A botafoguense madrinha do samba

Cantada muitas vezes no Maracanã, no futebol Beth Carvalho só foi festejar mesmo em 89

“Chora, não vou ligar, não vou ligar, chegou a hora, vais me pagar, pode chorar, pode chorar…”. Como o histórico LP “De pé no chão”, que está completando 40 anos, iniciamos esta coluna com os primeiros versos de “Vou festejar, música de Jorge Aragão, Dida e Neoci. E o motivo é muito simples: entre o fim dos anos 70 e os 80, ela foi cantada diversas vezes a plenos pulmões por uma grande torcida carioca (e também de outros estados brasileiros) após uma vitória sobre um rival. Em dias de festa do futebol no velho Maracanã abarrotado de gente, a composição daqueles moços do Cacique de Ramos transformada em grande sucesso por Beth Carvalho no auge da disco music, ecoava para além dos limites do gigantesco estádio.

Chamada de madrinha, justamente por reunir a garotada ainda amadora do tradicional bloco carnavalesco da Zona da Leopoldina carioca, a cantora botafoguense, porém, poucas vezes pôde ver e ouvir a torcida do seu clube entoar “Vou festejar” naquela época de vacas magérrimas. Afinal, o Botafogo já ia pela metade de um jejum que duraria a eternidade de 21 anos sem títulos expressivos (tendo apenas um Torneio Início em 77 para chamar de seu).

No entanto, na euforia da conquista do campeonato carioca de 1989, com aquele gol de Mauricio sobre o Flamengo na final, Beth pôs sua alma alvinegra pelos poros, e da privilegiada garganta soltou finalmente o grito de “Botafogo campeão (esse é o Botafogo que eu gosto)” – ouça no áudio abaixo. A música foi composta por Elias da Silva, Pedro Russo e Mauricio Izidoro e, na voz da madrinha do samba e dos milhões de torcedores alvinegros, foi cantada inúmeras vezes após aquele título.

Anos depois ela gravou seu amor ao Botafogo novamente. Entretanto, esta e outras composições em homenagem ao clube do coração da mangueirense Beth Carvalho vamos deixar para um outro episódio, quando o tema for apenas o Glorioso de General Severiano. Até a próxima semana, com mais uma tabelinha sensacional entre música e futebol.

Por Eduardo Lamas

Uma dupla de ritmistas show de bola

Uma dupla de ritmistas show de bola

O futebol também faz parte do incrível repertório de Naná Vasconcelos e Airto Moreira

Cracaços da percussão, Naná Vasconcelos, falecido em 2016, e Airto Moreira emprestaram seus talentos imensos também para a criação de músicas que têm o futebol como tema. Com carreiras mais voltadas para o público estrangeiro, que talvez os valorizem mais que os brasileiros, Naná e Airto são duas lendas da percussão mundial, utilizando todo tipo de instrumentos, inclusive a voz, seja com letras poéticas, com vocalizações ou múltiplos sons.

O pernambucano Naná mostrou seu “Futebol” no álbum “Bush Dance”, de 1986, ano da segunda Copa do Mundo disputada no México. Torcedor do Santa Cruz, o percussionista que tocou com grandes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento e Egberto Gismonti, só para citar dois, e estrangeiros, como BB King, David Byrne, Jean-Luc Ponty e Pat Metheny, entre outros, faz com a voz o som da torcida e clama nesta música pelo futebol-arte: “Não deixe o futebol perder a dança, nem perder esse sorriso de criança”.

Em 2013, às vésperas da Copa das Confederações, Naná encerrou um texto que escreveu para a revista “Veja” fazendo uma tabela entre a música e o futebol: “Na música, o primeiro instrumento é a voz e o melhor instrumento é o corpo. No futebol, o primeiro instrumento é a bola e o melhor instrumento é o corpo, Creio que, como na música, os reflexos devem estar vivos, prontos para atingir o objetivo final. Das artes, a música é a mais imediata, porque mexe com os sentimentos. No futebol, o sentimento mais almejado é o da alegria do gol, da vitória que sempre engrandece o povo: “Não deixe o futebol perder a dança””.

Catarinense de Itaiópolis, Airto Moreira, que completará 77 anos no próximo domingo (5 de agosto), também tem e faz História na música. E mostrou que o seu ritmo também bate uma bola redonda. Como em “Mulata and futebol”, um sambão que termina com Airto narrando um gol imaginário, como muitos que marcou ao longo de sua brilhante carreira musical. Ouça abaixo:

Em 2002, Airto participou do CD “Mondo Head”, do grupo japonês Kodo, tocando em três faixas com composições suas: “Sange” (em parceria com Giovanni Hidalgo e Mickey Hart), “Maracatu” (com Kodo, Linda Tillery, Mickey Hart, Giovanni Hidalgo, Joey Blake, Sean Beresford, Rhonda Benin e Mike Freitas) e “Berimbau Jam”. E foi com “Maracatu” que Airto e o Kodo se apresentaram na abertura da Copa do Mundo de 2002, no Japão, minutos antes de a França, então campeã mundial, ser surpreendentemente derrotada pelo Senegal, por 1 a 0.

Busquei esta música em vários locais e não consegui encontrá-la inteira. Mas quem quiser ouvir 30 segundos da faixa e depois comprá-la ou mesmo o CD inteiro, é só clicar no link abaixo:

https://www.amazon.com/Maracatu-Album-Version/dp/B071RJC28L 

Airto é um velho conhecido do mundo do jazz. Convidado por Miles Davies para participar do disco “Bitches Brew”, de 1968, gravou mais dez com o trompetista. E foi com ele, que Airton tocou numa das bandas e num dos shows mais emblemáticos da História da música. Em 29 de agosto de 1970, no Festival da Ilha de Wight, Miles Davis entrou no palco frequentado pela nata do roquenrol para tocar apenas “Call it Anything” (“Chame de qualquer coisa”), uma viagem musical de aproximadamente 35 minutos. O timaço liderado por Davis, com seu trompete, formou ainda com Keith Jarret, no teclado; Chick Corea, no sintetizador; Gary Bartz, no sax; Dave Holland, no baixo; Jack DeJohnette, na bateria, e Airto Moreira, na percussão. Só uma blague futebolística: reparem no vídeo como Keith Jarret cabeceia bem o tempo todo.

O percussionista brasileiro – juntamente com sua mulher e parceira de palcos, a cantora Flora Purim – ainda tocou com o guitarrista mexicano Carlos Santana e o inspirou a gravar o disco “Borboletta” (1974), música de sua autoria.

 

Por Eduardo Lamas

Os times pernas de pau

Os times pernas de pau

Quem só dá de canela também tem música

A maior parte das músicas sobre futebol é de verdadeiras exaltações a clubes ou a grandes ídolos. Porém, a regra é clara: há sempre exceções. Portanto, aqueles torcedores revoltados com as péssimas atuações do seu time também podem rir um pouco de sua própria tristeza com uma composição inspiradíssima chamada “Time perna de pau”, de Vicente Amar. Esta música foi gravada pela primeira vez em 1956, pelo violinista Fafá Lemos, em um disco de 78 rotações por minuto (RPM). No mesmo ano, ele a lançou no LP “Fafá Lemos e seu violino com surdina”.

http://immub.org/album/fafa-lemos-e-seu-violino-com-surdina

No entanto, a versão mais conhecida é a cantada pelos Demônios da Garoa, grupo paulista que acompanhou o grande Adoniram Barbosa, e que a gravou em 1968.

Há várias músicas irônicas sobre jogadores ou times que estão de bola murcha e só dão de canela na redonda. Quando a acertam. Reis da embolada e do bom humor musical, Caju e Castanha gravaram para o CD “Levante a taça”, de 2006, ano da segunda Copa do Mundo realizada na Alemanha, “A Copa do perna de pau x Perneta”, autoria de Castanha e Téo Azevedo. Quem tiver acesso ao Spotify conseguirá encontrar o álbum inteiro, com esta música disponível.

Canelada, aliás, é nome de uma música instrumental que o baixista Celso Pixinga pegou de José Carlos Godoy e pôs em seu CD “O condutor” (2002), que tem outras faixas com temas futebolísticos: “Pro gol”, “Intervalo” e “Carrinho por trás”, todas dele, e “Apito final”, de Ricardo Marão. No álbum “Dupla Dinâmica” (2006), junto com o baterista Giba Favery, Pixinga regravou “Canelada”, que começa em 20min34 no vídeo abaixo em que o CD completo foi disponibilizado no canal do baixista no YouTube:

Com exceção dos fãs do Íbis, que é de Pernambuco como Siba, autor de “Meu time”, nenhum torcedor gosta de ver o seu clube do coração derrotado. Muito menos rebaixado. Imagine para a terceira divisão! Pois esta composição, já citada aqui na coluna Jogada de Música quando o tema foi o juiz.

Juiz de futebol, o eterno maldito

Foi feita quando o Santa Cruz caiu da Série B para a C, em 2007, logo depois de ter despencado da elite para a Segundona, um ano antes. Pior ainda viria, pois o Santinha seria rebaixado em 2008 para a Série D. Mas a letra que o recifense Siba canta acompanhado por sua banda, a Fuloresta, de Nazaré da Mata (PE), não cita o clube pernambucano, então pode servir para muitas torcidas tristes com a queda de seus times tentarem levar a derrocada numa boa.

Por Eduardo Lamas