A teimosia das previsões no futebol.

Esta coluna é escrita em 02 de novembro de 2017. Portanto, no dia seguinte à épica classificação do Flamengo sobre o Fluminense, 2 dias depois do Lanús ter alcançado uma virada histórica contra o River Plate, 3 dias após o Palmeiras, brigando pelo título brasileiro, ter empatado com o Cruzeiro no Allianz Parque e num período de derrocada do Corinthians. O Timão era tido por muitos analistas como o virtual campeão nacional ainda no primeiro turno do Brasileirão de 2017. Conjecturar é algo natural, mas no futebol as conjecturas estão sempre sendo desafiadas a se confirmarem.

Trivela uol

Quando o River Plate perdeu por 3×0 para o Jorge Wilstermann nas quartas de final da Libertadores de 2017, até o presidente boliviano chamou os jogadores do time da Bolívia de heróis. Poucos acreditavam na classificação dos argentinos, mas o River derrubou o prognóstico e enfiou 8×0 na partida de volta. Curiosamente os “Millonaros” fizeram 1×0 no primeiro jogo da semifinal contra o Lanús e abriram 2×0 no primeiro tempo da segunda partida. Mas o time da casa lembrou que o futebol é diferente e meteu 4 gols no adversário gigante. O River conseguiu ensinar como se ganha e como se perde, contrariando projeções dentro da mesma competição.

Jornal O Globo

Na Copa Sul-americana os comentários eram óbvios. Diziam que Fla x Flu não tem favorito e que as duas equipes faziam uma temporada irregular dentro de suas possibilidades. O Flamengo ganhou o primeiro confronto por 1×0 e foi o suficiente. A maioria das pessoas que falava a respeito da decisão dizia que o Rubro-negro estava classificado. Ninguém esperava, porém o Fluminense chegou a fazer 3×1 e deixou o rival em situação delicada. O Clube da Gávea precisaria fazer 2 gols em menos de 1 tempo e conseguiu. O silêncio se converteu em alucinação numa questão de minutos. Algo que só o futebol é capaz de proporcionar.

globoesporte.com

O Palmeiras estava a 17 pontos do Corinthians no Campeonato Brasileiro. O Timão era a quarta força do futebol paulista segundo especialistas no início da temporada. Foi campeão estadual e se isolou rapidamente na liderança do campeonato brasileiro. Após ter sido chamado até de campeão antecipado, o Corinthians teve uma queda vertiginosa e viu o Verdão se aproximar. Atualmente são 5 pontos de diferença a favor do clube Mosqueteiro , mas o viés é de queda, ao contrário do grande rival. Por mais que o time da fiel seja campeão, o prognóstico feito em cima de um título fácil já foi enterrado.

CAMPINAS,SP – 29.10.2017 – PONTE PRETA-CORINTHIANS – Lucca comemora primeiro gol da Ponte Preta, durante partida válida pela trigésima primeira rodada do Campeonato Brasileiro, realizada no estádio Moisés Lucarelli em Campinas, na noite deste domingo, 29. (Foto: Eduardo Carmim/Photo Premium)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O futebol foi inventado há mais de cem anos, se tornou o principal esporte do planeta, virou cultura, parou guerras, uniu povos e muito mais. Uma das características impressionantes que marca este jogo é a peculiar imprevisibilidade que o faz distinto. Contudo, o ser humano tem a estranha mania de fazer previsões a respeito de partidas e campeonatos. Há um legado centenário sendo ignorado. A história mostra a dificuldade de projetar qualquer situação em relação a resultados no futebol. Por que as pessoas teimam?

Um abraço!

A pujança das torcidas cariocas!

Crédito: Trivela – UOL

Este texto é escrito com base na emoção de quem acaba de chegar de um clássico entre Fluminense e Flamengo. Foi a primeira partida das quartas de final da Copa Sul-Americana de 2017 e o Rubro-Negro venceu por 1×0. Pouco importa o placar e, tampouco, quem fez o gol. O Fla x Flu serve apenas como base para a análise do contexto no qual o torcedor brasileiro está inserido atualmente. O Maracanã, palco mais conhecido do futebol nacional, não é mais tão imponente. Há inúmeros motivos para justificar esta afirmativa, porém é necessário ressaltar que existe resistência: as torcidas cariocas ainda fazem um barulho ensurdecedor no Maraca e esta é a motivação para a coluna de hoje.

Crédito: NETFLU

O Fla x Flu é dos jogos mais tradicionais do futebol brasileiro e no país há muitos duelos impactantes. Só o Rio de Janeiro apresenta o clássico da rivalidade, o dos milhões, das multidões, o vovô e outros. Acontece que na cidade maravilhosa existia um estádio especial e glamouroso, capaz de comportar mais de 100.000 pessoas nas emocionantes pelejas entre os clubes locais. Em outros tempos, o Fla x Flu da Sul-Americana teria mais de 60.000 pagantes. Em 2017, o público foi de apenas 27.014 pessoas. O estádio encolheu, o ingresso ficou muito mais caro, o produto é menos atrativo e a violência cotidiana assusta a todos os envolvidos no espetáculo.

Crédito: Fim de jogo

Gastaram bilhões de reais nos estádios para a Copa do Mundo de 2014 e ninguém se surpreendeu com as arenas que foram transformadas em “elefantes brancos”. A surpresa fica por conta do Maracanã ter sido sucateado e transformado num estádio praticamente inviável. O Maraca foi modernizado e depois abandonado, voltou a ser utilizado, mas ainda é caro para as instituições esportivas. O dinheiro que foi gasto não gerou retorno para o povo. Além da falta de atrativos, tudo que é relacionado ao local histórico se torna também alvo de exasperação para o contribuinte e este é mais um motivo para o afastamento do torcedor.

Crédito: Fim de jogo

Tendo tantas justificativas para ficar em casa, o sujeito pensa bastante antes de sair em direção ao local do jogo. Contudo, há um amor inexplicável em cada coração que é capaz de fazer o indivíduo mais centrado se encher de esperança e orgulho, enfrentar tudo o que foi mencionado e se dirigir ao grande palco. A arquibancada é a realização de quem sonha com algo abstrato e imensurável, a fim de ter uma alegria diferente do que é sentido na rotina diária. A imprevisibilidade do jogo ratifica que também é possível esperar o sucesso, mas cair na desolação da derrota. Talvez esta mistura de sentimentos impalpáveis seja a mola propulsora do cidadão que ainda se anima a sair do próprio lar para berrar na hora do gol.

Crédito: Flahoje

O carioca sofre com a mudança brusca na forma de lidar com o Maracanã e é acompanhado pelos outros brasileiros quando o assunto é a limitação na forma de torcer. Artigos para festa? Quase todos foram extirpados do futebol. Entretanto, como já foi dito, existem alguns que passam por cima de todas as situações para apoiar os clubes. O escritor tem ciência, pois está inserido na equação. Além de amar um time e participar de belíssimas festas em clássicos, o autor presenciou a magnífica apresentação das torcidas de Flamengo e Fluminense no primeiro confronto da Copa Sul-Americana 2017; um duelo de cores e cantos durante os 90 minutos. Tricolores e rubro-negros inspiraram esta coluna, mas poderiam ter inspirado um filme e o título seria: Resiliência e tradição!

Um abraço!

Por Fabiano Bandeira

Só falta de vontade?

O atual momento do futebol brasileiro é crítico. Não há um número expressivo de jogadores qualificados atuando no país, o perfil tático das equipes ainda é desenvolvido de maneira atrasada em relação a outras escolas, muitos clubes têm problemas financeiros e falta competência aos que têm dinheiro sobrando. Apesar de todas as questões citadas acima, os torcedores de grande parte dos times brasileiros insistem em pedir raça, vontade ou disposição em caso de derrota ou má campanha. Existem muitas equipes grandes no Brasil e todas as torcidas exigem vitória. O problema é que nem todas podem ganhar e quando um time perde, o discurso externo gira em torno da falta de vontade. Este é o único problema?

A análise superficial não é novidade no futebol e tampouco é mentira que haja falta de disposição em alguns jogadores ou times durante um certo período. Há vários motivos que fazem atletas e até grupos inteiros ficarem desmotivados. Entretanto, a discussão aqui proposta é a respeito da utilização do termo “falta de vontade” para explicar derrotas que deveriam ser analisadas num contexto macro. A avaliação minimalista faz com que surja apenas um novo “mantra” que não tem nada a acrescentar ao futebol nacional. A imprensa poderia ser um canal de elucidação para mostrar que o problema de um time derrotado pode não ser apatia ou falta de raça. Existem outros componentes importantes no jogo.

Em 2017, Palmeiras e Flamengo são as equipes mais cobradas por torcidas e imprensa, pois os departamentos de futebol receberam alto investimento e a expectativa gerada no início da temporada não foi concretizada dentro de campo. Ouviu-se no Fla x Flu do segundo turno do Brasileirão: “Pra jogar no Flamengo tem que ter disposição”. Contudo, foi pelo excesso de vontade que o lateral Pará fez um gol contra. O que faltou ao jogador foi técnica e controle do próprio corpo. Não se empata um Fla x Flu estando sem vontade. Quando não há disposição num clássico, o adversário goleia. No Palmeiras, a cobrança é ouvida da seguinte maneira: “Muito dinheiro para pouca obrigação”. O mesmo Palmeiras que, com 2 jogadores a menos, empatou com o Atlético Mineiro no Estádio Independência.

Falta avaliar o contexto de forma mais contundente. Pouca gente questiona os motivos do Flamengo ter pago milhões de reais para contratar o goleiro Muralha. Como um clube voando financeiramente não tem uma opção viável para substituir Guerrero no ataque? Márcio Araújo é voluntarioso, mas não possui técnica para ser titular de um clube como o Flamengo. Falta vontade a quem? Ao ídolo Juan? E no Palmeiras? O responsável pelos reforços era chamado de mito e algumas contratações não deram certo. Existem fatores que podem ajudar a explicar o insucesso do Palestra. A rotatividade de treinadores, o elenco inchado e, pasmem, o excesso de vontade de Felipe Melo contribuíram para o conturbado ambiente da equipe em 2017. Contraditório?

O Botafogo tem poucos recursos, mas o técnico Jair montou um esquema bem alinhado e fez com que o grupo se doasse ao máximo. A equipe teve boa participação na Libertadores, mas após a eliminação acabou perdendo jogos no Brasileiro. O que a torcida pediu? Vontade. A bola parou de entrar e o discurso já estava pronto. Acontece que Jair resolveu fazer com que o Glorioso começasse a ter mais a bola no pé. Os jogadores não possuem característica de proposição e a pelota roda pra lá e pra cá sem objetividade. A faltaa de técnica e a mudança no jeito de atuar fazem com que o time pareça apático, quando na verdade é limitado. O Botafogo fez 2 gols aos 50 do segundo tempo em uma semana. Time indisposto não alcançaria tal feito.

Não faltam apenas vontade, disposição e garra. O futebol brasileiro precisa se reinventar. A falta de planejamento adequado e organização é incompetência dos gestores. O volume de dinheiro mal gasto é impressionante e o foco acaba sempre nos jogadores que não conseguem vencer uma ou duas partidas. É extremamente complicado obter êxito em uma ou mais competições quando os diretores, por exemplo, não conhecem a linha de trabalho do treinadores. Demitem o técnico que utiliza o sistema “X” e vão ao mercado buscar o novo comandante da equipe. Tentam o homem que trabalha no sistema “Y”, procuram o do sistema “Z” e contratam o do sistema “X-y”. O time perde duas seguidas e a torcida grita: “Queremos raça, queremos raça…”

Um abraço!

Por Fabiano Bandeira