Camisa 10 para Trump?

Camisa 10 para Trump?

Uso político desgasta a identidade da seleção brasileira

Voltava de uma prosaica ida à feira quando reparei no homem que andava na minha frente. Meus olhos foram atraídos para a anatomia das pernas dele. A perna direita fazia um arco para dentro. Olhei acima da cintura para ver se ele estava vestindo a camisa 7 do Botafogo ou da seleção. Acho que havia coincidência anatômica entre ele e Garrincha. Antes que começasse a acreditar que estava tendo uma visão mediúnica, despertei do transe. Ao ver as roupas remendadas, vi que aquele homem precisava driblar “Joões” bem mais cruéis do que aqueles enfrentados por Mané nos campos. Fora das quatro linhas, o andar trôpego do meu personagem mostrava que os adversários dele e de Garrincha eram semelhantes.

Fiquei pensando em Mané por causa da votação que colocou Messi à frente de Pelé como o maior de todos. Discordo que Messi tenha sido melhor do que Garrincha, ainda mais que superou o Rei. O maravilhoso craque Argentino não é sombra do que Garrincha conseguiu fazer na Copa de 1962. Aos que quiserem limitar o “Anjo das Pernas Tortas” ao folclore de ter o mesmo drible, recomenda-se assistir os quase pré-históricos vídeos do mundial no Chile. Garrincha fez gol de cabeça, de perna esquerda, de folha-seca, num repertório que parecia inesgotável. Ah, é claro, também deu suas invencíveis arrancadas pela ponta pata deixar companheiros na cara do gol.

Messi é maravilhoso, mas não chegou ao nível nem do Maradona, quanto mais de Garrincha e Pelé. O problema com Mane foi a brevidade de seu auge. O corpo era tão singular que se constitui em um fenômeno ele conseguir ser fulgurante pelo tempo que foi.

Essa evocação ao eterno camisa 7 da seleção me fez refletir sobre a camisa brasileira entregue pelo presidente Bolsonaro ao inominável Donald Trump. O escrete canarinho era um xodó de todo torcedor. No entanto, a vulgarização com jogos caça-níqueis, a instabilidade política na CB, a roubalheira na entidade e os resultados pífios em campo afastaram muitos torcedores do que já foi o maior orgulho nacional. Para piorar, mais um problema: a mistura de esporte e política é nociva. Essa praga não é nova. Na cortina de ferro rendeu superatletas com resultados irreais fabricados por doping. No Brasil, o exemplo pode ser no uso da seleção para a propaganda da Ditadura Militar após a vitória de 1970.

Confesso que a camisa 10 e o nome de Trump nela me deram engulhos. Ele não deve nem saber quantas substituições podem ser feitas numa partida e, certamente, chama o esporte de Soccer. Os gênios que já usaram essa camisa e não estão mais aqui para reclamar devem estar se revirando na órbita celeste. Fico imaginando Sócrates, politizado ao extremo, vendo essa cena.

A camisa 10 da seleção dada a Donald Trump só confirmou algo que já sinto há um tempo. O time da CBF não me representa. Os comandantes do futebol brasileiro mataram a galinha dos ovos de ouro. Em vez de identidade nacional, virou um tecido sintético, distribuído com a intenção de fazer politicagem. Não odeio a seleção. Só não a tratarei como o meu segundo do time. Olharei para ela como se olha para um time qualquer. Garrincha, por exemplo, não está mais lá.

Por Creso Soares

Comentarista ou torcedor?

Comentarista ou torcedor?

Edmundo precisa se decidir

A brincadeira de postar #Vasco aleatoriamente no Facebook foi o sucesso dos últimos dias na Grande Rede. Parabéns ao ex-jogador e atual comentarista Edmundo. Ele conseguiu mobilizar a torcida cruzmaltina, embalada pelo título invicto da Taça Guanabara. O animal continuou a brincadeira, dizendo que os vascaínos deveriam replicar São Januário quando os rubro-negros respondessem aos posts #Vasco. É a maneira de cutucar o rival que não tem estádio próprio. O que seria do futebol sem a zoeira? Um joguinho cerebral em que 22 seres humanos querem colocar a bola com os pés num retângulo de 2,44 m X 7,32m.

Exerço minha profissão há 22 anos. Nunca escondi meu time. Na verdade, uma vez escondi. Estava na porta de São Januário no dia 22 de dezembro de 2000, aguardando a chegada do time que acabara de vencer a Copa Mercosul numa virada histórica sobre o Palmeiras. Realmente, no meio da torcida vascaína não era um lugar seguro para que as pessoas soubessem a paixão que me movia no futebol.

Mas voltando ao fato de não esconder o time, acho que não há problema mesmo. Minha questão com a brincadeira de Edmundo não é o fato dele torcer, mas sim a insinuação sobre a falta de estádio do Flamengo. Isso pode inviabilizar, por exemplo, a escalação dele em jogos do Rubro-Negro. A partir de agora sempre haverá suspeita que suas análises serão influenciadas por dar a entender que não gosta do Flamengo.

Talvez Edmundo do devesse observar a conduta de Junior. Um ídolo muito mais identificado com o Rubro-Negro do que o Animal com o Vasco. Afinal, a única camisa que o Maestro defendeu no Brasil foi a do Flamengo. Mesmo assim, ele não faz qualquer referência pejorativa aos outros clubes. Logo, ele pode ser escalado num jogo do Vasco sem tanta rejeição.

Juninho Pernambucano, outro ídolo vascaíno, andou escorregando ao dizer que a torcida do Flamengo era preconceituosa com Renê porque o lateral é nordestino. Levou uma saraivada de críticas. Ou seja, Juninho deixou a rivalidade da época do campo campo atrapalhasse seu julgamento. Ele generalizou e escorregou feio

Edmundo foi um dos grandes jogadores que vi atuar. Sua temporada em 1997 se acontecesse na Europa. Provavelmente, o credenciaria a disputar o título de melhor do mundo. No entanto, fora de campo não é o melhor exemplo a ser seguido. Edmundo agora é comentarista, não é torcedores arquibancada. Comentarista comenta e deixa as zoações com os torcedores.

E por falar em comentar, graças a derrota do Vasco para a Cabofriense, a Taça Rio pode ser classificada como festa dos pequenos. Ao fim da quarta rodada, apenas o Fluminense está na zona de classificação para as semifinais. No grupo de Flamengo e Botafogo, as primeiras colocações estão com Cabofriense e Bangu. Já o Volta Redonda tira o Vasco e faz companhia ao tricolor na classificação pra as semifinais da Taça Rio. Não há motivo para desespero, ainda faltam duas rodadas para o fim do turno. Mas que é curioso, é.

 

Por Creso Soares

Água de salsicha rubro-negra

Água de salsicha rubro-negra

Décima partida de Abel Braga mostra um time previsível e sem padrão. 

Torcedor do Flamengo, acostume-se: com Abel Braga o estigma do cheirinho vai continuar. E agora, com um time caríssimo cheio de medalhões. Com 10 jogos oficiais no comando da equipe, o treinador deixou o Flamengo com uma característica marcante: a previsibilidade.

As entradas de dois Brunos foram uma síntese do jogo de sábado entre Vasco e Flamengo. Bruno Cesar, o cruzmaltino, entrou para dar volume de jogo ao Vasco e pressionar o Flamengo. Bruno Henrique, o rubro-negro, entrou para ser a opção de contra-ataque.

O Flamengo fez 1 a 0 no começo do segundo do tempo. Em vez de liquidar o jogo, deu campo ao Vasco. Abel faz em 2019  o que técnicos como Antonio Lopes faziam em 1997. Saía na frente do marcador e recuava para jogar no contragolpe.

Duas décadas de previsibilidade dão nisso, com um adversário mais qualificado as chances de vitória caem drasticamente. E o Vasco é muito mais qualificado que o San Jose, por exemplo.. O Flamengo permitiu que os vascaínos tomassem a iniciativa. E a vida ensina: “água mole em pedra dura”…

“Ah, campeonato estadual não vale nada”, diriam alguns. Pode até ser, mas Flamengo e Vasco vale muita coisa. Um técnico que não entende isso não está preparado para comandar o time. Na décima partida do ano, o treinador achou que poderia escalar um time reserva contra o maior rival na cidade.

Duas coisas a se questionar. A primeira: o Flamengo está no momento da busca de identidade e de padrão tático. Abel Braga teria que aproveitar esse momento para apostar no seu 11 titular, entrosar, se firmar e ganhar rodagem. Em vez disso, mexe desordenadamente na equipe. Então, em vez de entrosamento, gera insegurança na equipe.

Uma grande prova dessa insegurança foi o jogo aéreo na partida de sábado. O Vasco ganhou a maioria absoluta das jogadas pelo alto na área do Flamengo. Todos os escanteios eram perigosos. O sistema defensivo do Flamengo tem uma falha de posicionamento provocada pelas constantes modificações. Nem isso Abel está ajeitando.

Ainda é tempo de mudar de rota. Abel tem que entender o que é o Flamengo. Os 15 anos entre as duas passagens do treinador pela Gávea o deixaram defasado. O Flamengo não tem espírito de “timinho” que joga fechado, por uma bola. As tradições do rubro-Negras pedem um time aguerrido que pressione o adversário o tempo todo.

O Flamengo é irracional, flamejante, apaixonado. O rubro-negro berra, se irrita, tira sarro da cara do rival e anda com a cabeça em pé. Olha o adversário que o intuito de intimidar e dizer: quem manda nessa zona sou eu”.

Abel não é esse tipo de técnico. Então, esse time, mesmo se conseguir ganhar alguma coisa, não será o Flamengo. Será um campeão qualquer. Mas como as coisas estão caminhando, mais um ano sem conquistas relevantes se aproxima. O Flamengo não venceu os dois confrontos mais importantes do ano. Perdeu para o Fluminense e empatou com o Vasco.

Um time que quer se tornar campeão não pode ter alguns jogadores que vestem a camisa do Flamengo atualmente.  Não vou citar nomes. Uma olhada no jogo de sábado pode deixar claro a quem me refiro. Aliás, vou citar um nome sim. Ronaldo pode fazer o papel de segundo volante melhor do que Willian Arão.

O Flamengo é um bando. Uma equipe previsível e sem padrão de jogo. Em resumo, um desperdício de talento e dinheiro. Um futebol paquidérmico, que será vítima de uma equipe minimamente organizada. O rubro-negro joga um futebol “água de salsicha “.