem às maiores glórias do Fla e a muitas músicas

Quando a bola venceu Emerson Leão, depois da certeira cabeçada de Rondinelli, aos 41 minutos do segundo tempo da última partida do segundo turno do Campeonato Carioca de 1978, foi iniciada a Era mais gloriosa do futebol do Flamengo. Na próxima segunda-feira, dia 3, aquele título carioca, o primeiro do terceiro tri estadual rubro-negro, completará 40 anos. Mas para muitos parece que foi no domingo passado.

 

Edu Kneip com Rondinelli

Foto: arquivo pessoal

Para relembrar aqueles tempos de grande alegria para a torcida rubro-negra, um apaixonado flamenguista pôs em músicas a trajetória daquele time: Edu Kneip. Com uma composição para cada grande jogo ou conquista, o violonista, cantor e compositor lançou recentemente o CD “Vencer, vencer, vencer”. O álbum deste paulista de Taubaté abrange o período de 78 a 83, com a liberdade poética de estender à Copa União de 87, pelo grande time que formou, mas já sem muitos da base anterior, e ao Brasileiro de 92, especialmente pelo Maestro Júnior, nosso entrevistado de dois episódios atrás .

Tabelando com o Maestro Júnior

 

Porém, esta coluna trata daqueles primeiros momentos do melhor Flamengo de todos os tempos. E, após a abertura com “Manto Sagrado”, a faixa 2 narra justamente aquela tensa partida contra o Vasco, naquele tão longe e tão perto 3 de dezembro, terminando com o gol do “Deus da Raça”.

Naquele período inicial, outros compositores flamenguistas, pressentindo os dias de glória e euforia que viriam, gravaram homenagens ao clube do coração. Além de “Flamenguista”, de Pepeu Gomes, gravada em 1978 e que já entrou nesta Jogada no capítulo sobre o Clássico dos Milhões

O musical Clássico dos Milhões

, outro componente dos Novos Baianos também vibrou “rubro-negramente” em notas musicais: Moraes Moreira, em “Vitorioso Flamengo”, de 1979.

 

Kneip agora e vários compositores na época gravaram outras muitas músicas em celebração pelos muitos títulos conquistados pelo Fla, de 79 a 83, especialmente a Libertadores e o Mundial de 81. Mas estas ficarão para uma próxima Jogada de Música. Fique abaixo com o gol do Deus da Raça, na narração de Luciano do Valle e o comentário de J. Hawilla, em transmissão da TV Globo.

 

Por Eduardo Lamas

Corinthians, o campeão dos campeões

Corinthians, o campeão dos campeões

Quantidade de músicas em homenagem ao Timão é gigantesca

Campeão brasileiro pela sétima vez no ano passado e dono da segunda maior torcida do país, o Corinthians também pode se orgulhar de ter inúmeras homenagens musicais em sua vitoriosa História. São tantas, que outras colunas terão de ser publicadas para não deixar nenhuma música “corintiana” de fora. Aqui vamos citar algumas da MPB, como “Nação Corinthians”, belíssima composição do tricolor Carlinhos Vergueiro (com Faveco Falcão e J. Petrolino) e gravada por ele, que já se tornou um frequentador assíduo da Jogada de Música.

É inegável que a trajetória corintiana ganhou um grande impulso a partir do fim dos anos 90, o que só vem enchendo ainda mais de orgulho a sua apaixonada torcida. Afinal, de 1998 a 2017, além de 7 títulos paulistas, o clube conquistou 2 Mundiais, uma Libertadores, uma Recopa Sul-Americana, 6 brasileiros, 2 Copas do Brasil e uma Taça Rio-São Paulo. Clube com o maior número de títulos paulistas, 29, o Timão amargou de 1955 a 76 um longo jejum encerrado com a vitória de 1 a 0 sobre a Ponte Preta, na histórica final de 77, com gol de Basílio. Mesmo com os 23 anos sem grandes conquistas, a sua torcida só fez aumentar em número e paixão. O bando de loucos foi muito mais louco naqueles longos e duríssimos anos.

Porém, o último título conquistado antes do período de seca, é um dos mais importantes da História do clube, pois foi ganho no ano do quarto centenário da fundação da cidade de São Paulo, em 1954. Para eternizar aquela conquista, chamada de bi do centenário, porque o Alvinegro do Parque São Jorge havia sido campeão paulista em 1922, quando a Independência do Brasil completou cem anos, Billy Blanco compôs “Corinthians, campeão do centenário”. Sabe quem gravou a música? Foi o vascaíno Jamelão, intérprete maior da História da Estação Primeira de Mangueira.

Os corintianos Adoniran Barbosa e Toquinho não podiam ficar fora desta Jogada. Adoniran compôs e gravou “Corintia, meu amor é o Timão”.

E Toquinho, grande parceiro do botafoguense Vinicius de Moraes, é o autor de “Corinthians do meu coração”, música que gravou, com participações de Sócrates e Osmar Santos, no disco “Aquarela”, de 1983. Então, vamos encerrar esta homenagem ao Timão, com Toquinho, Sócrates e Osmar Santos.

 

Por Eduardo Lamas