Flamengo líder na parada para a Copa

Flamengo líder na parada para a Copa

Rubro-negro tem o desafio de não desmontar o time 

Vinicius Jr olha para a torcida. Ele caminha em direção à arquibancada. Sobe a escadinha que une o campo aos torcedores, configuração modernosa do Maracanã em versão “arena”. O garoto de 17 anos se joga literalmente nos braços do povo. Depois de ouvir o coro de “Fica Vinicius”, ele concede uma entrevista ao repórter do Premiere. No meio da resposta, o ídolo se revela o garoto de 17 anos. Esconde o rosto com a camisa e começa a chorar. Com os olhos ainda vermelhos relembra as dificuldades e como o Flamengo o ajudou a mudar de vida. Vinicius vai despertando e o jogador treinado para dar respostas que não o comprometam volta à cena. Vinicius Jr mudou de vida e ganhará mais dinheiro do que 99% dos brasileiros. Para isso, teve a infância roubada e o gosto de se tornar ídolo do time do coração interrompido. Virou gente grande e vai para a Europa. Ao voltar daqui a uns 15 anos, já longe do apogeu, talvez possa retomar o sonho de onde parou.

Vinícius Júnior/Gilvan de Souza

A saída de Vinicius Jr espelha o desafio que o Flamengo terá durante a parada do Brasileirão para a Copa: não desmontar o time. Maurício Barbieri está vencendo resistências, vencendo e convencendo. Na vitória de 2 a 0 sobre o Paraná o time mostrou as qualidades que o deixaram na liderança. No entanto, Barbieri pode ver esse trabalho se perder por alguns aspectos. Vinicius Jr conseguiu suprir muito bem a saída de Everton para o São Paulo, mas vai sair. O jovem técnico terá que pensar numa solução para isso. Especula-se que dificilmente Paquetá, atualmente o melhor jogador do Flamengo, continue na Gávea depois do mundial da Rússia. Outro problema é a inadequação do estilo de Henrique Dourado ao esquema de jogo do Flamengo. O ressuscitado Vizeu, autor de gols nos três últimos jogos, está de partida para a Udinese. O Flamengo precisa encontrar um centroavante até que Lincoln esteja pronto.

Flamengo/Gilvan de Souza

Além do desmonte, outro aspecto vai ser ruim para o Flamengo. As 26 rodadas que se seguirão após a Copa do Mundo terão um time a ser batido: o Flamengo. Os adversários terão tempo de estudar o rubro-negro, saber quais os caminhos adotados para controlar os jogos e conseguir as vitórias. A vantagem de Maurício Barbieri é que no novo campeonato ele vai começar com alguma gordura, poderá ganhar tempo de rodagem e estudar melhor o grupo.

O Flamengo das grandes contratações e da gestão financeira exemplar está encontrando o caminho com soluções internas. Em alguns momentos o time fica com seis ou sete jogadores formados na base. O time da Gávea tem que gradativamente mudar a estratégia. Tem que tentar segurar as promessas. Léo Duarte hoje é o melhor zagueiro do time, Thurler entra e parece veterano. Então, o Flamengo das contas magníficas tem que deixar de ser o Flamengo exportador de promessas e importador de medalhões. Iniesta, Xavi e o próprio Messi jogaram na base do Barcelona. Em algum momento o futebol brasileiro tem que reagir.

A janela de contratações europeias extermina a competição nacional. O Brasil tem que parar de se comportar como futebol periférico. Irrita-me ver Rodrygo, Vinicius Jr, Paulinho e tantos outros saírem daqui sem que os torcedores criem identificação com eles. O Santos ainda conseguiu segurar Neymar por um tempo, mas de resto, nenhum clube consegue.

Vinicius Jr rendeu um bom dinheiro ao Flamengo. No entanto, diz adeus antes de se tornar uma realidade. Antes de ficar tatuado no coração dos torcedores. A roda gira, os milhões voam. São Gonçalo ficou para trás, o Maracanã ficou na memória. Quando muito, Vinicius voltará se for convocado para o time da CBF e se na sua ‘Global Tour”, o time da camisa amarela se dignar a jogar no Maracanã. O Estádio já foi sua casa. Os donos do time tem outros interesses além do futebol e mudaram de casa. O FBI sabe muito bem como e por qual motivo.

Gilvan de Souza

 

Por Creso Soares

*Fotos: Gilvan de Souza/Flamengo

Seleção só acerta no 2º tempo

Tite, tem que resistir à tentação de ser retranqueiro

Seleção só acerta no 2º tempo

Na idade média os alquimistas diziam ter uma fórmula para transformar chumbo em ouro. As promessas não foram concretizadas e acabaram batizando a expressão “ouro de tolo”.

Na década de 1970,  Raul Seixas usou a expressão para dar nome a uma música em que reclamava de ter atingido seus objetivos, mas que não poderia se conformar e ficar parado.

Tem uma parte da musica que me alimenta o espírito atualmente. “Ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”.

“Mas o que isso tem a ver com esporte?’, deve está se perguntando o meu leitor matinal. É que a vitória do time da CBF neste domingo pode ter sido “ouro de tolo”. No primeiro tempo enquanto jogou com o time titular, a Croácia controlou o amistoso com o time de Tite. O toque de bola era croata, os “brucutus” estavam do lado brasileiro. Casemiro e Fernandinho juntos é de uma pobreza ofensiva impressionante. Até o “poderoso” líder do campeonato brasileiro joga com apenas um volante de marcação, logo, Tite poderia desistir logo dessa armação. O garoto propaganda do maior banco do país deveria pensar numa escalação mais ousada.

No segundo tempo, o rapaz mimado que veste a camisa 10 da seleçãol entrou em jogo e mostrou porque é uma das estrelas do mundo da bola. Sua presença pareceu sacudir a pasmaceira do time da CBF.

 Lucas Figueiredo/CBF

O time tem que evoluir, aprender a sair da armadilha dos times que marcam na saída de bola, a tal “marcação alta” que o modernoso jargão da bola classifica. O 2 a 0 foi placar mentiroso, foi “ouro de tolo” e não deu a dimensão do que foi o jogo.

 Lucas Figueiredo/CBF

Tenho a impressão que Tite foi responsável por uma coisa positiva que aconteceu no Maracanã. Tenho cá pra mim que a não convocação para a Copa deixou Diego mordido. Na boa partida entre Flamengo e Corinthians, o camisa 10 da Gávea teve uma atuação no nível das que teve até se contundir na Libertadores do ano passado. Armou, chutou com perigo, arrancou com a bola dominada, participou do gol que decidiu o jogo. Estava tão pilhado, que recebeu um cartão amarelo por reclamação e está fora do Fla-Flu.

A vitória quase se transforma em “ouro de tolo”. O marombado Anderson Daronco terminou o jogo num lance que despertou polêmica. Mas ao acompanhar o replay, dá para perceber que ele apita o jogo quando Rodinei pega a bola e vai despachar. Ele nem olhou. Quando lateral rubro-negro pegou a bola, ele decretou o fim da partida. Na sequência, já com o jogo encerrado, é que a bola parou no pé do jogador corintiano.

A partida mostrou que sem Guerrero, não dá para contar com Henrique Dourado. Ele perdeu boas chances e errou lances fáceis. As 9 primeiras rodadas o Flamengo são de sonho. O time foi líder em 6, tem o melhor ataque, fez gol em todos os jogos, e tem um aproveitamento de mais de 70%.

 Gilvan de Souza

Depois da Copa do Mundo o Brasileirão será uma outra competição. Resta saber que Flamengo volta depois do recesso. Apesar de algumas bobeadas, Maurício Barbieri vai dando padrão de jogo ao time. A contratação de um diretor de futebol, como Paulo Autuori, por exemplo, pode mudar o patamar  rubro-negro.

Resta saber se a temporada rubro-negra será dourada ou se não passará de “ouro de tolo”.

Por Creso Soares

Acho que a Alemanha não parou de fazer gol

Acho que a Alemanha não parou de fazer gol

Copa do Mundo ainda não “esquentou” a torcida brasileira

A seleção brasileira segue para a Europa. Vai para onde verdadeiramente se sente em casa. Enquanto por aqui continuamos sem saber quando tudo vai se normalizar, o time da CBF se prepara para mais uma Copa do Mundo.

Senti uma nostalgia de quando tinha um segundo time, a seleção brasileira. Hoje não é mais assim. Com o público carioca então, essa relação está cada vez mais distante. Distância que é fruto do uso político do time com a camisa amarela, que levou dois jogos para o Mineirão e nenhum para o Maracanã na última Copa.

A entrevista que o lateral Marcelo deu após o jogo do Real Madrid contra o Liverpool foi sincera e desconcertante. A repórter perguntou se agora era concentração total na Copa do Mundo. Ele respondeu “hoje, não. Vou comemorar o título com meu time”. Ele está absolutamente certo, ele joga numa seleção mundial o ano todo. A seleção brasileira é um complemento. Marcelo já ganhou quatro vezes a Champions e ganhou 4 vezes o Mundial Interclubes. Se não ganhar a Copa do Mundo é apenas um título que perdeu.

Futebol é negócio. As cifras milionárias já tiraram a inocências dessas megaempresas que vestem uniformes e vão jogar. Cada um deles tem assessor de imprensa, nutricionista, psicólogo, advogado, um staff completo para cuidar daquela “pessoa jurídica”, que duas vezes na semana, durante 90 minutos, chuta uma bola e eventualmente, faz um gol.

Aqui não vai nenhuma crítica, é apenas constatação da realidade. E desde que ditadura Teixeira-Marin-Del Nero assumiu a CBF, esse império do dinheiro entrou no futebol brasileiro e não saiu mais.

A equação Dinheiro + Esporte enriquece poucos e muda as relações sociais no mundo da bola. E tudo vira um vale-tudo dentro de campo. Jogadores se tornam cada vez mais adeptos do futebol cafajeste.

A entrada do zagueiro Sergio Ramos, do Real Madrid, em Mohamed Salah, do Liverpool, é daquelas desclassificantes. Mas tem gente que diz que é “do jogo”, “futebol é pra homem” e outras bobagens que degradam um dos esportes mais bonitos que o ser humano poderia inventar.

Como lembrou meu amigo Eugênio Leal, Sérgio Ramos não pegava nem juvenil para o Rodrigo, mais um desses zumbis metidos a malandro que acham que o futebol é o campo das trapaças. E tem gente que aplaude, que diz: “todo time do mundo quer um Sergio Ramos”, ou “Rodrigo é um grande líder”.

E nesse espírito chega o Brasil para a disputa de mais uma Copa do Mundo. A verdade é que a distância que tenho de Neymar é a mesma que guardo de Messi e Cristiano Ronaldo. Nos jogos da seleção, vou me reunir com amigos e fazer aquela festa, mas a Copa vai servir para eu tirar férias do que realmente me importa no futebol, meu time de coração.

Se o Brasil ganhar, vai ser legal. Se perder, vai ser só mais uma rotina. Nasci em 1971, de lá para cá essa será 12ª Copa. Até o momento, vi a seleção brasileira perder mais do que ganhar. São 2 vitórias e 9 perdas de título. Então, não será novidade a derrota.

A CBF está no fundo do poço da moralidade, entregue a gângsters que são condenados pela justiça, mas não entregam o poder de fato. Se vencerem a Copa, esses usurpadores de uma paixão nacional só terão ainda mais vantagens nas suas armações. E os jogadores estão lá, instrumentos da negociata. Durante um tempo servem ao esquema, quando ficam velhos, tentam esticar uma sobrevida como comentaristas, técnicos ou dirigentes, ou então, simplesmente, são jogados fora.

Mas vai começar a Copa, quem sabe quando a bola rolar, o povo se empolgue. A verdade é que está mais fácil encontrar gasolina em posto do que rua pintada para a Copa do Mundo. Acho que a Alemanha não parou de fazer gol até agora. Já deve estar 777 a 1.

Por Creso Soares