Chapecoense é coração e uma aula de gestão.

A Chapecoense é atualmente a equipe mais homenageada do futebol mundial. Dificilmente alguém ligado ao esporte não conhece a história do trágico acidente que infelizmente matou muitos integrantes do elenco, da comissão técnica e da direção do clube, além de membros da imprensa em 2016. Contudo, hoje a coluna trata da visão profissional da instituição que serve de exemplo para muitas outras no futebol brasileiro. A Associação Chapecoense de Futebol está de volta à Copa Libertadores da América.

Após o acidente na Colômbia, ninguém sabia o que poderia acontecer com o clube de Chapecó e muitas pessoas se dispuseram a ajudar. Equipes brasileiras e estrangeiras tentavam apontar soluções, mas na prática poucos adversários foram capazes de estender a mão à Chape. Algumas ajudas oferecidas foram rechaçadas, pois não faziam parte do processo de reconstrução pretendido pela diretoria. Em determinada entrevista, um diretor da Chapecoense disse que não aceitaria qualquer tipo de jogador ou treinador. Inclusive, o gestor deixou claro que os chamados medalhões dificilmente se encaixariam no perfil do clube.

Antes do acidente, a Chape havia traçado um caminho consistente até a primeira divisão nacional e muito por conta da séria e competente administração, o clube praticamente nunca chegou perto de ser rebaixado. Após a tragédia, algumas equipes sugeriram que a Chapecoense tivesse imunidade contra o rebaixamento durante algum tempo. A ideia não foi a frente e o time catarinense se reorganizou de maneira exemplar, não se perdeu em meio ao caos e conseguiu se manter com dignidade. O processo foi custoso, mas rendeu frutos imediatos e surpreendentes.

Além de não cair, o Verdão do Oeste aproveitou a farra de vagas disponibilizadas ao Brasil para a Copa Libertadores, subiu degrau por degrau e no último minuto do Brasileirão assegurou a classificação para a principal competição do continente em 2018. Túlio de Melo fez o gol da vitória por 2×1 sobre o Coritiba e devolveu à cidade de Chapecó o brilho no olhar de quem ama um clube que nunca mais será esquecido no planeta. A Chapecoense ainda emociona o mundo, mas não se aproveita da comoção alheia para alcançar grandes feitos esportivos.

O orçamento da Chapecoense é muito curto se comparado ao dos grandes clubes e manter a austeridade financeira é o primeiro passo para que não surjam dívidas que travem o andamento da instituição. A observação de atletas em diferentes níveis faz com que se possa montar um elenco capaz de equilibrar a disputa nos principais campeonatos do país. Mapeamento de mercado exige trabalho árduo. Só profissionais capacitados encontram jogadores através de boas oportunidades no exigente modelo do futebol atual. A Chapecoense faz parte do seleto grupo dos competentes. O resto é dinheiro mal gasto.

Um abraço!

 

Por Fabiano Bandeira

O Grêmio de Renato ensina muito

Assim como o Corinthians campeão brasileiro de 2017 ensina que o conjunto fala mais alto que as individualidades no futebol atual, o Grêmio vencedor da Copa Libertadores do mesmo ano reafirma esta condição e mostra que é possível jogar convincentemente e triunfar. O Tricolor prova que é possível ganhar a América atuando de forma qualificada e substituindo peças importantes por outras que se encaixem no esquema do treinador. Por falar em Renato Gaúcho, é salutar compreender a importância do ídolo gremista. O título sobre o Lanús posiciona Renato entre as figuras mais importantes do futebol nacional em todos os tempos.

O Renato desacreditado que voltara ao Grêmio em 2016 havia mudado. Poucos criam, mas o treinador, embora brincasse dizendo que estava na praia enquanto os outros estudavam, desenvolveu um modelo de jogo ofensivo para a equipe gaúcha. Ganhou a Copa do Brasil de 2016 com brilhantismo e fez com que jogadores desconhecidos subissem de patamar. Pedro Rocha se tornou um grande nome nas finais da competição nacional e não resistiu a uma proposta do exterior antes do fim de 2017. Renato também perdeu o camisa 10 Douglas e o capitão Maicon contundidos. Walace, uma das referências do time, foi para a Alemanha e Arthur foi encontrado, vestiu a camisa e se tornou um dos craques do time.

A importância do treinador, dos treinamentos e do conjunto é vista nitidamente na equipe do Grêmio, pois grande parte dos jogadores que encorpam o elenco estavam na curva descendente da carreira. Paulo Vitor foi chutado do Flamengo, Edilson expulso do Botafogo, Cortês andava sumido, Cícero encostado no São Paulo, Cristian largado no Corinthians, Jael desaparecido no futebol, Léo Moura havia sido rebaixado com o Santa Cruz, Barrios não tinha espaço no Palmeiras e Fernandinho não deixou saudades na Gávea. Todos os atletas mencionados tiveram importância em algum momento da temporada. O Grêmio venceu a Libertadores, mas foi bem na Copa do Brasil e no Campeonato Brasileiro.

As peças que estavam em baixa no mercado do futebol se juntaram a nomes como Marcelo Grohe, Geromel, Arthur e Luan. Renato Gaúcho conseguiu extrair o melhor de quem tem muito talento e a dedicação dos que precisam se doar mais em prol do grupo. O treinador teve coragem e capacidade para montar uma equipe forte, confiou no próprio trabalho e fez o gigante tricolor do Rio Grande do Sul dominar a América. Agora campeão da Copa Libertadores, como jogador e treinador, Renato tem razão em pedir uma estátua própria em Porto Alegre. Muitos podem não gostar, mas é impossível negar a competência do “fanfarrão do bem” dentro do futebol.

Um abraço!

A “iDRONEidade” gremista.

O futebol é realmente um esporte sui generis. É difícil entender como um jogo mexe tanto com o seio da sociedade e causa as mais diversas reações na vida do ser humano. É cultural, neste meio, o cultivo da polêmica e a mais recente é no mínimo inusitada: a artimanha do Grêmio na utilização de um drone para espionagem dos adversários. A repórter Gabriela Moreira da ESPN apurou durante praticamente meio ano a estratégia do Tricolor e a manchete foi ao ar na semana da final da Libertadores entre time gaúcho e o Lanús da Argentina causando uma série de debates a respeito da ética no futebol.

 Mídia Bahia

Discute-se a respeito de valores no esporte, pois o que foi feito por parte da equipe gaúcha não é ilegal, mas para muitos é imoral. O Grêmio pagou carro, passagens de avião, hospedagens, alugou apartamento perto de um estádio e deu todas as condições para que uma pessoa pudesse capturar as imagens dos treinos fechados dos rivais. Com as informações, o time de Renato Gaúcho pôde se preparar para não ser surpreendido e antecipar situações durante as partidas. Indagado a respeito da polêmica estratégia, Renato disse que o mundo é dos espertos.

 ESPN Brasil Uol

O pensamento do treinador não é novo e faz parte de um contexto maior. Não será posto em dúvida o caráter dos envolvidos, mas a necessidade de ganhar a todo custo faz com que a sociedade se torne cada vez mais egoísta. Seria utópico pensar que no futebol os adversários pudessem dar armas uns para os outros. Porém, invadir o espaço e a privacidade de um time para tirar proveito dentro de qualquer competição é descabido e antiético. Se a moda pegar, pode ser que ocorram verdadeiras batalhas no espaço aéreo. Os times que foram prejudicados em alguma oportunidade também vão querer tirar proveito.

  Folha PE

O Grêmio reclama da imprensa por vários motivos e o principal é o momento no qual a matéria foi ao ar. Renato Gaúcho, diretores e torcedores acusam a mídia. Não se sabe quando a ESPN desejava soltar a reportagem, mas como o responsável pelo drone descobriu que estava sendo seguido na Argentina antes da semana da final da Libertadores, a divulgação foi provavelmente antecipada. O momento é de reflexão e para isto surgem duas perguntas: O que você pensaria se o seu time tivesse sido prejudicado pelo drone? O que você acharia da imprensa se o seu clube tivesse numa final e a mídia divulgasse história semelhante dias antes da partida? São duas vertentes. Não é fácil.

 Globoesporte

Um abraço!