O Flamengo tem que ser transparente

O Flamengo tem que ser transparente

Clube deve mudar estratégia para melhorar a imagem

Vidas não têm preço. Essa frase desgastada e verdadeira voltou à tona nas negociações pra a reparação às família atingidas na tragédia do Ninho do Urubu. O Flamengo colocou os pés pelas mãos e deixou os parentes revoltados com o que foi proposto.

Neste domingo, com muito atraso, o presidente Rodolfo Landim apareceu para dar uma coletiva. Na entrevista, ele disse que os números que apareceram noticiados são um piso para as negociações com os parentes das vítimas e não um teto.

A verdade é que vidas não tem preço, mas nos casos de reparação precisam ser precificadas. Não há outro caminho. Se são R$ 400 mil ou R$ 2 milhões por morte vai depender do que as partes conseguirem acordar. O fato é que vidas humanas não deveriam ter valor monetário, mas nesse caso terão.

O papel dos pais é tentar o máximo que achem justo e o papel do Flamengo é procurar pagar o que o clube acha justo. É assim que as partes se sentam nessa dolorosa e necessária mesa de negociação. Um dos pais disse que o Flamengo não pagou nada e nem deu assistência. É papel dos jornalistas apurar se essa informação é verídica. Tentar com o clube notas e transações bancárias que mostrem as despesas que a instituição diz ter. Enquanto estiver no “declaratório”, com o Flamengo dizendo que pagou e as famílias dizendo que não estão recebendo ajuda ficam abertas as portas para que cada um acredite no que quiser.

Li nas redes sociais que há pessoas querendo parar de pagar o plano de sócio-torcedor do Flamengo enquanto não forem pagas as indenizações. Pois bem, se isso acontecer, aí é que vai demorar mais para que o clube  arque com as consequências financeiras provocadas pela tragédia. Pois, se fechar uma das torneiras, o Flamengo pode passar por uma asfixia financeira.

Um insuportável serviço de telemarketing me ofereceu um seguro de vida. Para o caso de acidentes, foi calculado o valor de R$ 300 mil. Logo, posso concluir que para o banco em questão minha vida tem valor: R$ 300 mil.

O futebol estipula os valores para a vida. Neymar saiu do Barcelona para o PSG por  cifras equivalentes a quase R$ 1 bilhão.  Cristiano Ronaldo arrumou um jeito para que o Real Madrid o vendesse a uma quantia correspondente a “apenas” R$ 100 milhões a Juventus de Turim.

Vi muita gente que admiro dizendo que uma vida não tem valor. Mas tudo que as pessoas precisam neste momento é chegar ao acordo do valor de uma vida. É duro, mas os advogados de ambas as partes devem deixar a emoção fora da mesa de negociações. Os sentimentos devem ficar com as famílias. Elas perderam algo irrecuperável.

E como nesses casos é comum, devem ter aparecido profissionais do Direito insuflando os sentimentos mais hostis contra o clube nessa ocasião delicada. Em vez de uma orientação jurídica, em alguns momentos esses profissionais querem colocar mais lenha na fogueira, pois quanto maior o valor da indenização e o tempo que o caso se arrastar, maior serão seus ganhos.

A não ida de Rodolfo Landim à reunião com as famílias passou a mensagem de insensibilidade. Ao se tornar o dirigente máximo do clube, as responsabilidades são na “saúde e na doença”. A ausência só piorou a imagem do Flamengo.

O clube errou ao fazer uma comunicação falha. A entrevista coletiva deste domingo teve também a função de mudar a estratégia pública para tratar o caso. Quem sabe pode diminuir o estrago ocasionado pelo fato do vice-presidente jurídico, Rodrigo Dunshee,  deixar a reunião com as famílias antes do fim, alegando que tinha outras coisas para fazer. A prioridade de todos deveria ser resolver essa situação dramática.

E nesse momento de fragilidade da instituição, aparecem os inimigos. Junto com a justa revolta pela situação, alguns inimigos do clube acentuam a campanha para que o Flamengo seja severamente punido. Já houve teses de que o clube deveria ser rebaixado, ter bens e receitas bloqueados. Essas declarações não são de apoio às vítimas, são uma campanha para derrubar o concorrente no mercado do futebol.

A vida é assim. Inviabilizar o Flamengo enquanto clube de futebol é um dos objetivos desses inimigos. A preponderância financeira rubro-negra , consequência direta da imensidão de sua torcida, desperta inveja e ira. Há inimigos que querem o enfraquecimento do Flamengo, que aproveitam a tragédia para atacar a instituição.

Minha total solidariedade a essa famílias que perderam seus filhos. Que viram os sonhos serem arrancados. Mas meu total repúdio à quem se aproveita desse fato lamentável para querer aniquilar o Flamengo. Que os responsáveis sejam punidos civil e criminalmente. Mas o Flamengo, ao contrário do que pensam alguns, não pode acabar.

 

Por Creso Soares

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