Flamengo e Vasco em alta temperatura 

Flamengo e Vasco em alta temperatura 

Abel Braga e Alberto Valentim chegam pressionados pra a final do Carioca

Flamengo e Vasco fazem depois de duas semanas mais uma final. Mas essa é para valer, não é igual a do dia 31 de março, que valia apenas um turno e uma taça honorífica. Agora, o vencedor entra para a história. Eu sou daqueles que acreditam que estadual ainda vale muito. Nessa época de cultura global do esporte, é bom dar valor à tradição.

Os dois times têm motivações diferentes nesta disputa. O Flamengo tem quase que “obrigação moral” de levar o campeonato. Não dá para comparar a diferença de investimentos entre os dois rivais. Além disso, o Flamengo precisa ter um ano vencedor, o título estadual pode motivar para o restante da temporada.

O Vasco ainda não perdeu para o Flamengo em 2019. Foram dois jogos e dois empates. Logo, dentro de campo essa decantada superioridade não prevaleceu.  Os cruzmaltinos têm motivos para acreditar que depois de 31 anos poderão vencer um confronto direto pelo título contra os maiores rivais.

Os dois técnicos chegam fortemente questionados a essa final. Abel Braga não consegue dar padrão de jogo ao Flamengo. No sábado, contra o Fluminense, se classificou por conta do regulamento. O técnico insiste com William Arão. E para enfurecer a torcida, tem uma cisma com Arrascaeta, a contratação mais cara da história do clube. O uruguaio entrou no Fla-Flu e em poucos minutos reorganizou o Flamengo.

Alberto Valentim também não conta com a paciência dos torcedores. Na semana passada, sites da torcida vascaína davam mais de 80% de taxa de rejeição ao técnico. Valentim é um treinador pragmático, que pensa mais na defesa e depois pensa em fazer os gols.

No meio da semana Flamengo e Vasco têm jogos importantíssimos por campeonatos cujos títulos valem mais do que o do estadual. As partidas valem muito para o restante do ano. O Flamengo enfrenta o San Jose no Maracanã e precisa vencer para manter chances de classificação para as oitavas da Libertadores. O Vasco vai a Santa Catarina pegar o Avaí, podendo até empatar pela Copa do Brasil.

Se Gabriel comemorou seu gol dando um beijo na testa de Abel Braga, o vestiário do Vasco da Gama está em polvorosa. Depois da vitória sobre o Bangu, o comandante vascaíno demorou uma hora e meia para aparecer e dar entrevista. Há informações de que Maxi Lopéz está insatisfeito por não estar sendo relacionado e de que Thiago Galhardo praticamente colocou ponto final na sua trajetória em São Januário.

O único título que Abel venceu pelo Flamengo foi um estadual, em 2004, contra o próprio Vasco. Naquela vez o técnico contava com Felipe jogando muita bola e na segunda partida da final assistiu à melhor partida da carreira do atacante Jean. O rubro-negro fez três gols. Detalhe, Jean admitia que era um atacante que não sabia chutar. Alberto Valentin é o atual campeão carioca. Venceu em 2018, pelo Botafogo, contra o… Vasco.

Os dois treinadores “devem” alguma coisa aos seus times. Valentim por ter vencido o campeonato no ano passado. Abel Braga por ter sido o técnico que comandou o Flamengo numa das grandes decepções do século, a perda da Copa do Brasil para o São Caetano, em pleno Maracanã, no ano de 2004.

Bem, senhores, é Flamengo e Vasco. Um jogo desses é importante até no meio do campeonato, quanto mais valendo título. É indiscutível que antes da bola rolar, o Flamengo é favorito, mas em outros momentos da história, o favorito no papel não levou a taça. Dia 21 de abril, às seis da noite, alguns vão sorrir e outros vão chorar. Porque como ensina Guilherme Arantes: “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”.

Por Creso Soares

Arrascaeta, mas poderia se chamar Rondinelli

Arrascaeta, mas poderia se chamar Rondinelli

Gol de uruguaio lembra o do Deus da Raça em 1978

 

Alexandre Vidal / Flamengo

Antes de mais nada, como rubro-negro, fiquei extremamente feliz por ter ganhado um título. Mesmo que seja apenas um turno do Campeonato Carioca.  O título da Taça Rio é uma honraria, que como efeito prático dá a vantagem de jogar por um empate para conseguir a vaga na final do Carioca. Das quatro semifinais já ocorridas neste campeonato, duas no primeiro turno e duas no segundo, apenas o Vasco fez valer a vantagem, quando derrotou o Resende na semifinal da Taça Guanabara. Nas outras três, quem jogava pelo empate perdeu. O Flamengo para o Fluminense no primeiro turno, o Fluminense para o Flamengo no segundo turno e o Bangu para o Vasco, também no segundo do turno. Logo, estatisticamente, a vantagem que o Flamengo adquiriu neste domingo não é garantia de nada na semifinal do Carioca.

 

Como escrevi numa rede social, pragmaticamente, enfrentar o Bangu na semifinal do carioca seria mais vantajoso do que encarar o Fluminense. O time treinado por Fernando Diniz, apesar de ter nomes menos expressivos do que o Flamengo, fez três jogos duríssimos contra o time da Gávea. A rivalidade nivela o confronto. Com a classificação do Tricolor às semifinais, o campeonato carioca tem quatro postulantes ao título. Se o Fluminense tivesse sido eliminado, o número de candidatos ao Carioca seria de apenas três.

 

A história do esporte é pródiga em casos de pragmatismo. A Alemanha Ocidental, por exemplo, perdeu para a Alemanha Oriental na Copa de 1974 para evitar enfrentar Brasil e Holanda. Vou parar os exemplos por aqui. Então, o Flamengo tinha todo direito de colocar o time reserva na decisão da Taça Rio e o torcedor que não achava o pior dos mundos perder a decisão do turno para o Vasco não é anti-flamengo, anti-patriota e outras besteiras que andaram escrevendo nas redes sociais.

 

Espero que os três parágrafos iniciais tenham explicado aos incautos que esse rubro-negro aqui não torceu contra seu clube de coração. O que aconteceu no Maracanã foi uma partida equilibrada, em que o empate no tempo normal foi um resultado justo. Se tenho alguns questionamentos sobre o sistema de jogo que Abel Braga quer implementar, de uma coisa não se pode reclamar. O Flamengo atual não desiste. Buscou a vitória contra o Fluminense aos 49 do segundo tempo e arrancou um empate do Vasco aos 48. Ou seja, estava lutando pelo objetivo até o último momento. Isso pode ser colocado na conta de Abel, um técnico que vibra com o time o tempo todo.

 

Na decisão da Taça Rio, Vitinho e Arrascaeta procuraram jogo o tempo inteiro. Batalharam e foram premiados. Pode parecer sacrilégio, mas a cabeçada do uruguaio me fez lembrar o gol de Rondinelli na final de 1978 contra o mesmo Vasco. O cruzamento veio pelo mesmo lado, além disso, a corrida e a força do “tiro” de cabeça  de Arrascaeta foram semelhantes as do Deus da Raça.

 

Conseguir o empate naquelas circunstâncias deixou a moral da equipe muito elevada para a disputa de pênaltis. As cobranças de Vitinho. Arrascaeta e Uribe foram perfeitas. O Flamengo tem um grave problema. Rodinei está com a confiança em frangalhos. Sua cobrança mal feita quase coloca tudo a perder. Mas  Cesar se mostrou seguro  Rossi, Thiago Reis e Werley não controlaram os nervos.

 

O Flamengo vai forte para mais um Fla-Flu. É a terceira semifinal entre os dois nesse campeonato de regulamento esdrúxulo. Na primeira deu Flu, na segunda deu Fla. A terceira é a que vale de verdade. Quem ganhará? Os dois times tem razões de sobra para se estimular. O Flamengo por ter vencido um turno que parecia já ter ido para o espaço, o Fluminense por ter se classificado no último minuto, quando parecia ter entrado em férias forçadas. Depois de três meses enfadonhos começa o Campeonato Carioca. São mais 4 partidas para ser conhecido o grande campeão de 2019.

Por Creso Soares

Camisa 10 para Trump?

Camisa 10 para Trump?

Uso político desgasta a identidade da seleção brasileira

Voltava de uma prosaica ida à feira quando reparei no homem que andava na minha frente. Meus olhos foram atraídos para a anatomia das pernas dele. A perna direita fazia um arco para dentro. Olhei acima da cintura para ver se ele estava vestindo a camisa 7 do Botafogo ou da seleção. Acho que havia coincidência anatômica entre ele e Garrincha. Antes que começasse a acreditar que estava tendo uma visão mediúnica, despertei do transe. Ao ver as roupas remendadas, vi que aquele homem precisava driblar “Joões” bem mais cruéis do que aqueles enfrentados por Mané nos campos. Fora das quatro linhas, o andar trôpego do meu personagem mostrava que os adversários dele e de Garrincha eram semelhantes.

Fiquei pensando em Mané por causa da votação que colocou Messi à frente de Pelé como o maior de todos. Discordo que Messi tenha sido melhor do que Garrincha, ainda mais que superou o Rei. O maravilhoso craque Argentino não é sombra do que Garrincha conseguiu fazer na Copa de 1962. Aos que quiserem limitar o “Anjo das Pernas Tortas” ao folclore de ter o mesmo drible, recomenda-se assistir os quase pré-históricos vídeos do mundial no Chile. Garrincha fez gol de cabeça, de perna esquerda, de folha-seca, num repertório que parecia inesgotável. Ah, é claro, também deu suas invencíveis arrancadas pela ponta pata deixar companheiros na cara do gol.

Messi é maravilhoso, mas não chegou ao nível nem do Maradona, quanto mais de Garrincha e Pelé. O problema com Mane foi a brevidade de seu auge. O corpo era tão singular que se constitui em um fenômeno ele conseguir ser fulgurante pelo tempo que foi.

Essa evocação ao eterno camisa 7 da seleção me fez refletir sobre a camisa brasileira entregue pelo presidente Bolsonaro ao inominável Donald Trump. O escrete canarinho era um xodó de todo torcedor. No entanto, a vulgarização com jogos caça-níqueis, a instabilidade política na CB, a roubalheira na entidade e os resultados pífios em campo afastaram muitos torcedores do que já foi o maior orgulho nacional. Para piorar, mais um problema: a mistura de esporte e política é nociva. Essa praga não é nova. Na cortina de ferro rendeu superatletas com resultados irreais fabricados por doping. No Brasil, o exemplo pode ser no uso da seleção para a propaganda da Ditadura Militar após a vitória de 1970.

Confesso que a camisa 10 e o nome de Trump nela me deram engulhos. Ele não deve nem saber quantas substituições podem ser feitas numa partida e, certamente, chama o esporte de Soccer. Os gênios que já usaram essa camisa e não estão mais aqui para reclamar devem estar se revirando na órbita celeste. Fico imaginando Sócrates, politizado ao extremo, vendo essa cena.

A camisa 10 da seleção dada a Donald Trump só confirmou algo que já sinto há um tempo. O time da CBF não me representa. Os comandantes do futebol brasileiro mataram a galinha dos ovos de ouro. Em vez de identidade nacional, virou um tecido sintético, distribuído com a intenção de fazer politicagem. Não odeio a seleção. Só não a tratarei como o meu segundo do time. Olharei para ela como se olha para um time qualquer. Garrincha, por exemplo, não está mais lá.

Por Creso Soares